14 de julho de 2024

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Mistério no Palácio do Catete: achado arqueológico mobiliza pesquisadores

O chão do Palácio do Catete recebeu mais acontecimentos que os livros podem nos contar. Décadas após momentos emblemáticos como o polêmico baile Corta-Jaca, em 1914, e o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o prédio — que hoje é o Museu da República — é palco de um momento intrigante. Em meio às camadas de história, foram descobertos, no mês passado, ladrilhos com requinte artístico do século XIX. O achado surpreende até mesmo quem trabalha há anos na pesquisa e curadoria do local, já que não há uma planta arquitetônica da época que mostre o que um dia já foi aquela construção.

A estrutura foi encontrada a 75 centímetros abaixo do solo, em ótimo estado de conservação. A descoberta se deu durante uma escavação para a modernização do sistema de esgoto e, agora, será material de estudo para mostrar mais detalhes de como a sociedade se comportava à época.

Construído entre 1858 e 1867, o palácio foi arquitetado pelo alemão Carl Friedrich Gustav Waehneldt e residência do comerciante e fazendeiro de café Antônio Clemente Pinto, o Barão de Nova Friburgo. Embora ainda não se saiba a original função da estrutura recém-encontrada, estudiosos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) acreditam que, pelos relatos da cultura popular oral, os ladrilhos podem ser parte de uma antiga casa de banhos ou até mesmo da residência da sogra do barão. Há também quem suponha que ali poderia ser mais uma das entradas do palácio.

— São chutes, a gente ainda não teve tempo de pesquisa. Isso aqui pode ser parte de uma cozinha ou de um lavatório, porque essas construções eram mais afastadas. Mas será que eram tão afastadas? O que temos aqui são algumas hipóteses, porque nenhuma planta do palácio indicava que aqui teria alguma construção. Então, agora, nós precisamos entender. O que sabemos é que são pisos hidráulicos, que costumavam ser usados em áreas molhadas — explica a museóloga Isabel Portella.

A semelhança entre os desenhos estampados nos pisos do interior do palácio com os encontrados no jardim leva a crer que foram comprados, ao menos, do mesmo fabricante.

Ladrilhos da Inglaterra

Até então, não se sabia de qual país o Barão de Nova Friburgo importara os ladrilhos usados em sua residência. Apesar de ter deixado diversos documentos, como recibos e anotações, sobre as compras efetuadas durante a construção do paço, nenhum indicava a origem dos materiais.

— Tudo vinha de fora. Sabemos que a madeira ele comprou daqui do Brasil, mas esse piso hidráulico, por exemplo, não se tinha ideia. Conseguimos identificar agora iniciais que indicam ser uma empresa inglesa e o desenho se assemelha ao que temos no palácio. Então, sabemos que esse piso encontrado remete ao tempo do barão — relata Isabel Portella.

O que facilitou a identificação do fabricante dos ladrilhos foi um pequeno pedaço que quebrou com as escavações no jardim. A partir disso, arqueóloga responsável por acompanhar as obras no museu, Ane Elisabeth Simões, conseguiu chegar à empresa responsável pela fabricação do piso, chamada Milton Hollins & Co. A empresa britânica, foi, inclusive, responsável por uma modernização feita no Palácio de Westminster, em Londres.

Paulo Vidal, superintendente do Iphan no Rio de Janeiro, afirma que o achado mostra a importância das pesquisas arqueológicas para a descoberta da história da cidade:

— Revelam como a arqueologia histórica tem sido importante ao revelar parte da cidade que não é mais visível. Existe uma história que pode ser recuperada a partir das pesquisas arqueológicas das diversas intervenções pelas quais a cidade vem passando ao longo dos últimos anos.

Quase foram encontrados em 1996

Há mais de duas décadas, os ladrilhos chegaram perto de ser encontrados. Com a construção de uma reserva técnica na área externa do palácio, em 1996, foram instaladas tubulações a 15 centímetros acima de onde estão assentados os pisos hidráulicos.

— Temos canos próximos aos ladrilhos que são da época dessa construção, mas a gente acredita que outras intervenções já tenham sido feitas por ali ao longo do tempo. Como não se tinha conhecimento de que nada havia sido construído ali, pode ter inclusive prejudicado de alguma forma — afirma a arquiteta Ana Cecília Santana, chefe do setor no museu.

Quem observa, agora, a escavação, consegue observar as camadas de história que passaram por ali desde que o piso foi colocado. Por cima, exitem entulhos de obras, paralelepípedos e, na superfície, asfalto.

— O mistério agora é descobrir o que tínhamos aqui — finaliza a arqueóloga Ane Elisabeth.

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