Violência infantil: casos atendidos pelo Pequeno Príncipe revelam abuso sexual recorrente e vítimas cada vez mais jovens
No mês do 18 de Maio, instituição de referência em saúde infantojuvenil amplia o debate sobre proteção à infância ao completar 20 anos da Campanha Pra Toda Vida
Em um mês marcado nacionalmente pelas mobilizações do 18 de Maio — Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes —, a Campanha Pra Toda Vida — A Violência Não Pode Marcar o Futuro das Crianças e Adolescentes, do Hospital Pequeno Príncipe, completa 20 anos reforçando um alerta urgente: a violência contra crianças é precoce, recorrente e, na maioria dos casos, acontece dentro de casa. Ao longo de duas décadas, já são mais de dez mil casos atendidos das mais diferentes formas de abuso, um volume que não apenas revela a dimensão do problema, mas permite identificar padrões consistentes.
Somente em 2025, o Hospital — maior e mais completo pediátrico do país — registrou 637 atendimentos de bebês, crianças e adolescentes com suspeita de maus-tratos e abusos. A análise desses atendimentos mostra que a violência sexual segue como principal ocorrência, presente em 64% das situações, e atinge majoritariamente crianças na primeira infância: 67% das vítimas tinham até 6 anos, sendo que uma em cada três tinha até 3 anos. Ao mesmo tempo, 72% das agressões ocorrem no ambiente doméstico, e 24% dos registros apresentam recorrência — indicando que a violência, muitas vezes, não é um episódio isolado, e sim um ciclo que se repete ao longo do tempo.
Casos extremos ajudam a dimensionar essa realidade: a criança mais nova atendida em 2025 com indícios de abuso sexual tinha apenas 6 meses de vida. Outro atendimento impactante registrado em 2025, desta vez relacionado à violência física, foi o de um recém-nascido de apenas 10 dias, internado com múltiplas lesões.
Esse conjunto de evidências aponta para um cenário complexo: a violência é, ao mesmo tempo, íntima, silenciosa e difícil de ser identificada, especialmente porque atinge vítimas que ainda não conseguem compreender ou relatar o que vivem. Por isso, o enfrentamento passa necessariamente pelo olhar atento de adultos e pela atuação qualificada da rede de proteção. É a partir dessa necessidade que a campanha estrutura suas ações.
O papel do adulto na identificação da violência
Uma das frentes da iniciativa é fortalecer a capacidade de adultos reconhecerem sinais de alerta e compreenderem que a denúncia é o primeiro passo para interromper o ciclo de agressão. Para isso, identificar mudanças de comportamento pode ser decisivo.
Alguns sinais que podem indicar diferentes formas de violência incluem:
• mudanças bruscas de comportamento;
• recusa ou dificuldade para dormir;
• medo de determinadas pessoas ou lugares;
• isolamento ou agressividade;
• volta da evacuação nas roupas (após fase de desfralde — inclusive na adolescência);
• queda no rendimento escolar;
• conhecimento ou comportamento sexual incompatível com a idade.
Dados que orientam 20 anos de mobilização
Ao completar 20 anos, a Campanha Pra Toda Vida se soma às mobilizações nacionais do 18 de Maio, reforçando que o enfrentamento da violência depende de informação, denúncia e atuação coletiva. Para transformar essas informações em ação concreta, o Hospital Pequeno Príncipe desenvolve iniciativas de prevenção e mobilização.
O que começou como uma ação de conscientização para romper o silêncio e incentivar a denúncia tornou-se um movimento estruturado, que hoje atua em múltiplas frentes: produção de conteúdo técnico, formação de profissionais, mobilização social, uso de dados e evidências e fortalecimento da rede de proteção. Nesse percurso, a iniciativa acompanhou transformações sociais, incorporando temas como prevenção, violência digital e protagonismo infantil.
A proposta teve origem em uma mobilização voltada à atuação de profissionais da saúde diante de casos suspeitos de violência infantil. Em sua criação, contou com apoio da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, a partir da percepção de ortopedistas de que muitas crianças chegavam aos serviços de saúde com lesões incompatíveis com os relatos apresentados pelos responsáveis — um dos primeiros sinais de alerta para situações de maus-tratos e abusos.
Em 20 anos, o Hospital Pequeno Príncipe ultrapassou dez mil atendimentos de crianças e adolescentes em situação de risco, com crescimento de 126% na série histórica — um indicativo da persistência do problema. Em 2026, com o mote “Proteger a infância é um compromisso de todos”, a campanha reforça que o enfrentamento da violência exige uma rede ativa — envolvendo famílias, escolas, profissionais, poder público e toda a sociedade.
“O Pequeno Príncipe chama atenção para a importância de todos os atores sociais estarem atentos ao enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes. Quando a violência atinge crianças tão pequenas, enfrentá-la depende da ação de todos”, afirma a diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, Ety Cristina Forte Carneiro.
Denunciar é proteger
O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes foi instituído pela Lei Federal nº 9.970/2000, em memória de Araceli Crespo, menina de 8 anos sequestrada, violentada e assassinada em 1973, em um crime que se tornou símbolo da luta pelos direitos das crianças e adolescentes no Brasil.
A campanha 18M é promovida pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania em parceria com organizações da rede de proteção à infância. As mobilizações do mês de maio também dialogam com a campanha nacional “Faça Bonito: Proteja nossas Crianças e Adolescentes”, realizada em todo o país como forma de conscientizar a sociedade sobre a prevenção e o enfrentamento da violência sexual infantojuvenil.
A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência — e pode ser feita de forma anônima pelos números:
• Disque 100 (nacional)
• 181 (Paraná)
• 156 (Curitiba)

