Combate aos anabolizantes: ALERJ é pioneira na criação de leis que proíbem substâncias
Com legislação desde 2002, o Parlamento fluminense proíbe comercialização das substâncias consideradas anabolizantes e obriga academias a alertar sobre os riscos; tema volta ao debate após morte de atleta de 22 anos.
O culto ao corpo perfeito, frequentemente alimentado por celebridades, blogueiros, atletas e até por profissionais da saúde, tem impulsionado o uso de anabolizantes independentemente de sexo, idade ou condição social. A busca por um físico mais bonito, forte e saudável leva muitas pessoas a praticarem exercícios e adotarem dietas equilibradas, mas alguns incluem nessa rotina substâncias que podem colocar a saúde em risco.
O debate voltou com força após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, de 22 anos, encontrado sem vida no último sábado. O atestado de óbito do jovem apontou morte súbita causada por cardiomiopatia hipertrófica, doença em que o músculo cardíaco se torna anormalmente espesso, condição que pode ser agravada pelo uso de anabolizantes. Nas redes sociais, o atleta afirmava abertamente que usava hormônios.
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) já age há mais de duas décadas na prevenção e combate a essas substâncias. A Lei 3.985/02 proíbe a comercialização de qualquer medicamento ou produto considerado anabolizante em todo o território fluminense, com exceção aos casos prescritos por médicos com as especificações exigidas. Os estabelecimentos que desrespeitarem a norma estão sujeitos a multas entre 1.000 e 10.000 Unidades Fiscais de Referência (UFIRs), o equivalente a R$ 4.960 e R$ 49.600.
A proteção vai além da proibição da venda. A Alerj também obriga academias de ginástica, clubes esportivos e estabelecimentos similares a realizarem palestras mensais de conscientização sobre os riscos do uso dessas substâncias. A medida, de autoria da deputada Lucinha (PSD), atualiza a Lei 4.734/06 — que já exigia a fixação de avisos sobre os perigos — e determina ainda que, no ato da matrícula, o aluno receba uma cartilha alertando sobre os malefícios dos anabolizantes ao organismo.
“O uso dessas substâncias pode causar sérios problemas de saúde, como dano ao fígado, icterícia, retenção de fluidos, pressão alta, elevação do colesterol ruim, insuficiência renal, acne severa e tremores”, alerta a deputada Lucinha.
Efeitos colaterais dos anabolizantes
Os riscos são amplamente documentados. Segundo a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o uso de anabolizantes provoca efeitos colaterais em homens e mulheres, como explosões de raiva, comportamento agressivo, paranoia, alucinações, psicoses, coágulos sanguíneos, retenção de líquidos e aumento da pressão arterial. Em adolescentes, há risco de comprometimento do crescimento e maturação óssea acelerada. A entidade classifica o uso disseminado dessas substâncias, dentro e fora do esporte de elite, como uma epidemia mundial e um grave problema de saúde pública.
De acordo com a Associação Médica Brasileira (AMB), o volume de vendas de anabolizantes industrializados cresceu 45% entre 2019 e 2021. A testosterona é o principal hormônio utilizado, mas não o único: a insulina, substância que mantém diabéticos vivos, também passou a ser injetada por praticantes de fisiculturismo em busca de mais massa muscular.
Quem viveu esse ciclo de perto conhece bem as consequências. Laura Campos, frequentadora de academia, conta que começou com comprimidos e, ao longo do tempo, migrou para os injetáveis, sempre sem acompanhamento médico. “Para aquele momento eu achava que fazia sentido. Mas hoje, quando penso no todo, não vale. Para viver aquele resultado, você abre mão de muita coisa: alimentação restrita, problemas no fígado, não pode beber. Isso tem consequências a médio e longo prazo”, reflete.
Laura também enfrentou dismorfia corporal, tornando-se obcecada pela busca do corpo perfeito. O primeiro sinal de alerta veio com a virilização e a queda acentuada de cabelo. O ponto de virada foi um princípio de úlcera no estômago. “A partir daí, eu repensei. Fiz meus exames e vi que a saúde não estava boa”, conclui.

