Assustadas com ataques, escolas anunciam catracas, detectores de metais e segurança armada

Após 22 ocorrências violentas desde 2002, sendo nove apenas nos últimos oito meses, escolas e redes de ensino de todo o país, públicas e particulares, estão investindo cada vez mais em medidas de segurança para dar respostas rápidas a famílias, alunos e sociedade. Com a morte de quatro crianças em ataque a creche em Blumenau, Santa Catarina, na última quinta-feira, o debate se intensificou, e já são anunciadas novidades como adoção de detectores de metal e até de seguranças armados.

Nas escolas privadas, a preocupação é tão grande que, além de intensificar o treinamento de porteiros e vigilantes, o próximo passo deverá ser implantar protocolos de fuga para a comunidade escolar em caso de atentado.

Amábile Pacios, vice-presidente da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), diz ser contra o uso de arma de fogo, mas adianta que a entidade está articulando cursos para funcionários de portaria e de vigilância, que abordem técnicas de imobilização, de autodefesa e de reconhecimento de armas brancas e de fogo. Ela critica a lei que impede a revista física e de mochilas de alunos e defende que ela seja revogada.

— Há estudos que comprovam que ambientes com armas tendem a ser mais violentos, então a proposta é dar o devido treinamento para que os profissionais estejam capacitados para atuar na defesa dos alunos. As escolas são orientadas a adotar câmeras de segurança, catracas e outros meios conforme o porte e a necessidade — afirma Pacios, acrescentando um alerta. — Mas para que o efeito seja amplo, é preciso haver políticas públicas que coloquem mais policiais da patrulha escolar nas ruas, visto que a quantidade de agentes hoje não é suficiente para suprir as necessidades.

Em Santa Catarina, os professores passarão a ter aulas de defesa pessoal que deverão ser ministradas por policiais militares. O governo do estado promete, para segunda-feira, o anúncio de um pacote que, além de maior presença policial, visa a ações integradas de prevenção, educação e tecnologia. No rastro do medo, cidades do estado, algumas próximas de Blumenau, vão adotar seguranças armados nas portas de acesso dos alunos, caso de Indaial, e outras já falam em ampliar o uso de detectores de metal, como Chapecó, também em Santa Catarina.

— As nossas escolas de educação infantil terão segurança armada para dar uma resposta imediata a quem vir atentar contra nossas crianças — afirmou André Moser (PSDB-SC), prefeito de Indaial.

Além disso, Chapecó lança mão de policiais aposentados na segurança de escolas e oferece apoio psicológico aos estudantes. Em Nova Veneza (SC), os profissionais de escolas da região serão treinados para situações de perigo e para dar proteção aos alunos. Em São Paulo, onde a professora Elizabeth Tenreiro, de 71 anos, foi morta num atentado de um aluno de 13 anos há duas semanas, a mobilização é forte. Em Boituva, o policiamento será reforçado em escolas públicas e privadas e, em Vinhedo, além do reforço policial, será criado um canal de Whatapp para receber denúncias anônimas sobre atitudes suspeitas. Em Macapá (AP), agentes da Guarda Municipal prestarão serviço diretamente nas escolas, os servidores das unidades de ensino serão treinados e as rondas escolares intensificadas. Já São Mateus (ES), está planejando uma linha de emergência, que vai funcionar como um “botão de pânico”. No fim do ano passado, em Aracruz, no norte do estado, um adolescente matou quatro pessoas e deixou mais de 10 feridas.

Catracas e revista

 

Uma crítica de Pacios é ao contingente das patrulhas escolares. Ela afirma que, em Brasília, por exemplo, o serviço é eficiente e os policiais são acionados por telefone ou via WhatsApp para as ocorrências. No entanto, destaca, a ronda não é contínua por falta de pessoal para atender tanto escolas públicas quanto privadas.

A avalanche de iniciativas para tentar “blindar” a sala de aula, que surge a reboque da angústia de todos sobre a segurança escolar, repetindo um fenômeno conhecido nos EUA, preocupa os especialistas. Eles chamam a atenção para a necessidade de uma atuação pedagógica contínua para reduzir as tensões dentro das salas de aula, que se relacionam com questões sociais, bullying ou distúrbios familiares de alunos.

— Esses adolescentes sentem ódio, são radicalizados, sentem-se pertencentes a comunidades violentas. Vigilância nas escolas não muda isso, não mudará os sentimentos, os preconceitos, o uso da violência em vez de palavras. É por meio dos afetos, pertencimento, sentimento de comunidade e conhecimento/debate, que isso se transforma. E isso só pode acontecer na escola — afirma a coordenadora do Instituto de Estudos Avançados da Unicamp, Telma Vinha, que lidera também o grupo Ética, Democracia e Diversidade na Escola Pública na Faculdade de Educação.

A Associação Brasileira de Educação Infantil (Asbrei), que auxilia especialmente creches, criou um ciclo de palestras e de treinamentos com especialistas em segurança preventiva. Segundo a entidade, toda a comunidade escolar será treinada. A proposta, no caso das crianças, envolve abordagens lúdicas que respeitem sua faixa etária e entendimento. No calendário a ser aplicado, estão palestras sobre segurança para pais; capacitação para primeiros socorros; simulação de fuga em casos de invasão; e treinamento de autodefesa.

— As palestras terão como foco a prevenção e a manutenção da escola como um ambiente saudável — afirma Frederico Venturine, presidente da Asbrei. — É imprescindível destacar que a Segurança Pública é responsabilidade do estado. Vivemos um momento em que os órgãos responsáveis por combater a violência não conseguem prover segurança à sociedade, então, as escolas ficam suscetíveis a situações de risco.

Segundo o diretor-geral do Colégio Ao Cubo, Rafael Pinna, os casos de violência são, historicamente, a manifestação extrema de questões não resolvidas. As respostas, diz, podem estar num olhar atento para dentro da escola.

— Com uma equipe bem treinada, é possível identificar, no dia a dia, um estudante excluído ou com atitudes que indiquem a necessidade de uma atenção especial, e fazer contato com a família — conclui Pinna.

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