25 de julho de 2024

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Sangue de Maria Bonita e Lampião na Imperatriz: ‘se nascesse hoje, ia querer ser filha deles de novo’

“Não vim para perder, eu vim para ganhar.” É assim que a aposentada Expedita Ferreira Nunes, de 90 anos, define a sua viagem de Aracaju, onde mora, para o Rio de Janeiro. Única filha dos cangaceiros Lampião e Maria Bonita, manteve -se em pé, sobre uma alegoria, nos 700 metros de extensão da Sapucaí, em desfile da Imperatriz, escola que mergulhou no delírio dos cordéis para vislumbrar um destino pós-morte para Virgulino Ferreira, o rei do cangaço.

A madrugada de segunda para terça-feira, quando a escola de Ramos entrou no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no entanto, foi mais um capítulo de uma maratona de desfiles, que começou no Anhembi (SP), onde desfilou pela Mancha Verde, que contou a história do xaxado e fez referência a seus pais.

— Aqui fui pé quente, mas lá fui pé frio — brinca Expedita, referindo-se ao título da Imperatriz no Rio, enquanto a Mancha Verde ficou com o vice em São Paulo. — Foi uma satisfação enorme meus pais serem homenageados. Uma coisa que eu nunca esperei, muito menos me convidarem. Essa é a prova que eles são lembrados. Estou muito orgulhosa de ser filha deles. Se nascesse hoje, ia querer ser filha deles de novo— comemora ela, hospedada em um hotel da Zona Sul, onde ficará até o desfile das Campeãs, no sábado, último destino antes de voltar para casa.

Pela primeira vez sentindo o clima na quadra de uma escola de samba, a idosa ficou impressionada com a festa do título da Imperatriz, em Ramos, anteontem.

— Não sambei, fiquei só observando a loucura, que eu nunca tinha visto. Gostei. A quadra tava que ninguém se mexia, e foi entrando gente. Quando terminou a apuração, o povo endoidou — gargalhou Expedita, que garante que “ninguém está doido”, ao ser perguntada se tentaram pegá-la no colo para comemorar.

Apesar da preocupação com a memória da família, Expedita teve pouco convívio com os pais. Aos 21 dias de vida, foi entregue ao casal Aurora e Manoel Severo, responsáveis por sua criação. — Lembro das visitas que eles (Lampião e Maria Bonita) me faziam, em que era sempre correndo, não podiam demorar — conta a herdeira do cangaço, que tinha cinco anos quando os pais morreram. Aos oito, foi descoberta por um juiz de menores, que a levou da fazenda em que era criada, entre os estados de Alagoas e Sergipe, para a Bahia. — Foi quando entrei em desespero. Fiquei na casa do juiz e, depois, fui entregue a meu tio João Ferreira, único irmão de meu pai não-envolvido com o cangaço.

A imagem que Expedita tinha de Lampião e Maria Bonita era, entretanto, a partir do que as pessoas falavam pelas ruas, o que podia ser negativo e até um tabu.

— O povo tinha uma imagem deles como criminosos, malfeitores, ladrões. Meus filhos (Iza, Gleuse, Dejair e Vera) foram criados dentro de casa. Iam para a escola e, da escola, para casa. Ensinei a jogar bola de gude, soltar pipa, rodar pião. Quem quisesse brincar, ia para a minha casa, para, se acontecesse algo, não dizerem que “tudo era raça de Lampião” — relembra.

Mudança de imagem

A virada nessa narrativa negativa veio quando, em 1969, Expedita foi convidada pela escritora Maria Matta Machado, que lançaria o livro “As táticas de guerra dos cangaceiros”, para fazer uma viagem a São Paulo.

— Eu e minha filha mais velha, Vera, visitamos o apartamento dela, na (avenida) Paulista. Lá estavam os cangaceiros Sila, Sereno, Dadá, Balão e Pitombeira. Foi quando vi quem foi Lampião (e Maria Bonita), aí a minha cabeça mudou. Eles contaram que eram pessoas boas, que faziam caridade e que eles gostavam muito — detalha Expedita, que considera o momento marcante em sua vida.

Gleuse Ferreira, neta de Expedita, observa que a família tem consciência do passado, mas contextualiza que os cangaceiros eram movidos por um “sentimento de justiça”, já que “não tinham para quem recorrer”.

‘Sangue de Maria Bonita’

A expressão ganhou popularidade na edição deste ano do reality show BBB, da TV Globo, em que o médico Fred Nicácio tentava encorajar a sister Marília, falando que ela era “uma mulher empoderada”.

— Foi ótimo, teve uma repercussão enorme. Até a Anitta se fantasiou de Maria Bonita, quando fez um show em Recife — comemorou Gleuse, que foi vestida de cangaceira para um bloco no Rio, junto a outros familiares, atração entre os foliões, que pediam para tirar fotos.

Expedita conta como manter a disposição aos 90:

— Adoro rua. Estou sentindo dor? Não tem esse negócio, se falar “vamos para a rua”, eu vou. Faço pilates, fisioterapia e pintura. Falo para as pessoas que aproveitem as oportunidades enquanto têm forças. Porque depois de certa idade, nem todo mundo chega com essa vontade que eu tenho de viver. Quando a “magra” (morte) chega, ela não quer sabe. Quero que esqueça de mim — brinca a herdeira de Lampião, que precisou de massagem após o desfile da Imperatriz, para passar a dor no pescoço, o que, para a idosa, não é problema.

Outra nuance da vida da aposentada é sempre viajar. Depois de comemorar os 85 anos na Disney e os 87 em um cruzeiro para Portugal, foi perguntada sobre qual é a melhor: “a próxima”, respondeu rindo. Depois de também conhecer Londres, Paris, Amsterdã e Barcelona, seu próximo destino deve ser a Austrália. Enquanto a viagem internacional não se repete, ela se aventura pelo Brasil: — Vou muito para Minas, visitar uma amiga que conheci na escola, há 79 anos. Vou sozinha, de avião.

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