Na ONU, Trump ameaça uso da força na América Latina e reitera que ‘aniquilará’ o Irã se não houver acordo
Presidente americano escancara viés econômico da intervenção na Venezuela, rechaça alertas sobre a IA e defende que juízes do TPI renunciem a seus cargos
Em seu discurso no primeiro dia dos Debates Gerais da Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA, Donald Trump, voltou a ameaçar “aniquilar” o Irã, dizendo ter uma “decisão para tomar” sobre o futuro da guerra que lançou em fevereiro, e disse que o uso do “poderio militar” americano não está descartado na América Latina. Na fala, carregada de tons patrióticos, o republicano afirmou que seu país “está mais forte hoje do que nunca”, anunciou a construção de bases na Groenlândia e reconheceu que a intervenção na Venezuela teria fins majoritariamente econômicos.
— Os EUA estão vivendo uma era de ouro — declarou, repetindo um de seus motes de campanha e lançando ataques ao governo de seu antecessor, Joe Biden, que deixou o poder em 2025. — Portanto, enquanto outros falavam, eu agia; enquanto outros falavam de paz, eu promovia a paz. Enquanto outros ignoravam ameaças, eu as enfrentava. Enquanto outros falavam de coragem, os EUA a demonstravam.
O republicano fez uma longa defesa de sua guerra contra o Irã, que quase sete meses depois segue sem solução. Trump disse que “jamais permitirá” que a República Islâmica obtenha uma arma nuclear, e sugeriu que um acordo poderá ser firmado depois das eleições de novembro. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, discursará no plenário na quarta-feira.
— Eles eram os valentões do Oriente Médio, mas não são mais. Desde o primeiro dia em que assumi o cargo, a postura política tem sido inabalável. Jamais permitirei que o Irã tenha uma arma nuclear! — bradou. — Eles também fabricaram um míssil capaz de atingir a Europa e estavam muito orgulhosos disso. Espero que os europeus tenham percebido isso.
Segundo Trump, os EUA “têm uma decisão a tomar sobre o Irã”, e as nações aliadas devem isolar o país economicamente, referência ao plano de sanções que já começou a implementar, antes de repetir uma ameaça de aniquilação feita repetidamente, incluindo em entrevista ao portal Axios, na semana passada.
— Será feito um acordo com o Irã que lhes permita reconstruir e criar um país muito maior do que jamais foi? —disse Trump. — Ou eu aniquilo a República Islâmica?
Ele defendeu a intervenção realizada no início do ano na Venezuela, que culminou com a captura do presidente Nicolás Maduro (preso a alguns quilômetros da ONU) e o início de uma relação próxima com a presidente interina, Delcy Rodríguez, um dos principais nomes do chavismo. Trump mencionou os acordos recentes firmados, como sobre o destino do petróleo, e oficializou a ideia de que a intervenção foi, principalmente, por razões econômicas.
— Quando você soma os Estados Unidos e a Venezuela, nós temos mais de 60% do petróleo do mundo. Ao vencedor, os espólios — declarou, antes de puxar a carta militar. — Nossas ações na Venezuela são a prova de que os Estados Unidos não permitirão mais que ameaças à América ganhem terreno em qualquer parte do Hemisfério Ocidental. E, se necessário, usaremos nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos.
Os cartéis do narcotráfico, alvos de ataques americanos no Caribe e Pacífico e de ameaças no México, foram comparados a outro conhecido inimigo global.
— Os cartéis são o Estado Islâmico do Hemisfério Ocidental, não são gente boa. São inimigos em guerra contra a civilização, utilizando assassinatos, estupros, tortura e extorsão como instrumentos de terror. Assim como o Estado Islâmico, eles devem ser mortos, banidos ou detidos como combatentes inimigos, sem possibilidade de libertação, que é exatamente o que estamos fazendo — afirmou.
Mais uma vez, promoveu a ideia de que a mudança de regime é o melhor caminho para Cuba, alvo de uma longa pressão econômica, política e militar. No momento em que foi feita a menção ao país, a delegação cubana se levantou do plenário, uma tradicional forma de protesto.
— O comunismo jamais chegará aos Estados Unidos, mas a liberdade chegará a Cuba —disse Trump. — Não permitiremos um refúgio para adversários estrangeiros ameaçarem os Estados Unidos à nossa própria porta.
Ao citar a Groenlândia, tema de um acordo firmado com a Dinamarca logo após o discurso, o republicano afirmou que deve construir “duas grandes bases militares” na região, repetindo que os EUA terão o “controle permanente” sobre a segurança do território.
— Teremos plena capacidade de fazer o que for necessário para defender o continente americano, bem como a Europa e outras regiões. Jamais será permitido a qualquer adversário dos EUA estabelecer uma presença militar na Groenlândia ou realizar investimentos sensíveis no local sem a nossa aprovação expressa por escrito — argumentou. — Ao ampliar a presença dos Estados Unidos no Ártico e no Atlântico Norte, este acordo protege não apenas a América, mas também a Europa, oferecendo-lhes uma proteção significativa.
Trump rejeitou o que chamou de “esquema globalista” para controlar o desenvolvimento da inteligência artificial, em uma clara oposição aos apelos vindos até do Vale do Silício sobre os riscos do avanço desenfreado dos atuais modelos. Para ele, o alerta não passa de mais uma “fake news”.
— As mesmas pessoas que diziam que estaríamos todos mortos em 12 anos por causa do aquecimento global, termo que depois foi substituído por “mudanças climáticas”, já que o planeta estava esfriando, e não esquentando, e ninguém havia morrido, são as mesmas que agora dizem que a IA vai acabar com todos nós — opinou, defendendo a troca do termo “inteligência artificial” por “superinteligência” e ignorando décadas de evidências científicas sobre o clima global.
Em meio aos habituais ataques às Nações Unidas — uma constante desde seu primeiro mandato —, disse que os juízes do Tribunal Penal Internacional são “um grupo malvado de pessoas” e sugeriu que todos renunciem.
— Os Estados Unidos se opõem à instituição descontrolada conhecida como Tribunal Penal Internacional. Jamais permitiremos que militares americanos ou qualquer outra pessoa sejam submetidos a julgamentos de fachada por um tribunal antiamericano que não tem jurisdição sobre nós — reclamou o republicano, que adotou sanções individuais contra a Corte (da qual os EUA não fazem parte) e que pode anunciar medidas ainda mais duras nos próximos dias.
Embora tenha reciclado temas eleitorais, como as alegações sobre a economia — classificada como uma “era dourada” — e o papel dos EUA no mundo, que nem sempre encontram respaldo na realidade, a fala não pareceu voltada aos eleitores que, no início de novembro, decidirão de seu governo: “não estou concorrendo”, argumentou.
Projeções apontam para uma derrota dura do trumpismo, potencialmente dando aos democratas o controle das duas Casas do Congresso, o que tornaria seus últimos dois anos no cargo um frustrante exercício de governar sem poder aprovar pautas por ele consideradas importantes. Na véspera, uma pesquisa Reuters/Ipsos apontou que a aprovação do presidente é de 32%, e que apenas 17% dos americanos aprovam a forma como conduz a economia.

