Na Maré, salas de aula acompanham a chegada inédita do saneamento
Entre obras nas ruas e atividades nas escolas, estudantes passam a reconhecer seu papel nas mudanças que começam a transformar a região
Em um território onde o saneamento básico nunca chegou de forma estruturada, é importante que o futuro seja construído também nas salas de aula. No conjunto de favelas da Maré, na Zona Norte do Rio, estudantes participam de atividades de educação ambiental num momento em que grandes obras de água e esgoto começam a mudar a paisagem da comunidade. A proposta é que eles se sintam parte do processo de transformação e se tornem cada vez mais participativos.
O trabalho é desenvolvido por meio do programa Saúde Nota 10, da Águas do Rio, empresa da Aegea Saneamento que vem ampliando sua presença nas escolas da região com ações que aproximam o conteúdo da realidade vivida pelos alunos. Enquanto as obras da concessionária avançam em ruas, becos e vielas, nas unidades de ensino as crianças relacionam essas intervenções com temas como saúde, meio ambiente e qualidade de vida.
No Ginásio Educacional Tecnológico (GET) Osmar Paiva Camelo, na Nova Holanda, o programa passou inclusive a integrar o currículo curricular escolar do 6º ano do Ensino Fundamental, ampliando o espaço dedicado ao tema.
“A ideia é fazer com que os estudantes se tornem multiplicadores de boas práticas ambientais, em um verdadeiro trabalho de formiguinha para melhorar a comunidade. A parceria com a Águas do Rio trouxe a pauta do saneamento para o nosso projeto pedagógico. É fundamental que eles levem essas informações às famílias e mostrem que vale a pena cuidar do lugar onde vivemos. As crianças estão muito engajadas, e prevejo um impacto transformador no futuro da região”, disse a diretora da escola, Cristina Oliveira Carneiro.
Das palafitas aos desafios atuais
Em uma das experiências, os alunos, que têm entre 11 e 12 anos, constroem uma linha do tempo da Maré, com colagens que resgatam desde o surgimento das primeiras palafitas, na década de 1940, até os desafios atuais ligados ao crescimento urbano. Em seguida, redesenham o mapa da comunidade e identificam elementos do cotidiano em cada região, refletindo sobre como os espaços que frequentam influenciam diretamente a saúde e o bem-estar.
Em outra dinâmica, conhecida como Jogo do Saneamento, um tabuleiro gigante transforma as crianças em peças humanas, que avançam pelo percurso ao responder perguntas sobre o tema e seus impactos no dia a dia.
“Aprendi que a gente precisa parar de jogar esgoto nos rios e cuidar mais do meio ambiente. Com isso, o lugar onde a gente mora vai ficar muito melhor. Estão construindo encanamentos, então a água suja não vai mais cair nos valões. Agora, o que sai da nossa casa vai para tratamento, e isso vai ser muito bom para a nossa saúde”, afirmou Sara Gama, de 11 anos e aluna do 6º ano.
Aprendizado levado para casa
O contato com esses conteúdos nessa faixa etária contribui para transformar informação em hábito e estimular mudanças que ultrapassam os muros da escola. É o que observa Raquel Augusto Reis, estagiária da unidade e mãe do aluno Arthur, de 11 anos.
“Quando era mais nova não tive essa oportunidade na escola. Hoje, de perto, vejo o quanto esse trabalho é importante nesse momento de melhorias pelo qual passa a Maré. Ano passado fizeram uma peça teatral que me marcou, sobre o óleo de cozinha jogado na pia, e aproveitei para conversar com meu filho e outras crianças sobre esse tema. São pequenas atitudes que fazem a diferença e ajudam o meio ambiente”.
Para Marcella Gonçalves, supervisora de Responsabilidade Social da Águas do Rio, conectar obras e aprendizado fortalece o envolvimento de toda a comunidade escolar.
“É fundamental vincular o que os alunos veem nas ruas com o que aprendem na sala de aula. As intervenções, principalmente no esgoto, têm relação direta com saúde, prosperidade e legado. Quando esse conteúdo dialoga com o território onde eles vivem, o aprendizado ganha mais significado e fortalece o protagonismo dos estudantes nesse processo de transformação”, afirma.
Iniciativa do grupo Aegea Saneamento implementada pela Águas do Rio no estado a partir de 2021, o programa Saúde Nota 10 ultrapassou, neste mês de abril, a marca de 1 milhão de estudantes impactados nos 27 municípios onde a empresa atua e está presente atualmente em dez escolas da Maré, com previsão de expansão gradual para outras 36 unidades de ensino do conjunto de favelas. As ações também contam com a parceria do projeto Esse Rio É Meu, desenvolvido pela Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) planetapontocom.
Sobre as obras inéditas
A proposta pedagógica acompanha um momento histórico para a comunidade. As obras em andamento na Maré preveem a implantação de redes de esgotamento sanitário nas 16 comunidades da região, beneficiando cerca de 200 mil moradores, em um investimento de R$ 120 milhões. Quando concluídas, até o fim de 2027, as intervenções vão impedir que cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês deixem de ser lançados na Baía de Guanabara.
Além do esgotamento sanitário, a comunidade também passa por melhorias no abastecimento de água, com a instalação de novas redes, modernização do sistema e regularização do consumo de 60 mil imóveis.
Em meio às obras que avançam pelas ruas, a formação das novas gerações ajuda a garantir que essa transformação seja duradoura, não apenas na infraestrutura, mas também na forma como a comunidade se relaciona com o território.

