Geração Z redescobre o valor do ‘feito à mão’ e busca originalidade em feiras do Rio
Busca por produtos cada vez mais focados na produção artesanal é acompanhada por leis da Alerj, que incentivam o setor e valorizam espaços tradicionais de comercialização.
Depois de adotar um corte de cabelo curto, a escritora Cecile Mendonça viu o brinco se tornar seu acessório preferido. Mas, com a preferência, também surgiu uma exigência: os modelos “diferentões” passaram a ser prioridade de compra. A originalidade e a exclusividade levaram a jovem de 25 anos a buscar nas feiras e marcas pequenas suas novas peças. Passeando pela Praça XV, no Centro do Rio de Janeiro, Cecile encontrou um modelo artesanal que parecia cumprir bem esses requisitos — e descobriu que existiam apenas três unidades dele.
A escolha da escritora ajuda a contar uma relação que ganha contornos entre consumidores da geração Z: diante de um mundo abastecido por produtos que se repetem às centenas, o feito à mão pode atrair, justamente, por carregar as marcas de quem o produziu. Originalidade, processo e identidade entram na conta e mudam até a percepção sobre o preço. Nas feiras, esse encontro ganha endereço físico. Já nas redes sociais, estão vitrines capazes de apresentar esses espaços e produtos a uma geração que descobre boa parte do que consome pela tela.
No Estado do Rio, o valor atribuído ao feito à mão também encontra espaço nas normas e discussões da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A Lei 9.885/22 instituiu o Programa Estadual de Desenvolvimento da Produção Artesanal e Orgânica, voltado ao incentivo do processo artesanal, à manutenção da geração de trabalho e renda e ao fortalecimento das tradições culturais. E uma nova proposta em análise na Casa, o Projeto de Lei 7.618/26, pretende instituir uma política estadual de valorização do trabalho manual e dos saberes manuais.
Valor agregado ao artesanal
Mesmo que os itens feitos à mão custem mais, Cecile está longe de ser uma consumidora despreocupada com dinheiro. Frequentadora de brechós, ela diz que o preço está entre os fatores mais decisivos de uma compra e procura fazer escolhas econômicas. É justamente por isso que sua disposição diante do artesanal chama atenção: quando consegue enxergar o trabalho por trás do produto, sua régua muda.
“Quando é algo artesanal, eu estou disposta a pagar um pouco mais porque entendo que aquele trabalho está sendo feito, muitas vezes, por uma pessoa só. É a mesma pessoa que costura, que faz os posts no Instagram, que cumpre vários papéis dentro da sua marca e está se desdobrando em várias”, explica.
O brinco da Praça XV, aliás, não era caro na avaliação dela. Cecile acredita que, fora de uma linha de produção, é preciso recalcular o valor da hora de trabalho na hora de precificar um produto: “Esse termo ‘caro’ precisa ser reavaliado, porque às vezes a pessoa está cobrando o que vale mesmo dentro do tempo que precisou usar para fazer aquilo”.
Há sinais de que o interesse pelo que exibe as marcas do fazer manual não está restrito às histórias individuais. No relatório de tendências para a primavera e o verão de 2026, a plataforma internacional Etsy registrou crescimento de 77% nas buscas por bolsas bordadas entre consumidores da geração Z.
No Brasil, o Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (Crab), sediado na Praça Tiradentes, no Centro do Rio, também colocou uma lupa sobre esse mercado. Um estudo publicado em 2026 ouviu 2.400 pessoas em todo o país para investigar perfil, comportamento, hábitos e motivações dos consumidores de produtos artesanais. O resultado aponta que, no artesanato, é vendido significado e não somente o objeto, por isso, a percepção de valor é alterada.
O algoritmo leva à feira
Se Cecile ajuda a entender o valor que pode ser atribuído ao processo, Giovana Breves, de 18 anos, mostra um dos caminhos pelos quais o artesanal chega a novos consumidores. Vestibulanda e moradora de Angra dos Reis, na Costa Verde, ela não conhecia bem a capital quando veio ao Rio. Para escolher parte do que faria por aqui, recorreu a um guia que cabe no bolso. “Eu pego bastante dicas de lazer pelo TikTok e, como não conhecia a cidade, priorizei fazer programas já indicados por pessoas na internet”, conta.
Foi assim que entrou no roteiro a Feira da Glória, que existe há mais de 115 anos e, desde 2025, é reconhecida pela Alerj (Lei 10.873/25) como patrimônio histórico, cultural e imaterial do Estado do Rio de Janeiro. Pelos vídeos, Giovana esperava encontrar principalmente comida e uma grande variedade de opções para experimentar. Quando chegou, descobriu uma feira maior do que imaginava e percebeu que o passeio ia muito além da gastronomia.
“Eu já vi muitos vídeos sobre comida e não achava que tinha tanta barraca de roupa e acessórios”, lembra. Ela acabou presa justamente a essas barracas e, entre os produtos, uma ecobag bordada ganhou sua atenção. “Geralmente, onde eu moro, você só encontra essas bolsas com estampas impressas. Gostei justamente porque é uma coisa que já uso, mas feita de uma forma diferente e com mais originalidade”, enfatizou.
Um mapa feito à mão
A Glória pode ter sido o ponto de encontro entre Giovana e sua ecobag bordada, mas não é preciso permanecer na capital, nem na Região Metropolitana, para encontrar espaços dedicados à produção artesanal fluminense. Em Petrópolis, na Região Serrana, diferentes feiras e circuitos abrem espaço para produtores locais e trabalhos manuais. Entre os produtos encontrados nesses espaços estão crochê, tricô, bordados, costura criativa, bolsas e outros itens artesanais.
No Norte Fluminense, Campos dos Goytacazes mantém iniciativas como a Feira Finasinha, que reúne artesãos e trabalhadores da economia solidária. Em agosto de 2026, o município contabilizava mais de 850 profissionais no Cadastro Municipal de Artesãos e informou que o cadastramento já havia possibilitado a participação de produtores em mais de 150 eventos locais, regionais, estaduais e de outros estados.
Na outra ponta do mapa do Rio de Janeiro, no Sul do estado, a produção artesanal também ganha vitrines na Região das Agulhas Negras. Resende mantém uma feira dedicada ao setor em seu calendário municipal e, em agosto deste ano, reuniu artesãos da cidade e de Itatiaia em uma exposição no Parque das Águas, voltada à valorização da produção regional e à geração de renda. Municípios vizinhos também têm eventos do gênero, como a Feirarte, em Quatis, e a Feira de Artesanato no Horto, em Porto Real.

