Fifa cria vestibular para agentes, que procuram cursos de preparação

Desde dezembro do ano passado, advogados especializados em direito desportivo têm recebido telefonemas de clientes que fazem negociações internacionais no futebol.

A pergunta é sempre a mesma: “e agora?”

“Eles estão com receio porque os agentes estão acostumados a fazer sempre a mesma coisa. Dizem: ‘pô, faço isso há 30 anos, não tenho direito a um salvo-conduto?’ Respondo que dirigem há 30 anos, mas têm de renovar a carteira de motorista”, afirma o advogado Cristiano Caús.

O escritório dele é um dos que começou a organizar curso direcionado a empresário em atividade no futebol brasileiro e que precisarão realizar uma prova redigida pela Fifa para continuarem no mercado. A primeira será em abril deste ano. Das 20 perguntas, será necessário índice de 75% de acerto. Quem não passar, não ficará impedido de intermediar transferências.

A volta do teste, aplicado até 2015 e banido desde então, foi aprovada pelo conselho da Fifa no final de 2002 e passou a valer em 9 de janeiro deste ano. Segundo a entidade, é um passo para “estabelecer um sistema de transferências mais transparente.”

Além da introdução da prova e da licença oficial para trabalhar, a entidade que controla o futebol vai limitar as comissões pelas intermediações de transferências. O máximo a ser recebido pelo agente será 3% do salário do jogador representado, a mesma porcentagem caso cuide dos interesses do clube comprador e 6% se trabalhar em nome das duas partes.

Caso atue para o vendedor, poderá ficar com, no máximo, 10% da transferência.

Ao contrário do que acontece hoje em dia, o empresário não poderá mais representar o atleta, o time comprador e o vendedor, expediente usado para maximizar o dinheiro que recebe.

Quando o meia francês Paul Pogba foi negociado pela Juventus (ITA) com o Manchester United (ING), em 2016, o italiano Mino Raiola (1967-2022) azeitou os interesses de todas as partes envolvidas e embolsou 27 milhões de euros (R$ 151,4 milhões, pela cotação atual). É este o tipo de situação que a Fifa deseja evitar.

A divulgação da necessidade de ser aprovado em uma prova foi, a princípio, o detalhe que mais chamou a atenção dos empresários brasileiro. Preocupou a vários, mas nem todos.

“Eu acho que vai ser uma boa coisa para o mercado. Vai melhorar. Hoje em dia, para fazer negócio na Turquia, é preciso ter um intermediário turco. Se for na França, um francês. Não tem sentido. É como querer casar e ter de chamar uma terceira pessoa para o casamento”, compara o empresário Luiz Augusto Carvalho, que realiza transações com vários dos principais clubes do país.

A mudança é uma admissão de culpa da Fifa. Em 2015, a entidade promoveu mudança que fez crescer o número de agentes no mundo do futebol. Eles passaram a ser chamados de intermediários e a ideia era desburocratizar. Para estar autorizado a trabalhar no Brasil, por exemplo, era necessário preencher formulário, pagar uma taxa à CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ao redor de R$ 5.000, e apresentar atestado de bons antecedentes.

No site da confederação, estão listados 1.663 intermediários. O número é enganoso. Estão registradas pessoas jurídicas com nomes de agências, cada uma com vários agentes.

” [A prova] vai servir para limpar um pouco o mercado. Há gente demais. Eu só não sei muito bem o que esperar dessa prova. Deve ser difícil. Mas se for muito fácil, qualquer um pode passar”, lembra Flavio Arão, pai e agente do volante Willian Arão, atualmente no Fenerbahce (TUR).

A prova vai abordar cinco documentos utilizados pela Fifa: o regulamento de transferências, o de agentes, o código disciplinar e ético, o estatuto da Figa e as normas de proteção a menores.

“Vai servir como uma espécie de filtro. Como se fosse uma prova da OAB [Ordem dos Advogados do Brasil]. Por isso que organizamos curso para os nossos clientes. Eles vão precisar treinar para continuarem a exercer a profissão”, completa Caús.

A maioria está acostumada a, em caso de assuntos técnicos do mercado de transferências, apelar apenas a advogados especializados. Isso deverá continuar acontecendo, mas a estratégia da Fifa é fazer com que os agentes tenham consciência da legislação e não sejam meros aventureiros. Caús afirma que na transferência do meia Bruno Guimarães do Lyon (FRA) para o Newcastle (ING) foi necessário examinar e assinar dez contratos diferentes.

O consenso para os empresários é que, no fundo, o maior objetivo da Fifa é ter um número menor de pessoas atuando na área.

“É preciso. Tem muita gente. E se você faz uma transação internacional, paga comissão para um agente de outro país que não teve nada a ver com a negociação”, lembra Carvalho.

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