Expansão de facções de tráfico de drogas na Amazônia é um ‘perigo em ascensão para a maior floresta tropical do mundo’, alerta ONU

Em seu novo Relatório Mundial sobre Drogas, a ONU alertou para a diversificação e expansão das atividades de facções de tráfico de drogas na Amazônia. A rede criminosa, que hoje investe na grilagem de terras, mineração ilegal, extração de madeira, tráfico de animais silvestres e até de humanos, está colocando em risco a maior floresta tropical do mundo e as suas populações tradicionais, diz o estudo. Segundo o relatório, o que se vê hoje na Amazônia é um esquema de “narco-desmatamento”, que causa diferentes impactos.

O relatório é realizado pela UNODC, o escritório da ONU sobre drogas e crimes. A edição de 2023, que mostra o aumento de consumo mundial de drogas, foi a primeira em que houve um capítulo dedicado especialmente para os problemas na Amazônia. Para o trabalho, foram usadas estatísticas oficiais e realizadas 25 entrevistas com especialistas, autoridades, associações e moradores da região amazônica na Bolívia, Peru, Colômbia e Brasil.

“As economias de drogas ilícitas na bacia amazônica estão ampliando suas atividades criminosas para outros segmentos, como extração ilegal de madeira, mineração ilegal, ocupação ilegal de terras, tráfico de animais silvestres, dentre outros – que prejudicam o meio ambiente da maior floresta tropical do mundo. Os povos indígenas e outras minorias estão sofrendo as consequências dessa concentração criminosa, incluindo deslocamento, intoxicação por mercúrio e exposição à violência. Os defensores do meio ambiente muitas vezes são alvos específicos de traficantes e grupos armados”, resume o relatório.

O estudo calcula que há cerca de 900 rotas de drogas saindo da Amazônia. No Brasil, as principais rotas saem do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima, e Mato Grosso. Nessa região, há muitas plantações de maconha e de cocaína, mas o impacto direto desse desmatamento é mínimo, diz o relatório, que aponta um efeito indireto muito maior a partir dessas atividades. Assim, o “narco-desmatamento”, que inclui a lavagem de dinheiro do tráfico na especulação de terra e na agropecuária, “representa um perigo em ascensão para a maior floresta tropical do mundo”, diz a ONU.

Grupos miram ‘bens naturais de maior valor agregado’

 

O diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Jair Schmitt, explicou ao GLOBO que as facções de tráfico estão direcionando seus negócios para exploração de “bens naturais de maior valor agregado”, como minerais e madeiras valiosas.

— Diversos grupos criminosos vêm utilizado sua capacidade organizacional para expandir os ‘negócios’. Minerais como ouro, pedras preciosas, cassiterita são os bens naturais mais visados, extraídos principalmente de territórios indígenas ou tradicionais, valendo-se da vulnerabilidade das comunidades locais e das deficiências do Estado. Madeira, peixes e outras espécies silvestres também estão na mira — afirmou Schmitt, que destacou necessidade de estruturação dos órgãos fiscalizadores. — Para enfrentá-los, precisamos preparar melhor os órgãos ambientais com mais servidores, recursos financeiros, tecnologia e estratégias eficazes, além da maior atuação das forças de segurança pública.

A atuação das facções de tráficos começa na apropriação de terras para o cultivo de maconha, cocaína e até drogas sintéticas. O relatório diz, inclusive, que a abertura de estradas em função da expansão agrícola nas últimas décadas facilitou a penetração desses grupos na Amazônia. Pistas ilegais de avião e os próprios rios amazônicos são outras rotas usadas pelos criminosos.

Após o desmatamento de uma área para o cultivo, os grupos aproveitam, em muitos casos, a mesma terra para mineração ilegal de ouro ou tráfico de plantas e animais silvestres. Essa situação polui a área, muitas vezes dentro de terras indígenas, e expõe comunidades à violência. Por fim, muitos povos tradicionais acabam se mudando, forçadamente.

Problema cresceu em 2017, explica pesquisador

Rodrigo Chagas, pesquisador da Universidade Federal de Roraima, (UFRR) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), explica que o tráfico de drogas sempre existiu na Amazônia. Mas o vínculo com crimes ambientais começou a partir da entrada das grandes facções do Rio e de São Paulo, que inclusive operam junto a grupos internacionais. O marco temporal utilizado pelos pesquisadores é 2017, quando houve diversas chacinas em presídios, por brigas entre essas facções, e então o problema ganhou uma dimensão maior.

— O que chamamos de mudança está vinculado na afinidade que vai se encontrando entre as atividades de crimes ambientais com a questão do narcotráfico. Essa é uma tendência extremamente preocupante. Esse vínculo está utilizando a estrutura das organizações criminosas, gerando uma nova dinâmica. É o que vemos na Terra Indígena Yanomami, por exemplo — explica Chagas.

Segundo o relatório, essa “convergência de crimes tornou a fronteira da Amazônia em áreas de violência, com atuação de diversos grupos criminosos organizados envolvidos simultaneamente no tráfico de cocaína e exploração de recursos naturais”. A ONUDC citou evidências de que as facções estão sofisticando suas atividades, em busca de negócios mais lucrativos para além da produção de drogas.

Assim, essa rede criminosa não causa apenas o desmatamento, mas está também acelerando outros crimes, desde corrupção, a crimes fiscais e financeiros, chegando a homicídio, violência sexual, exploração de trabalhadores e menores, tráfico humano e assassinatos de ativistas. As próprias plantações de cocaína e maconha impactam os recursos hídricos, já que usam o dobro de água que outros cultivos. Além disso, desencadeiam uma “gama negativa de efeitos sociais”, diz o relatório.

“Quando a terra é tomada, comprada, limpa e cultivado por traficantes de drogas, criam-se tensões locais sobre a terra e os direitos de propriedade, especialmente se o cultivo de coca e cannabis ocorrer em região próxima a comunidades indígenas”, diz o texto.

Transporte por aviões, barcos e rios

Para escoar os produtos ilegais, os grupos criminosos usam os próprios rios ou estradas abertas ela expansão agrícola na Amazônia. Além disso, utilizam embarcações que fazem transporte ilegal de madeira e minerais, liberadas por permissões fraudadas, e que acabam carregando também as drogas.

Em relação ao transporte aéreo, há centenas de pistas clandestinas. O relatório cita um estudo recente que identificou que aproximadamente 58% 2.986 pistas privadas na Amazônia brasileira não aparecem nos registros oficiais. E 28% ficaria em territórios ambientais e indígenas, a maioria na terra Yanomami (75), Raposa Serra do Sol (58), Kayapó (26), Munduruku (21) e Parque Nacional do Xingu.

Para Rodrigo Chagas, o problema não pode ser enfrentado como na Colômbia, onde foi declarado guerra contra as facções há décadas. Desde então, a produção de drogas só aumentou, e novos grupos criminosos surgiram. Para o pesquisador, um primeiro passo é a polícia passa a encarar os crimes ambientais como um problema tão perigoso quanto o tráfico de drogas.

— O crime ambiental é considerado como um crime menor, normalmente. Agente de segurança muitas vezes dizem não estar preocupados com a apreensão de ouro e cassiterita, por exemplo, porque é algo naturalizado na região, inclusive com histórico de incentivo do governo estadual de Roraima. O governo inclusive precisa dessa autocrítica e fazer um reparo histórico, com educação nas escolas. E precisamos que as forças de segurança compreendam esses ilícitos ambientais como algo tão perigoso quanto o narcotráfico. Porque as duas formas tendem a se juntar cada vez mais, por meio da violência.

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