20 de julho de 2024

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Exército e Polícia do RJ negociaram com facção devolução de 10 das 21 armas furtadas de quartel em SP, diz policial em documento

Exército e a Polícia Civil do Rio de Janeiro negociaram com traficantes de drogas do Comando Vermelho (CV) a devolução de dez das 21 metralhadoras furtadas de um quartel em São Paulo, segundo o depoimento de um policial num documento da Secretaria de Estado de Polícia Civil fluminense.

O agente não informa o que teria sido oferecido em troca. Mas fontes da reportagem disseram que o acordo previa que militares e policiais não entrariam na comunidade onde a facção criminosa atua se devolvesse as armas em troca, conforme reportagem publica em outubro pelo g1 (leia aqui e abaixo).

A nova informação sobre a negociação das armas com membros da facção criminosa fluminense foi publicada inicialmente nesta segunda-feira (11) pelo MetrópolesTV Globo e g1 também tiveram acesso ao documento no qual um investigador da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) do Rio relata no seu depoimento como ocorreu o acordo.

Procurado para comentar o assunto, o Comando Militar do Sudeste (CMSE), que investiga o desvio do armamento do Arsenal de Guerra São Paulo (AGSP), em Barueri, na Grande São Paulo, divulgou nota negando que tal negociação entre o Exército com criminosos ocorreu.

“Em resposta à demanda enviada por mensagem eletrônica, o Comando Militar do Sudeste (CMSE) destaca que a informação questionada não procede. O CMSE ressalta que ações tomadas são sempre pautadas pelo princípio da legalidade”, informa o comunicado do Exército.

A reportagem também entrou em contato com a Polícia Civil do Rio, por meio de sua assessoria de imprensa, e aguarda um posicionamento.

Segundo as investigações, as 21 metralhadoras (13 metralhadoras antiaéreas calibre .50 e oito metralhadoras calibre 7,62 ) foram furtadas em meados de setembro deste ano. O desvio só foi descoberto mais de um mês depois, em outubro, durante recontagem das armas no AGSP, em Barueri.

8 metralhadoras foram encontradas pela Polícia Civil do Rio (foto à esquerda); e 9 armas acabaram achadas pela polícia de Carapicuíba, Grande São Paulo. Todas as 17 foram furtadas do quartel do Exército em Barueri, região metropolitana — Foto: Leslie Leitão/TV Globo e Polícia Civil/Divulgação

Em operação conjunta, Exército e polícias conseguiram recuperar 19 metralhadoras. Além das dez armas recuperadas no Rio (oito delas em 19 de outubro e duas em 1º de novembro), a Polícia de São Paulo também encontrou nove armas (em 20 de outubro) em São Roque, interior paulista.

Outras duas metralhadoras ainda são procuradas. Elas não foram encontradas até a última atualização desta reportagem.

Oficialmente, a Secretaria de Estado de Polícia Civil fluminense havia divulgado à época que as dez armas haviam sido encontradas abandonadas em veículos usados por criminosos.

Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) chegou a informar que as nove metralhadoras recuperadas em São Roque estavam com ao menos dois criminosos, que trocaram tiros com os policiais e fugiram, abandonando o armamento.

Policial relata negociação com traficantes

Exclusivo: militares desligaram intencionalmente rede elétrica do quartel do Exército de onde 21 metralhadoras foram roubadas

Mas de acordo com o depoimento de um policial da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, dado no dia 7 de novembro, o “setor de inteligência da DRE trocou informes com a inteligência do Exército Brasileiro” que “davam conta de que os armamentos arrecadados estariam na posse do grupo armado Comando Vermelho, na Comunidade Cidade de Deus” com um traficante, de apelido Dedei, que as negociava.

Ainda segundo o policial, a DRE e o Exército tiveram acesso a um vídeo que mostra as armas furtadas do quartel em Barueri. Na filmagem o apelido de outro traficante é citado: Capixaba.

No documento, que a reportagem teve acesso, há menção ainda de que “os armamentos teriam passado, antes de chegarem à Cidade de Deus, nas comunidades da Rocinha, Penha e Vila Cruzeiro, todas dominadas pelo Comando Vermelho”.

Segundo o policial, ele suspeita que as metralhadoras foram adquiridas pelos traficantes para atacar aeronaves e veículos blindados das forças de segurança. De acordo com o documento, após os criminosos saberem que o Exército e a polícia procuravam as armas, eles decidiram entregá-las.

No documento há a informação de que “foi aberto um canal de comunicação” com o companheiro da sogra do segundo traficante. Que esse homem entrou em contato com o criminoso, “que parecia estar preocupado com a situação”, “passando a negociar a entrega de mais 2 (duas metralhadoras) calibre .50”.

Segundo fontes da investigação ouvidas pela reportagem esse homem seria um “colaborador” da investigação e não um criminoso, apesar de ter contato com integrantes do Comando Vermelho.

Em São Paulo, as armas iriam para o Primeiro Comando da Capital (PCC), de acordo com autoridades que investigam o caso.

Seis militares e dois civis são investigados

Seis militares são investigados por participarem diretamente do furto no quartel em Barueri. Segundo investigação do CMSE, soldados, cabos, sargentos e tenentes são suspeitos de retirar 13 metralhadoras antiaéreas calibre .50 e oito metralhadoras calibre 7,62 do Arsenal de Guerra.

O Exército apreendeu celulares, computadores e máquina de pagamentos de cartões bancários nas casas do militares suspeitos.

O Comando Militar do Sudeste chegou a pedir a Justiça Militar as prisões preventivas dos seis militares, mas o pedido foi negado. O Ministério Público Militar (MPM) também não concordou com as prisões por entender que os argumentos eram insuficientes de que eles cometeram o furto.

A expectativa dos investigadores do Exército é a de que o inquérito militar que investiga o caso deverá ser concluído futuramente com o indiciamento dos militares suspeitos por furto, peculato, receptação e extravio. Depois deverá ser feito um novo pedido de prisões deles.

Além deles, a investigação apura o envolvimento dos traficantes Dedei e Capixaba, que são suspeitos de receptarem as armas furtadas. O Exército também poderá indiciar os dois civis por receptação.

De acordo com os investigadores, o furto das metralhadoras no quartel teria ocorrido durante o feriado de 7 de setembro, mas a descoberta dele só ocorreu no dia 10 de outubro, quando um militar notou que o cadeado da sala de armas havia sido trocado e decidiu recontar o arsenal.

Um cabo que era motorista pessoal do então diretor do Arsenal de Guerra teria usado o carro oficial do tenente-coronel que comandava o AGSP para transportar o armamento furtado. O comandante não teve participação no crime, mas foi substituído por outro diretor após o sumiço do armamento.

De acordo com o Comando Militar do Sudeste , as metralhadoras furtadas em Barueri foram fabricadas entre 1960 e 1990, e são “inservíveis”. Ou seja, não estariam funcionando perfeitamente. E passariam por manutenção e seriam avaliadas. Possivelmente seriam destruídas ou inutilizadas já que recuperá-las teria um alto custo.

Segundo o Instituto Sou da Paz, esse é o maior desvio de armas do Exército desde 2009, quando sete fuzis foram roubados de um batalhão em Caçapava, interior paulista.

MPM investiga ‘aquartelamento’

O Ministério Público Militar investiga também se houve irregularidades durante o “aquartelamento” da tropa após a descoberta do desvio das armas, em 10 de outubro. Militares foram impedidos de sair do quartel até 24 de outubro. A medida é prevista pelo Exército em casos excepcionais, mas a Procuradoria apura se ele foi aplicada de forma legal no caso do furto das armas.

 Militares chegaram a ter os celulares recolhidos e foram ouvidos no inquérito para passar informações que poderiam levar aos culpados pelo desaparecimento das metralhadoras.

Um cabo, que é um dos seis suspeitos de participar diretamente do furto, denuncia que todos eles foram agredidos durante o “aquartelamento” no Arsenal de Guerra, segundo sua defesa relatou ao g1.

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