Operação contra monopólio de gás do CV cumpre quatro mandados de prisão
Comerciantes eram obrigados a adquirir produtos de fornecedores vinculados ao grupo ou realizar pagamentos periódicos aos criminosos
As buscas ocorreram simultaneamente em diferentes regiões do estado, com maior concentração no município de São Gonçalo, na Região Metropolitana, abrangendo localidades como Jardim Catarina, Trindade, Santa Luzia, Guaxindiba, Neves, Boaçu, Alcântara, Covanca, Pita, Arsenal, Engenho Pequeno, Marambaia, Jardim Independência, Jardim Nova República e Mutuapira, entre outras.
As diligências também alcançam os municípios de Itaboraí, nos bairros do Apolo II, Apolo III, Outeiro das Pedras, Marambaia/Manilha e Ampliação; Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, nas localidades de Chácara Rio-Petrópolis, Vila Santa Cruz e Parque Eldorado; Niterói, no bairro Engenho do Mato; além da capital fluminense, com ações previstas no Recreio dos Bandeirantes e na Taquara.
Entre os alvos estão residências de investigados e estabelecimentos comerciais, especialmente distribuidoras e revendedoras de gás apontadas como integrantes ou vinculadas à estrutura econômica investigada.
A ação foi coordenada pela Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD) e pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MPRJ (Gaeco), contando com o apoio de equipes de outras unidades do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core).
Investigação
“A partir desse momento, nós iniciamos os trabalhos de investigação, de análise de documentos, de quebra de dados telemáticos com autorização judicial, e notamos que esse esquema ia muito além dessa comunidade. Esse esquema estava sendo difundido por diversas comunidades onde o Comando Vermelho atuava”, afirmou.
Ainda segundo o delegado, a organização atua em dois núcleos: o empresarial e o da ameaça. Nesse sistema, a liberdade de comércio era substituída pelas regras impostas pelo grupo criminoso. Comerciantes eram obrigados a adquirir produtos de fornecedores vinculados à organização ou a realizar pagamentos periódicos aos criminosos, sob ameaça de retaliações.
“Fornecedores de gás obrigavam vendedores a comprar o seu gás por um sobrepreço; o outro era um braço armado que praticava violência, ameaça e vandalismo contra empresários que não queriam aderir a esse esquema. Então, o empresário entrava com o gás e o traficante entrava com o fuzil”, explicou.
Essas cobranças eram conhecidas internamente como “metas do gás” e constituíam um mecanismo de arrecadação sistemática de recursos em benefício da estrutura criminosa.
Gás era vendido a R$ 150
“Então, um botijão que fora da comunidade era vendido na faixa de uns R$ 100, dentro da comunidade o consumidor pagava R$ 150. Então, essa falta de liberdade econômica que os traficantes impunham e esse vínculo entre o traficante e o empresário acabavam desembocando nesse valor mais alto que o morador era obrigado a pagar”, disse.
De acordo com as investigações, a facção mantinha o monopólio da venda de gás por meio da violência.
“Em alguns casos, foram relatados e nós verificamos a vandalização de estabelecimentos, agressões físicas, tiros dados. Inclusive temos áudios onde essas agressões aparecem, os traficantes falando ‘o chefe mandou, nós vamos dar paulada’, ‘olha o barulho de tiro’. Quer dizer, os comerciantes ficavam muito acuados: ou eles entravam nesse esquema ou tinham que fechar o negócio deles”, afirmou.
Entenda o esquema
Um dos núcleos era responsável pela coordenação operacional e pela interlocução entre operadores comerciais, arrecadadores e integrantes ligados ao controle territorial do Comando Vermelho.
Outro núcleo atuava na logística da comercialização do GLP, acompanhando a distribuição do produto e a manutenção do monopólio nas comunidades exploradas.
Também foram identificados integrantes responsáveis pela cobrança e arrecadação de valores, além de interlocutores vinculados à estrutura territorial da facção, cuja atuação contribuía para sustentar o ambiente de intimidação imposto aos comerciantes.
A apuração identificou, ainda, indícios de movimentações patrimoniais incompatíveis com as atividades econômicas formalmente declaradas por determinados investigados, bem como a utilização de estruturas empresariais aparentemente relacionadas à manutenção do esquema.
Relação com liderança do CV
“Ele é um empresário do ramo de gás, mas com muita proximidade aos grandes líderes das facções. Ele tinha total acesso a esses líderes, conversava diretamente com eles, planejava a sua expansão territorial no ramo do gás em diversas comunidades, controlava a arrecadação e repassava para a ‘caixinha’ do Comando”, relatou o delegado.
De acordo com o relatório final da investigação, Adriano também intermediava a locação de imóveis para Edgard Alves de Andrade, o Doca, apontado como uma das principais lideranças do Comando Vermelho em liberdade. A apuração identificou ainda que o empresário teria ajudado na fuga do criminoso do Complexo do Alemão durante a Operação Contenção, realizada pela Polícia Civil em dezembro de 2024.
“Em uma das nossas interceptações telemáticas, percebemos que ele foi o responsável pelo aluguel de uma casa para o Doca, no interior do Rio de Janeiro, provavelmente para tentar se esconder de alguma operação policial. Ele ficou olhando nos sites, fazendo essa intermediação entre o Doca e o proprietário da casa onde ele ia ficar escondido”, ressaltou.
Outro alvo preso é o criminoso Michel da Silva Gama, conhecido como Polegar, responsável por fazer a arrecadação das empresas que vendiam gás.
“Ele chegava armado para fazer essa cobrança, era o braço direito do traficante Rato, da comunidade Vai Quem Quer. Foi uma prisão muito importante para a gente. A gente espera que com a ação de hoje, consiga frear esse tipo de atividade e que o consumidor possa escolher onde comprar, que haja uma livre concorrência e que ele possa obter um produto tão essencial por um preço justo”, afirmou o delegado.
Empresas de fachada e “laranjas”
Segundo a apuração, o esquema envolvia a constituição e a utilização de pessoas jurídicas formalmente registradas em nome de terceiros, especialmente nos setores de distribuição de gás e construção civil, sobre as quais o investigado mantinha ingerência. A utilização dessas estruturas permitia afastar seu nome da titularidade formal de empresas e bens, dificultando a identificação do efetivo controlador e beneficiário dos recursos.
Bloqueio de valores e sequestro de bens
O bloqueio de ativos e o sequestro de bens têm como finalidade impedir a dissipação de patrimônio potencialmente relacionado às atividades criminosas, preservar valores para eventual recuperação e comprometer a capacidade econômica da estrutura investigada.
A estratégia busca atingir simultaneamente os integrantes da organização, seus instrumentos operacionais e os recursos econômicos que sustentam o esquema.
A atuação patrimonial representa uma frente importante no enfrentamento ao crime organizado, uma vez que a interrupção de uma atividade ilícita exige também o enfrentamento aos mecanismos que permitem sua manutenção e financiamento.
As investigações prosseguem para aprofundar a identificação dos fluxos financeiros, localizar outros ativos vinculados aos investigados e esclarecer integralmente a participação dos integrantes da organização criminosa.

