Colisão entre trens de alta velocidade na Espanha deixa ao menos 68 mortos; circulação ferroviária foi interrompida
A colisão de dois trens de passageiros de alta velocidade na província de Toledo, na Espanha, deixou ao menos 68 mortos e dezenas de feridos nesta quarta-feira, disse o governador de Castilla-La Mancha, Emiliano García Page, em um momento em que o trabalho de socorro às vítimas ainda está em andamento. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, com 58 precisando de atendimento hospitalar, muitos deles com ferimentos abertos e politraumatismos. Quinze encontram-se em estado crítico. O incidente já ultrapassou a letalidade do acidente ferroviário ocorrido em janeiro na província espanhola de Córdoba, que matou 46 pessoas, e torna-se o pior desde 2013, quando 80 pessoas morreram após um trem descarrilar próximo à cidade de Santiago de Compostela.
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O acidente ocorreu às 8h54 (4h54 em Brasília) na linha de alta-velocidade que liga as regiões de Madri e da Andaluzia. Um trem da companhia estatal Renfe, do serviço premium AVE, que partiu da capital rumo a Sevilha com 397 passageiros, chocou-se com uma composição da empresa privada Iryo, que estava parada entre as estações de Los Yébenes e Urda, ambas em Toledo. O segundo trem levava 147 passageiros. Com a força do impacto, quatro vagões descarrilaram e tombaram de um barranco.
Colisão entre trens de alta velocidade na Espanha deixa ao menos 46 mortos e 179 feridos
— Estávamos parados e, de repente, sentimos um impacto muito forte — relatou Iñaki, de 60 anos, que viajava no vagão 2 do trem da Iryo, em entrevista ao jornal El País, ao chegar a um centro de triagem montado pelas autoridades em um ginásio em Urda. Ele acrescentou ainda que “rolou pelo chão” após a batida e, quando o trem parou, percebeu que estavam de cabeça para baixo.
Também em entrevista à publicação espanhola a partir do centro de triagem, o colombiano Jorge Guales, de 53 anos, afirmou que viajava no vagão 7 da mesma composição, e descreveu que o trem parou alguns minutos antes da colisão, relatando um “impacto” e “estrondo” “fortíssimo”.
O ministro dos Transportes Óscar Puente classificou como “verdadeiramente inverossímil” que um acidente dessa magnitude tenha ocorrido na rede ferroviária espanhola, e chamou de “inexplicável” a decisão do centro de controle de autorizar a retomada da viagem do trem da Renfe, enquanto o comboio da Iryo permanecia parado na via. Ainda de acordo com Puente, uma falha de comunicação entre computadores de um sistema de segurança causou a parada dos trens em circulação no ramal.
— A decisão de retomar a circulação sem ter resolvido a ocorrência partiu do centro de controle. É uma decisão tomada em circunstâncias inexplicáveis — disse Puente. — Além disso, a decisão de retomar a viagem foi tomada sem qualquer limitação de velocidade.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, cancelou todos os compromissos eleitorais e de sua agenda como chefe de governo para acompanhar os trabalhos do terreno. Em um posto de comando estabelecido na cidade de Los Yébenes, o premier prestou solidariedade às vítimas e suas famílias”, e estabeleceu como prioridades “o resgate do maior número de pessoas vivas” e o atendimento dos pontos de vista “material e psicológico” dos feridos. Ele também prometeu esclarecer o caso.
— Vamos chegar até o final. Se houve negligências, saber-se-á; Se houve falha no sistema, responderemos com total contundência — afirmou Sánchez, que busca a reeleição na disputa marcada para 29 de novembro.
O líder do Partido Popular (PP), principal sigla de oposição do país, Alberto Núñez Feijóo, disse estar “muito preocupado com o novo acidente”. Durante uma declaração na sede do partido, em Madri, ele afirmou que este não é o momento de pensar em responsabilidades políticas, mas argumentou que “a Espanha tem o direito de saber o que está acontecendo com suas infraestruturas”, qualificando como imprescindível “uma investigação governamental imediata e outra judicial, com todos os recursos e sem interferências”.
O rei da Espanha, Felipe VI, declarou à TV espanhola que “a primeira coisa é lamentar essa terrível desgraça”, e transmitiu seus pêsames às famílias afetadas.
O governo de Castilla-La Mancha ativou o Plano Territorial de Emergência da região (PLATECAM), em fase de emergência e situação operacional 1, para a província de Toledo. Várias equipes de bombeiros, três helicópteros e duas unidades móveis de terapia intensiva foram mobilizadas pelos serviços de emergência locais, enquanto o Ministério do Interior espanhol determinou o envio da Unidade Militar de Emergências para reforçar o socorro, e o prefeito de Urda, Manuel Galán, afirmou que a Defesa Civil solicitou a preparação de um pavilhão municipal para acolher os passageiros.
Com 4 mil Km de vias, a rede ferroviária de alta velocidade da Espanha é a segunda maior do mundo, atrás apenas da China, e um dos orgulhos do país. Contudo, o acidente é uma nova mancha, após um grave acidente ocorrido nos arredores de Adamuz, na província de Córdoba, em 18 de janeiro. O caso, com 46 mortos, reacendeu um debate nacional sobre a manutenção da rede ferroviária e a segurança dos passageiros.
O Tribunal Superior de Justiça de Castilla-La Mancha anunciou medidas de reforço aos órgãos que atuam na fase de investigação, que assumirá a apuração dos acidentes. O Defensor do Povo da Espanha, Ángel Gabilondo, que ocupa um cargo similar ao de um ouvidor nomeado pelo Parlamento, afirmou que o acidente precisa ser esclarecido.
Uma comoção nacional tomou o país após o acidente. A Federação Espanhola de Futebol suspendeu as 24 partidas da Copa do Rei previstas para esta quarta-feira em uma “mostra de respeito e solidariedade”. As regiões de Andaluzia, Extremadura e Madri decretaram três dias de luto oficial.
A Adif, administradora da infraestrutura ferroviária espanhola, anunciou a interrupção da circulação na linha de alta velocidade entre Madri e a Andaluzia. A Renfe também informou a suspensão de suas operações entre Madri, Ciudad Real e a região do sul da Espanha. A companhia aérea Iberia, por sua vez, impôs uma limitação no preço máximo de passagem com origem ou destino à Andaluzia até 8 de novembro, a fim de atender à demanda por transporte. (Com AFP)

