21 de julho de 2024

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Pelo menos 75% das famílias com crianças vivem insegurança alimentar no Complexo do Alemão, revela pesquisa

“A minha expressão não muda”, diz Glauce da Costa, de 29 anos, ao explicar por que, ao posar para as fotos desta reportagem numa laje no Complexo do Alemão, onde vive, seu semblante de preocupação se mantém.

— A gente dorme e acorda sem saber o que vai acontecer no outro dia — lamenta.

A moradora da comunidade da Zona Norte do Rio se refere à insegurança alimentar que enfrenta ao lado dos dois filhos, Maria Isadora e Enzo Gabriel, de 4 e 9 anos. Desempregada, ela é mãe solo e faz parte do grupo de 8.676 entrevistados que responderam a uma pesquisa do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) que indica que 75% das famílias com crianças de até 6 anos que moram no conjunto de favelas convivem ou conviveram com algum dos níveis de insegurança alimentar de moderada a grave nos últimos três anos. A divulgação dos dados será hoje, no Dia Mundial da Alimentação, uma referência à criação da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em 1945.

— A gente contava com as doações de cestas básicas de igrejas, como a de Inhaúma. Eu comecei a ter benefício do Bolsa Família depois que meu filho nasceu. Me lembro de uma vez que disseram que eu só tinha R$ 27 para receber. Não valia nem a pena descer o morro para buscar. Mas era aquilo ou nada — lembra Glauce.

Bicos para somar

 

Atualmente, ela vende lingerie e tem outro trabalho informal que ajuda a colocar comida em casa: a pé, leva e busca crianças em escolas públicas da região. Às 7h, Glauce já se prepara para a peregrinação pelas ruas do Complexo do Alemão, que tem 70 mil habitantes, de acordo com o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

— Por criança, eu ganho R$ 60 do responsável num mês. Se levar e buscar, o valor dobra — explica ela, que acrescenta: — Para conseguir comida, volta e meia eu e mais mulheres fretamos uma Kombi para catar verduras e legumes na Ceasa de Irajá. Tem gente que faz durar três meses.

Classificações variam

De acordo com Juliana Lignani, professora do Departamento de Nutrição Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), segurança alimentar é quando todas as pessoas de uma casa têm acesso à comida em quantidade suficiente ao longo dos meses. Já insegurança leve é quando, dentro dos domicílios, as pessoas têm a preocupação que o fim do mês vai chegar e elas não terão dinheiro para adquirir uma alimentação de qualidade e em quantidade suficiente.

Glauce, atualmente, recebe Bolsa Família de R$ 800 e é uma das pessoas do Alemão na categoria de insegurança alimentar moderada, mas já passou por outro nível:

— Da pandemia para cá, já houve dia de faltar comida, situações em que eu diminuía a minha quantidade para dar aos meus filhos. Até hoje, eu compro pé de galinha, moela, pescoço… Carne vermelha é mais cara.

O estudo do Ibase em parceria com o Instituto Raízes em Movimento e a ONG Educap foi feito com pessoas com mais de 15 anos em locais de alto fluxo de pedestres em 13 regiões internas do Complexo do Alemão: Nova Brasília, Reservatório, Alvorada, Morro das Palmeiras, Casinhas, Fazendinha, Pedra do Sapo, Mineiros, Morro do Adeus, Morro da Baiana, Matinha, Grota e Morro do Alemão.

— Estatísticos deram orientações técnicas e de segurança. Tudo era feito em pontos com maior circulação de pessoas.

Uma pesquisa nacional feita pela Rede Penssan (Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional) em 2022 indica que lares com crianças têm mais fome.

“A fome dobrou nas famílias com crianças menores de 10 anos, passando de 9,4% em 2020 para 18,1% em 2022. Na presença de três ou mais pessoas com até 18 anos de idade no grupo familiar, a fome atinge 25,7% dos lares. Já nos domicílios apenas com moradores adultos a segurança alimentar chegou a 47,4%, número maior do que a média nacional”, informa o relatório.

Liliane de Castro, de 30 anos, tem filhos de 8 e 13 anos e trabalha informalmente fazendo faxina — Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Liliane de Castro, de 30 anos, tem filhos de 8 e 13 anos e trabalha informalmente fazendo faxina — Foto: Ana Branco / Agência O Globo

— Não posso perder meus R$ 140 por dia. É pouco, mas está ajudando. Só que nem sempre eles chamam. Meus filhos estudam numa escola pública em Olaria. Ontem teve tiroteio e eles não puderam ir. Eu digo para eles comerem lá porque o prefeito dá as refeições, mas eles respondem que a comida não é boa, não tem sal, não tem gosto — diz a auxiliar de serviços gerais.

Impacto da pandemia

Questionado sobre que políticas públicas municipais podem minimizar esse quadro, Adilson Pires, secretário de Assistência Social da prefeitura, diz que as escolas públicas servem refeições para 619 mil crianças, café, almoço e lanche, e que debates sobre o tema estão na agenda para que haja melhorias:

— No Rio, demos posse ao Conselho de Segurança Alimentar, que antes não havia, e vamos participar de conferências, entre elas a estadual. O agravamento da pobreza desde a pandemia é um fato real. A saída para essas ações envolve o poder público municipal, mas também o federal.

Banco de alimentos

Pires diz ainda que a pasta está desenhando um projeto piloto que propõe a criação de um banco de alimentos no Ecoparque do Caju e que ele pode inspirar atendimento para outras regiões. Batizado de Alimenta Rio, a iniciativa inclui doação de frutas, legumes e verduras a mil famílias inscritas no CadÚnico e a catadores que trabalham no local. Trata-se de um acordo de cooperação internacional entre as cidades de Colônia, na Alemanha, e do Rio de Janeiro. Previsto no Decreto Municipal 50.703, ele terá a participação da Comlurb, que cederá o espaço, e do supermercado Zona Sul, que doará alimentos.

— Nesse caso específico, o programa vai atender o Caju. Mas vamos buscar ampliar para que outras redes façam essa parceria conosco. Essa iniciativa começará a funcionar na segunda quinzena de novembro. E pode ser o caminho para uma política persistente da secretaria, com parcerias com o setor privado. A gente pode, por exemplo, pensar nessa estratégia para o Complexo do Alemão — afirma o secretário.

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