2 de julho de 2026
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Pastor Márcio Poncio é preso na 5ª fase da Operação Unha e Carne, da PF, investigado por ligação com a ‘Máfia do Cigarro’

Segundo a PF, esta etapa “busca aprofundar a apuração de indícios de lavagem de dinheiro praticada pelo ‘capo’ da nova cúpula do jogo do bicho [Adilsinho] e possível ramificação do esquema junto a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do RJ”. O g1 tenta contato com a defesa dos investigados.

O pastor Márcio Poncio foi preso nesta quinta-feira (2) pela Polícia Federal (PF), na 5ª fase da Operação Unha e Carne. Também há mandados de prisão contra o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, e contra o ex-deputado estadual Rodrigo Bacellar — ambos já estavam encarcerados. 

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), expediu esses 3 mandados de prisão e outros de 14 de busca e apreensão — o ex-deputado Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral, é um dos alvos. 

Esta etapa investiga pagamentos do jogo do bicho e da “Máfia do Cigarro” a agentes públicos.

Marco Antônio Cabral negou as acusações.

Preso na Barra

Agentes prenderam Poncio em um flat na Praia da Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. Pastor da Igreja da Nuvem e empresário, Poncio é uma figura conhecida nas redes sociais, pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio, ex-membro da dupla UM44K. A família se envolveu em polêmicas e traições.

Segundo a PF, esta etapa “busca aprofundar a apuração de indícios de lavagem de dinheiropraticada pelo ‘capo’ da nova cúpula do jogo do bicho [Adilsinho] e possível ramificação do esquema junto a integrantes dos poderes Executivo e Legislativo do RJ”. 

Adilsinho e Bacellar já estavam encarcerados, e o ex-deputado será transferido do Complexo Penitenciário de Bangu, em Gericinó, para um presídio federal. 

Moraes também determinou o sequestro de bens e valores até R$ 22 milhões

A ação se insere no contexto da decisão do STF no âmbito do julgamento da ADPF 635/RJ, a ADPF das Favelas, que, dentre outras providências, determinou que a Polícia Federal conduzisse investigações sobre a atuação dos principais grupos criminosos violentos em atividade no estado e suas conexões com agentes públicos.

Planilhas

A 5ª fase da Unha e Carne derivou da Operação Fumus, de junho de 2021, que mirava o monopólio de cigarros no Grande Rio. Adilsinho era alvo, mas não foi encontrado. 

Na ocasião, a PF encontrou planilhas com “supostos pagamentos indevidos, doações eleitorais e contabilidade vinculada à lavagem de capitais”. 

“As listas chamaram a atenção dos investigadores por possíveis repasses diretos de valores a agentes políticos do RJ”, explicou. 

A TV Globo apurou que pelo menos 20 políticos são investigados por receber mesada de Adilsinho. 

Adilsinho só foi preso quase 5 anos depois, em fevereiro deste ano, em Cabo Frio. Um monitoramento por drones confirmou onde o contraventor estava.

Em abril, o ministro Gilmar Mendes, do STF, afirmou que ouviu de um diretor da Polícia Federal relatos de que mais de 30 deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro recebiam mesadas do jogo do bicho. 

“O presidente da Assembleia está preso. Eu conversava com o diretor-geral da Polícia Federal que dizia que 32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho”, declarou o decano. 

O ministro não informou quando ocorreu a conversa nem identificou qual diretor-geral da PF teria feito a afirmação — atualmente, o cargo é ocupado por Andrei Rodrigues. Também não citou nomes de deputados. 

Ao comentar o cenário político do estado, Mendes fez um desabafo: “Deus tenha piedade do Rio de Janeiro. Isso não pode ser causa de decidir, mas é preciso ter isso como motivo”.

O que dizem os investigados

Nota de Marco Antônio Cabral

“Marco Antônio Cabral recebeu, na manhã desta quinta-feira, um mandado de busca e apreensão, cujo cumprimento ocorreu de forma tranquila, com total colaboração às autoridades.

Ele nega, de forma categórica, qualquer participação em organização criminosa, lavagem de dinheiro ou o recebimento de valores de origem ilícita.

Marco Antônio reafirma seu respeito às instituições e permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários.”

As fases anteriores

Operação Unha e Carne teve 4 fases entre dezembro de 2025 e maio de 2026 e apurava, no início, um suposto vazamento de informações sigilosas de ações policiais contra o Comando Vermelho (CV)

Segundo a PF, os dados sensíveis compartilhados teriam comprometido operações e beneficiado investigados ligados à facção criminosa

A 1ª etapa da operação foi deflagrada em dezembro de 2025 e teve como alvo o então presidente da Alerj, o deputado Rodrigo Bacellar, hoje cassado e preso. 

De acordo com a Polícia Federal, Bacellar teria vazado informações sigilosas da Operação Zargun, deflagrada em setembro, contra o CV. O principal beneficiado seria o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o TH Joias, apontado como articulador político da facção e preso na Operação Zargun. 

Ainda segundo a investigação, o vazamento teria permitido a destruição ou ocultação de provas, frustrando a ação policial. 

Bacellar chegou a ser preso preventivamente por decisão de Alexandre de Moraes, mas foi solto dias depois — após decisão tomada em plenário da Alerj —, com medidas cautelares, como o uso de tornozeleira eletrônica. 

Ainda em dezembro de 2025, a 2ª faseaprofundou as apurações sobre a origem dos vazamentos. Nessa etapa, a PF prendeu preventivamente o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).

Segundo os investigadores, o vazamento teria partido do Judiciário federal. A suspeita é que o magistrado repassou informações a Bacellar, que, por sua vez, as transmitiu a TH Joias. 

A Polícia Federal informou ter encontrado mensagens, registros de ligações e indícios de relação próxima entre o desembargador e o deputado, o que, segundo a investigação, indicaria troca de favores.

A 3ª fase foi deflagrada em 27 de março de 2026. Nessa etapa, Rodrigo Bacellar foi preso novamente, desta vez em casa, em Teresópolis, na Região Serrana do Rio. 

A nova prisão foi determinada por Alexandre de Moraes após a cassação do mandato do político pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no caso conhecido como escândalo da Ceperj, e após denúncia formal apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) em 16 de março.

Na 3ª fase, a Polícia Federal também passou a relacionar diretamente o caso à ADPF 635, apontando que as condutas investigadas poderiam comprometer ações do Estado no combate ao crime organizado no Rio. 

A denúncia da PGR inclui, além de Bacellar, TH Joias, o desembargador Macário Júdice Neto e outros investigados. Segundo o órgão, há indícios de uma cadeia de proteção institucional ao crime organizado. 

Na 4ª fase, de 5 de maio de 2026, o deputado estadual Thiago Rangel (Avante) foi preso, suspeito de comandar um esquema de fraudes em procedimentos de compra de materiais e de aquisição de serviços, como obras para reformas, no âmbito da Secretaria Estadual de Educação do RJ (Seeduc). 

As irregularidades foram mostradas em uma série de reportagens no RJ2. As apurações que levaram a esta 4ª etapa revelaram direcionamentos das contrataçõesrealizadas por escolas estaduais vinculadas à Diretoria Regional Noroeste da Seeduc — segundo a PF, uma zona de influência política de Rangel — para empresas previamente selecionadas e vinculadas ao esquema. 

A Máfia do Cigarro

Em 2024, o g1 mostrou como agia a máfia do cigarro no RJ. Na ocasião, segundo as investigações, a quadrilha de Adilsinho já controlava ao menos 45 dos 92 municípios do estado. Nessa região, só os maços produzidos pela quadrilha podiam ser vendidos. Quem desrespeitasse corria risco de vida. 

Trata-se de um negócio de bilhões: de 2018 a 2023, segundo dados do Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec), só de sonegação fiscal o mercado do cigarro falsificado deixou de pagar R$ 10 bilhões em impostos em todo o Brasil – mais de R$ 2 bilhões só no Rio de Janeiro. 

A marca Gift já era vendida ilegalmente no Rio — contrabandeada do Paraguai e rendendo milhões aos responsáveis pelo crime. Para ter o monopólio da venda ilegal, a máfia do cigarro no Rio passou a falsificar os cigarros em fábricas locais, com mão de obra inicialmente paraguaia — para que os cigarros mantivessem a qualidade daquele país. 

Mas a fabricação hoje já é feita por brasileiros. Após produzirem os cigarros, a máfia obriga donos de bancas de jornal e comerciantes a oferecer somente o produto falsificado — e fiscaliza constantemente os pontos de venda.