21 de julho de 2024

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Histórico teatro no Centro do Rio é colocado à venda por R$ 10 milhões

Uma placa de “vende-se” chama a atenção de quem passa pela Rua Senador Dantas, 13, no coração da Cinelândia. Fixada na entrada do histórico Teatro Serrador, a faixa representa o que pode ser o desfecho de um capítulo triste da cultura do Rio. Fechado desde 2019, o imóvel está à venda por R$ 10 milhões, após tentativas frustradas da dona, a atriz e empresária Brigitte Blair, de reabri-lo.
A prefeitura diz que cogita reverter a decisão da venda. No entanto, até o momento, não há nenhuma negociação concreta para arrendar a sala de espetáculos, o que impediria que a cidade perdesse mais um espaço cultural. Há um mês, o tradicional Teatro do Leblon, na Zona Sul, foi vendido para uma igreja evangélica.
Construído na década de 1940, ele foi palco da estreia da lendária atriz Bibi Ferreira, em 1941, entre outras grandes montagens. Brigitte Blair, que também é dona do teatro que leva seu nome, em Copacabana, lembra que o Serrador ficou inoperante após um arrendamento realizado para a Prefeitura do Rio. O imóvel acumula infiltrações e diversos problemas decorrentes da falta de conservação.
“Quando vou lá, eu passo mal. As pessoas que viram o teatro bonito, quando vão, ficam em depressão. É uma falta de respeito. Um teatro tão lindo daquele”, lamenta a proprietária.

Em 2016, sob a gestão de Eduardo Paes e do secretário de Cultura Marcelo Calero, o teatro foi arrendado para ser incluído na rede municipal de salas de espetáculos. O espaço foi reaberto em grande estilo, com casa lotada e apresentação de Bibi Ferreira, aos 93 anos. A revitalização custou R$ 600 mil, durou seis meses, e reformou palco, camarins, poltronas, banheiros, piso e impermeabilizou a laje. O teatro passou a ter 285 lugares, novos aparelhos de ar condicionado e acessibilidade.

Na gestão de Marcelo Crivella, no entanto, o Serrador foi fechado em 2019 e nunca mais reabriu. O contrato de arrendamento para a prefeitura venceu em junho de 2019, mas Brigitte enfrentou dificuldades para reaver as chaves, e conta que só as conseguiu em fevereiro de 2020, oito meses depois do fim do contrato.

A casa foi encontrada danificada, com queda de pedaços do teto, infiltração e até falta de poltronas e aparelhos de ar condicionado. “Sumiram mais de cem cadeiras, poltronas de 80 anos que foram feitas para o teatro. [Sumiram] bancos da sala de espera, lustres antigos. Sumiu tudo”, afirma Brigitte, que completa:

“Eu estou desde 2019 com o teatro inoperante. As pessoas me procuraram com vários projetos e eu não consegui realizar. Eu vivo disso. O primeiro que aparecer, vou vender. Em 60 anos de trabalho eu nunca na minha vida tive auxílio de dinheiro público. A primeira vez na vida que eu arrendo, destruíram o imóvel, não me pagaram. Deixaram o teatro inoperante”, desabafa a empresária.

A atriz chegou a ter uma reunião em outubro de 2022 com Eduardo Paes sobre o Serrador, mas sem retorno concreto da prefeitura, ela se mostra pessimista quanto a um novo arrendamento. “Se eu não vender, a última resposta é arrendar para igreja. A igreja compra ou arrenda. Mas, gostaria que o teatro continuasse teatro. Você vê a minha resistência: em 60 anos, nunca vendi. Sempre fiz os meus espetáculos. Mas, não tenho mais idade pra isso. Coloquei à venda, e se me aparecer um comprador para o de Copacabana (Brigitte Blair) eu vendo também”, declara a proprietária.

Integrante do corredor cultural da Cinelândia, o Serrador está na mesma região de outros símbolos do Rio, como os teatros Municipal, Rival e Riachuelo (antigo Cine Passeio). Antes de ser municipalizado, em 2016, ele havia ficado fechado por três anos, até ser arrendado pelo poder público.

Uma lei de 1987 restringe a venda de imóveis do Corredor Cultural. O Teatro Serrador é passível de renovação do prédio, mas a medida precisaria passar por análise e aprovação prévia do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Além disso, a mudança de uso é proibida. O texto da lei determina a manutenção dos usos, da capacidade e da localização no pavimento térreo das salas de espetáculos dos imóveis que fazem parte do Corredor Cultural. A informação foi confirmada ao O DIA pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade, da prefeitura.

Procurada, a Secretaria Municipal de Cultura informou que a retomada do Teatro Serrador está em análise pela prefeitura.

‘Artistas com menos espaços’

Filha da atriz e administradora do Brigitte Blair, Patricia Blair afirma que o arrendamento seria a melhor solução para o teatro. “O que a gente gostaria é que a prefeitura assumisse para que continuasse sendo teatro. Mas como estamos tentando resolver desde 2019, sem solução, esse ano foi colocado à venda”, diz a administradora. “Os artistas vão ficando com cada vez menos espaços para realizarem seus espetáculos. Nunca tem edital para manter teatros. Não adianta fazer vários editais e ir acabando com os espaços”, avalia Patricia.

Quando Brigitte comprou o Serrador, Patricia tinha 6 anos. Ela lembra que foi criada no teatro. “Minha mãe administrava os dois [Serrador e Brigitte Blair]. O Serrador era maior, mais trabalhoso e por isso ela ficava mais lá. Hoje eu sou mais administradora do Brigitte, mas adolescente, era atriz. Fiz vários espetáculos naquele teatro. O Serrador é mágico. Tem uma acústica absurda. As pessoas que subiram naquele palco ficaram encantadas”, relembra.

O Teatro Serrador foi inaugurado em março de 1940 com a comédia “Maria Cachucha”, produzida pela companhia do pai de Bibi Ferreira (1922-2019), Procópio Ferreira (1898-1979). O prédio fica em frente ao Edifício Serrador, futura sede da Câmara Municipal do Rio.

Fechamento de palcos importantes

Nos últimos 25 anos, o Rio perdeu palcos importantes, como o Teatro Glória, que ficava no Hotel Glória; o Teatro Delfim, no Humaitá, o Teatro Villa-Lobos, em Copacabana, que pegou fogo; o Maison de France, no Castelo; o Teatro Eva Hertz, na Cinelândia; e, no último mês, a Sala Marília Pêra, do Teatro do Leblon, vendida para a Igreja Lagoinha Zona Sul, comandada no Rio pelo pastor Felippe Valadão.

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