Festa de Iemanjá leva milhares de pessoas ao Arpoador

Rainha dos mares, mãe protetora dos pescadores, zeladora do amor e da fertilidade. A figura de Iemanjá esta marcada na pele, nas roupas e até em cangas de praia dos cariocas. Celebrada anualmente no dia 2 de fevereiro, a devoção a Iemanjá sobrevive aos obstáculos de uma cidade ainda marcada pelas chagas do preconceito religioso. Nossa senhora dos navegantes para alguns, Iemanjá para outros, as areias da praia do Arpoador se tornaram palco para o sincretismo religioso à carioca, unindo fiéis de diferentes religiões que, por devoção, escolheram homenagear a rainha em seu reino: o mar.

Acendendo velas na areia do Arpoador, a professora Adriana Aparecida, de 52 anos, celebrava sua primeira festa de Iemanjá na praia.

— Sempre acompanhei muito e tive devoção. Tanto a nossa senhora aparecida, quanto com Nossa Senhora dos Navegantes, mas nunca fui de celebrar enquanto era da igreja católica. No último ano me converti a umbanda, descobri que minha mãe é Iemanjá e então decidi vir aqui hoje celebrar ela. Uma festa lindíssima, emocionante.— afirmou Adriana Reza a lenda que a tradição é antiga, iniciada originalmente, há exatamente um século, no 2 de fevereiro de 1923, na areia da Praia do Rio Vermelho, em Salvador.

Clamando por fartura e prosperidade na pesca, um grupo de 25 pescadores teria oferecido presentes a padroeira. A benção foi garantida, fazendo com que daquele fevereiro em diante a data fosse celebrada com as tradicionais entregas de rosas brancas e barquinhos destinados à mãe dos mares.

Em meio aos devotos e demais cariocas celebrando, um trio se destacava. Com palavras que pareciam não fazer muito sentido em relação aos demais frequentadores da praia, o trio russo formado pelos amigos Ksenya, Alina, Dmitriy chamava a atenção. Com olhares admirados, os turistas de Moscou assistiam a festa dos cariocas.

— É muito lindo tudo isso, é muito novo para a gente também. Nunca vimos nada parecido por lá. Chegamos no Rio tem duas semanas e só ontem ficamos sabendo da existência da festa, quando uma carioca avisou nosso amigo (Dmitriy) pelo Tinder. Nós decidimos vir e ver a festa, mas não esperávamos algo tão grandioso — afirmou a estudante Kesnya.

Sobre as tradicionais oferendas ela lamentou:

— Infelizmente ninguém avisou que era para trazermos flores. Mas mesmo assim arriscamos um pedido — brincou.

À noite, as rosas brancas, oferendas tradicionais entregues à santa de fato estavam escassas. Por volta das 19h30 uma ambulante anunciava rosas vermelhas a 10 reais, questionada sobre as brancas apenas uma exclamação:

— Branca acabou antes do meio-dia!

Embora o cortejo e o tamanho chamem a atenção, as homenagens já ocorrem há tempos. Com 90 anos, a mãe de santo Maria Enezia Moura, afirma que já perdeu as contas de quantas festa de Iemanjá atendeu. Mas que se orgulha de poder dizer que sempre teve o que agradecer.

— Uma festa linda dessas, não tem como não se emocionar. Os pedidos existem, sim, mas junto deles e até mais importantes tem os agradecimentos. O principal pedido é a renovação, positividade. Que Iemanjá traga virtude e boas energias para todos nós e ilumine os caminhos desse país. — afirmou ainda emocionada.

Às 20h fiéis e curiosos começavam a se recolher das areias, dando lugar a vista das flores espalhadas pelo mar e praia depois da festança.

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