Ex-secretária de Educação do RJ é alvo de buscas em operação contra fraudes de R$ 1,6 bilhão em obras de escolas
A Polícia Civil do RJ e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) iniciaram nesta quinta-feira (1º) a Operação Escola de Papel, a fim de investigar suspeitas de fraudes em contratos de obras e serviços da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro (Seeduc-RJ) durante a gestão da ex-secretária Roberta Barreto de Oliveira. Segundo os investigadores, o prejuízo apurado pode chegar a R$ 1,6 bilhão.
Roberta foi nomeada secretária de Educação em 10 de março de 2023 pelo governador Cláudio Castro (PL), saindo em 24 de fevereiro deste ano, a pedido.
Agentes da Coordenadoria de Investigação de Agentes com Foro (Ciaf) e promotores da Atribuição Originária Criminal do procurador-geral de Justiça do RJ, Antonio José Campos Moreira, saíram para cumprir 19 mandados de busca e apreensão. Não há mandados de prisão.
Além de Roberta, são alvos Yurie Lopes Fonseca Ormonde André, genro dela; David de Andrade Marinho Filho, ex-subsecretário de Gestão Administrativa da Seeduc; e Fabio Martins Pereira, apontado pelos investigadores como operador financeiro do esquema.
Até a última atualização desta reportagem, não havia posicionamento das defesas dos citados sobre as acusações investigadas.
Como era o esquema
Segundo a Ciaf, a Seeduc repassava dinheiro para associações de apoio às escolas, que contratavam empresas para tocar as obras. Essas firmas recebiam dinheiro público e sacavam parte dos valores na boca do caixa.
Os recursos eram distribuídos por um operador financeiro e voltavam para pessoas ligadas à então secretária Roberta Barreto, que transformavam dinheiro público em patrimônio particular, como imóveis.
“O esquema, em síntese, consistia na dispensa de licitação para realização de pequenas obras, pequenos reparos, de uns R$ 5 mil. Só que, em vez de fazer a contratação nesse valor ínfimo, que torna dispensável a licitação, os contratos eram celebrados em valores exorbitantes, o que indica inclusive superfaturamento”, explicou Campos Moreira.
Rede de contratos
De acordo com as investigações, licitações teriam sido direcionadas pela secretaria para a empresa MCK Reformas e Construções Ltda, que recebeu cerca de R$ 6 milhões em contratos. Desse total, aproximadamente R$ 4 milhões teriam sido repassados a Fabio Martins Pereira, proprietário da Virtual Construtora Ltda.
A investigação também aponta que, em 16 de janeiro deste ano, Marcos José Mendes Ferreira, dono da MCK, foi flagrado sacando R$ 500 mil em espécie em uma agência bancária de Duque de Caxias.
Segundo os investigadores, o veículo usado para transportar o dinheiro estava registrado em nome de Yan Lopes Fonseca Ormonde André, irmão de Yurie. A apuração também indica que o policial militar que fazia a escolta dos valores mantinha sociedade empresarial com o pai deles.
Ainda de acordo com o Ministério Público e a Polícia Civil, somente em 2025 a MCK Reformas recebeu mais de R$ 11 milhões em recursos públicos, boa parte sacada em dinheiro vivo.
Os investigadores afirmam que a empresa funcionava em endereço residencial, não possuía empregados registrados nem apresentava histórico compatível com a execução de grandes obras, apesar de ter sido contratada para reformas milionárias em escolas estaduais.
Os investigados são alvo de apuração por suposto direcionamento de contratação pública, desvio de dinheiro público, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Investigação começou após denúncias sobre obras em escolas
Em fevereiro, o RJ2 mostrou o crescimento dos gastos feitos por meio do sistema descentralizado de pagamento da Seeduc.
Levantamento citado nas denúncias aponta que mais de R$ 1 bilhão foi movimentado pelo sistema em 2 anos: R$ 630,2 milhões em 2024 e R$ 513,3 milhões em 2025.
As reportagens também apontaram indícios de ligação entre empresas que participavam de concorrências para obras em escolas estaduais, incluindo compartilhamento de funcionários, mesma contabilidade e consultorias em comum.
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) abriu uma investigação para apurar possíveis irregularidades na contratação de empresas e no uso do sistema descentralizado para financiar reformas estruturais na rede estadual de ensino.
O que diz a Seeduc-RJ
“A Secretaria de Educação já vem realizando uma revisão dos contratos e dos procedimentos relacionados às obras de manutenção e reparo nas unidades da rede estadual, com o objetivo de fortalecer os mecanismos de controle, corrigir eventuais fragilidades e assegurar a correta aplicação dos recursos públicos.
Entre as ações implementadas está a definição de um limite de até R$ 130 mil para contratações destinadas a serviços de manutenção e pequenos reparos, em conformidade com a legislação vigente. Intervenções que ultrapassem esse valor passaram a ser classificadas como obras de maior porte e são executadas pela Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (Emop-RJ).
A Secretaria segue colaborando com o Ministério Público, o Tribunal de Contas do Estado, a Polícia Civil e os demais órgãos competentes, reafirmando o compromisso com a transparência e o aperfeiçoamento contínuo dos mecanismos de controle da gestão pública.”

