Desenrola 2.0: saiba quem pode renegociar dívidas e como pedir descontos
Especialistas veem alívio imediato para famílias com débitos em atraso, mas alertam para risco de nova inadimplência
Com 82 milhões de brasileiros negativados, o governo federal lançou o Novo Desenrola Brasil 2.0, programa de renegociação de dívidas voltado para pessoas com renda de até cinco salários mínimos. A nova versão prevê descontos de até 90%, parcelamento em até quatro anos e renegociação direta com os bancos. Em meio ao avanço da inadimplência no país, especialistas ouvidos pelo O DIA avaliam os impactos, os benefícios e os cuidados necessários antes de aderir ao programa.
O lançamento ocorre em um cenário em que o setor financeiro concentra quase metade das dívidas em aberto no país. Segundo o Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa, 47% dos débitos ativos são ligados a bancos e instituições financeiras, que sozinhos representam 27% de todas as dívidas negativadas no Brasil.
Um levantamento da Serasa em parceria com o instituto Opinion Box mostra ainda que 49% dos brasileiros endividados com bancos acumulam múltiplas dívidas em uma mesma instituição. Em média, cada consumidor inadimplente possui mais de três pendências financeiras em aberto.
O cartão de crédito lidera como principal causa de endividamento, apontado por 73% dos entrevistados, seguido por empréstimos (56%) e pelo uso do limite da conta ou cheque especial (33%). Entre os consumidores endividados no cartão, 37% acumulam débitos acima de R$ 10 mil e 36% convivem com as pendências há mais de dois anos.
“Quando o crédito rotativo passa a ser utilizado de forma recorrente, especialmente em valores elevados, o risco de endividamento prolongado aumenta significativamente. Isso ajuda a explicar por que uma parcela relevante da população permanece com dívidas por tanto tempo”, afirma Aline Maciel, diretora da Serasa.
Segundo os dados, 38% dos brasileiros atribuem o endividamento com bancos ao desemprego ou à perda de renda. Da mesma forma, ao investigar os gastos que levaram às dívidas bancárias, o levantamento aponta uma relação direta com a sobrevivência financeira: o pagamento de contas básicas e a quitação de outras dívidas aparecem como os principais motivos.
“A pesquisa reforça que o endividamento bancário no Brasil não está ligado ao consumo impulsivo, mas a uma tentativa de manter o básico em dia”, afirma Aline. “Quando despesas essenciais, como alimentação e saúde, passam a ser financiadas no crédito, o risco de efeito bola de neve aumenta significativamente”, acrescenta.
Ainda de acordo com o estudo, 71% dos entrevistados já tentaram negociar suas dívidas com bancos. Quando perguntados sobre a expectativa e organização para sair da inadimplência, 54,9% se mostram confiantes em conseguir arcar com a negociação. Já entre aqueles que não sabem ou não têm certeza, mais descontos e redução de juros aparecem como os principais fatores que poderiam viabilizar o pagamento das pendências com bancos.
“Entendemos que existe disposição para negociar, mas muitas vezes as condições oferecidas ainda não cabem no orçamento do consumidor. Por isso, iniciativas estruturadas de renegociação são fundamentais para ampliar o acesso a acordos mais viáveis”, avalia Aline.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto Opinion Box, com coleta entre 10 e 15 de abril de 2026, ouvindo 1.904 entrevistados. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.
Regras do Novo Desenrola
O Novo Desenrola Brasil 2.0 é voltado para pessoas com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105) e permitirá a renegociação de dívidas contratadas até 31 de janeiro de 2026, com atraso entre 90 dias e dois anos. Diferentemente da edição anterior, as negociações serão feitas diretamente com os bancos onde os débitos estão registrados, sem a necessidade de acessar uma plataforma do governo. A adesão ao programa começou na última terça-feira (5) e ficará disponível por 90 dias.
O programa inclui dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito rotativo, crédito pessoal e contratos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Segundo o Ministério da Fazenda, os descontos variam entre 30% e 90%, a depender do tempo de atraso e do tipo da dívida. No caso do cartão de crédito e do cheque especial, por exemplo, o desconto mínimo será de 40% para débitos entre 90 e 120 dias de atraso, podendo chegar a 90% para dívidas com mais de um ano.
As dívidas renegociadas poderão ser parceladas em até quatro anos, com possibilidade de carência de até 30 dias para o pagamento da primeira parcela. De acordo com o governo federal, a expectativa é que a “limpeza do nome” do consumidor ocorra logo após a adesão ao acordo. O limite da nova dívida renegociada será de até R$ 15 mil por pessoa em cada instituição financeira.
O governo também anunciou que os participantes poderão sacar até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e terão acesso a juros limitados a, no máximo, 1,99% ao mês ao mês, ou 26,68% ao ano. Para garantir as renegociações, será criado um fundo com recursos públicos que servirá como garantia para os bancos em caso de inadimplência.
Quem aderir ao programa terá o CPF bloqueado para apostas on-line por 12 meses. Segundo o governo, a medida busca evitar que pessoas em renegociação de dívidas utilizem recursos em plataformas de bets.
O Novo Desenrola também inclui a renegociação de contratos do Fies. Para estudantes inscritos no Cadastro Único para Programas Sociais do governo federal (CadÚnico), os descontos podem chegar a 99% do valor total da dívida. Já para os demais estudantes com contratos em atraso há mais de 360 dias, o abatimento vai até 77%. Os débitos poderão ser quitados à vista, com desconto sobre juros, multas e parte do principal, ou parcelados em até 150 vezes sem juros e multa.
Além das famílias, o pacote anunciado pelo governo inclui medidas para micro e pequenas empresas, produtores rurais e mudanças nas regras do crédito consignado do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e de servidores públicos. Entre as alterações estão a redução gradual da margem consignável e o aumento do prazo para pagamento dos empréstimos.
No caso do INSS, o governo diminuiu o limite de consignação total de 45% para 40% da renda. A margem exclusiva para cartão consignado e de benefícios — de 5% para cada — acabou. Na nova margem, de 40%, a participação do cartão consignado, e de benefícios é de 5% para cada.
A mudança no consignado do servidor foi semelhante: fim dos 10% de margem exclusiva para cartão consignado e redução do limite de consignação de 45% para 40%. Destes, o cartão consignado pode ocupar no máximo 10%.
A ideia, segundo o Ministério da Fazenda, é reduzir a margem consignável gradualmente. Em ambos os casos, a margem de 40% vai cair 2 pontos porcentuais ao ano até atingir um limite de 30%.
O prazo do consignado do INSS foi aumentado de 96 para 108 meses, e houve o fim da vedação à carência e permissão para que ela seja de até 90 dias. No caso do consignado do servidor, o prazo foi aumentado de 96 para 120 meses, com autorização de carência de até 120 dias.
O governo também lançou renegociações específicas para pequenas empresas. No Procred, que atende a microempresas com faturamento anual de até R$ 360 mil, o limite de valor das operações passou de 30% do faturamento para 50% do faturamento, com teto de R$ 180 mil (ou 60%, também com teto de R$ 180 mil, para empresas lideradas por mulheres). A carência subiu de 12 para 24 meses, e o prazo máximo das operações, de 72 para 96 meses.
Para atender a micro e pequenas empresas, com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões, foram atualizadas as regras do Pronampe: aumento do valor total do crédito (R$ 250 mil para R$ 500 mil), da carência (12 para 24 meses), do prazo máximo da operação (72 para 96 meses), e da tolerância no atraso para a concessão de novos créditos (14 para 90 dias).
O governo também decidiu renegociar dívidas rurais, com reabertura do prazo do Desenrola Rural até dezembro. A ideia é beneficiar mais de 800 mil agricultores familiares.
Especialistas alertam para cuidados antes da renegociação
Para especialistas em finanças, o Novo Desenrola Brasil 2.0 pode ajudar milhões de brasileiros a retomarem o acesso ao crédito e reorganizarem a vida financeira, mas exige cautela para evitar que a renegociação se transforme em um novo ciclo de inadimplência.
A educadora financeira Bia da Barkus avalia que o programa tem potencial para reduzir a inadimplência e movimentar a economia ao reinserir consumidores no mercado formal de crédito e consumo.
“O Desenrola tem um impacto importante na economia porque ele atua justamente em um dos maiores gargalos financeiros do país hoje: o endividamento das famílias brasileiras. Quando uma pessoa está negativada, ela perde acesso a crédito, reduz o consumo e passa a viver em um estado constante de instabilidade financeira. Isso afeta a vida individual e o funcionamento da economia como um todo”, diz.
“Ao permitir renegociações com descontos e condições mais acessíveis, o programa tende a reduzir a inadimplência e devolver parte dessas pessoas ao mercado de consumo e crédito formal. Na prática, isso pode movimentar setores da economia, aumentar a circulação de dinheiro e melhorar a capacidade das famílias de reorganizarem suas finanças”, acrescenta.
Segundo ela, renegociar dívidas não resolve sozinho os problemas estruturais do endividamento.
“Muitas famílias entram em ciclos de dívida porque nunca tiveram acesso a educação financeira conectada à realidade delas, ao planejamento financeiro e ao entendimento do uso do crédito”, aponta.
O consultor financeiro Renan Diego também avalia que o programa pode trazer efeitos positivos no curto prazo ao reduzir a inadimplência e liberar parte da renda das famílias para o consumo.
“O programa Desenrola pode impactar positivamente a economia ao permitir que pessoas endividadas renegociem suas dívidas com melhores condições, o que reduz a inadimplência no curto prazo e libera parte da renda para o consumo, o que ajuda a aquecer a atividade econômica do país. Além disso, ao possibilitar que muitos consumidores limpem o nome, o programa amplia o acesso ao crédito e aumenta a confiança das instituições financeiras para conceder empréstimos”, revela.
Descontos altos exigem atenção ao custo final
Apesar dos descontos de até 90% anunciados pelo governo, especialistas alertam que o percentual de abatimento, sozinho, não garante que a dívida se tornará sustentável.
“Muitas vezes, o brasileiro olha primeiro para o percentual de desconto e não para o valor da parcela no contexto da própria renda e da vida real. Uma dívida pode ter 70% ou 80% de desconto e ainda assim continuar pesada se a pessoa já estiver com orçamento comprometido, renda instável ou acumulando outras contas básicas atrasadas, como aluguel, luz e alimentação. Em alguns casos, aderir ao programa sem reorganizar minimamente o orçamento pode gerar uma nova bola de neve financeira poucos meses depois”, afirma Bia.
Segundo ela, antes de aceitar uma renegociação, é importante avaliar se a parcela cabe no orçamento, se haverá previsibilidade de renda nos próximos meses e se a pessoa conseguirá manter as despesas essenciais sem depender novamente de crédito.
Renan Diego reforça que o consumidor precisa olhar além do desconto anunciado e considerar o custo total da renegociação.
“O risco pode ser real, isso porque o desconto chama muita atenção, mas o que realmente importa é o custo total da dívida após a renegociação. Se o consumidor focar só no percentual de desconto e ignorar fatores como juros, número de parcelas e valor final pago, pode acabar aceitando um acordo que parece vantajoso, mas sai caro no longo prazo”, explica.

