Clero português cometeu abusos sexuais contra no mínimo 4.815 menores desde 1950, mostra investigação

O clero católico de Portugal abusou sexualmente de pelo menos 4.815 menores desde 1950, de acordo com uma comissão independente de investigação que apresentou suas conclusões nesta segunda-feira, após um ano colhendo o depoimento de centenas de vítimas.

— Os testemunhos nos permitem chegar a uma rede de vítimas muito mais ampla, calculada em um número mínimo de 4.815 — afirmou o presidente da comissão independente de especialistas, o psiquiatra infantil Pedro Strecht, em uma entrevista coletiva em Lisboa. — Não é possível quantificar o número total de crianças vítimas.

A investigação foi solicitada em 2021 pela Igreja de Portugal, um país de arraigada tradição religiosa, onde 80% da população se definem como católicos. A comissão concluiu que a Igreja portuguesa tem uma cobertura de acobertamento dos casos, e que a quantidade real de vítimas é muito maior.

— Foi muito mais do que isso — disse o juiz Álvaro Laborinho Lúcio, outro integrante do grupo.

Strecht afirmou que “houve evidentemente ocultação desses abusos sexuais por parte da Igreja Católica” e que a colaboração da Igreja com a comissão indica que agora estão em “um caminho de desocultação”.

Apesar disso, ele disse que as soluções oferecidas até agora têm sido insuficientes, recomendando que os abusadores sejam expulsos do clero.

— Não bastam retiros espirituais, ausências transitórias. Desculpem-me a linguagem, mas não há milagres — afirmou. — Grande parte dessas pessoas tem tudo a seu favor para continuar com seus crimes (…) Se pudesse, obviamente os afastava.

Foram validados 512 dos 564 depoimentos recebidos. Strecht afirmou que, a despeito do número, os abusadores são uma minoria em meio ao clero:

— É baixo o número de abusadores dentro do seio da Igreja e, por isso mesmo, continua a ser importante não confundir a parte com o todo — afirmou.

Em outubro, uma equipe de seis especialistas liderada por Strecht anunciou que havia registrado 424 testemunhos legítimos de supostas vítimas, mas advertiu que o número total era “muito maior”.

Os fatos denunciados revelam “situações graves que persistiram durante décadas, que se tornam mais evidentes à medida que se recua no tempo e que, em alguns locais, adquiriram proporções verdadeiramente endêmicas”, concluiu a equipe em outubro, em um relatório preliminar.

Quase 60% dos abusos aconteceram entre as décadas de 1960 e 1980.

Casos prescritos

A maioria dos casos denunciados já prescreveu, mas 25 depoimentos foram encaminhados ao Ministério Público, que abriu investigações. Antes disso, só 4% das vítimas reportaram os abusos sofridos às autoridades.

Entre os agressores, 77% eram padres. Aproximadamente 48% das vítimas falaram pela primeira vez sobre os abusos de que foram vítimas à comissão independente.

Ainda neste mês fevereiro, a comissão vai terminar uma lista de “abusadores ativos”, que enviará ao Ministério Público e à Igreja. Os abusos “estão espalhados por todo o país”, mas Lisboa, Porto e Coimbra são os distritos com mais casos reportados.

A comissão sugeriu a extensão do prazo de prescrição dos crimes de abuso sexual infantil para o momento em que as vítimas completem 30 anos de idade. Atualmente, esse prazo está nos 23 anos.

De acordo com um conjunto de 217 estudos consultados pela Comissão, 18% de meninas e 8% de meninos são abusadas até aos 18 anos (por familiares, educadores ou outros).

Trauma ainda vivo

Um dos 25 casos encaminhados ao MP é o de Alexandra, o segundo nome de uma mulher de 43 anos que prefere permanecer no anonimato e que foi estuprada por um padre quando se preparava para a vida de freira aos 17 anos.

— É muito difícil falar sobre o tema em Portugal — disse à AFP Alexandra, que é mãe, formada em Ciência da Computação e trabalha como ajudante de cozinha. — Eu guardava esse segredo havia muitos anos, mas sentia que era cada vez mais difícil administrar sozinha.

Ela chegou a denunciar o agressor às autoridades eclesiásticas, mas se sentiu “ignorada”. Três anos depois, os especialistas da comissão independente se ofereceram para ouvir seu depoimento e proporcionar apoio psicológico.

Em abril do ano passado, o cardeal-patriarca de Lisboa e principal líder da Igreja Católica portuguesa, Manuel Clemente, declarou-se disposto a “reconhecer os erros do passado” e a “pedir perdão” às vítimas.

— Que os bispos peçam perdão não significa nada para mim. Não sabemos se o que falam é sério — disse Alexandra, que se declarou “enojada” com a Igreja e seu acobertamento dos abusos sexuais.

O Papa Francisco viajará a Portugal em agosto para a Jornada Mundial da Juventude, e existe a possibilidade de um encontro com algumas vítimas, informou recentemente o arcebispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar.

Diante dos milhares de casos de abusos revelados em todo o mundo e das acusações de acobertamento, o Pontífice prometeu em 2019 erradicar o o abuso sexual de menores por parte do clero dentro da Igreja.

Vários países publicaram nos últimos anos relatórios sobre casos de pedofilia na Igreja, incluindo França, Irlanda, Alemanha, Austrália e Holanda.

Os bispos portugueses devem se reunir no início de março para tirar conclusões do relatório e para “erradicar na medida do possível esse flagelo da vida da Igreja”, como afirmou em janeiro o secretário da Conferência Episcopal, padre Manuel Barbosa.

Alexandra vê o trabalho da comissão como um “bom início” para os que buscam “romper o muro” de silêncio que cercou o tema por tanto tempo.

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