1 de novembro de 2026
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Patrimônio na Mesa: Lugares que contam a história do Rio

Reconhecidos como patrimônio pela Alerj, estabelecimentos como Bar Urca e Café Gaúcho preservam sabores e tradições que fazem parte da identidade fluminense.

Em meio à paisagem urbana marcada pelos grandes prédios do Rio de Janeiro, o bairro da Urca, na Zona Sul, preserva uma atmosfera de cidade pequena. Os muros baixos das casas, que parecem ter parado no tempo, chamam atenção nas ruas tranquilas Na mureta à beira da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar ao fundo, fluminenses de diferentes partes do estado e turistas de todo o mundo compartilham o fim de tarde e os tradicionais bolinhos de bacalhau do Bar Urca. Aberto em 1939, o estabelecimento foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Turístico do Estado do Rio de Janeiro pela Lei 9.887/22, aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).

Para Rodrigo Gomes, sócio do bar e neto de Seu Gomes, que deu início à trajetória da família no Bar Urca, o título confirmou um papel que o estabelecimento já exercia. “Foi uma chancela do poder público para o que a gente já vinha sendo naturalmente: um ponto de referência para a cidade, para o estado e para o país. É como se a gente tivesse recebido um selo dizendo que o Bar Urca não é somente um bar e restaurante, é um ponto turístico, uma experiência a ser vivida”, afirmou. Segundo ele, o público chega para comer bem, mas também para aproveitar a mureta, caminhar pelo bairro e apreciar a vista. “É muito mais do que um simples comércio”, completou.

Tradição que atravessa gerações

O bar foi criado por imigrantes alemães e suíços e, mais tarde, comprado por portugueses. Em 1972, o português Armando Gomes, o Seu Gomes, adquiriu o negócio, que ainda se chamava Bar Tabajaras. Ele morreu em 2012, e hoje a casa é administrada pelo filho, também Armando, e pelos netos Rodrigo e Armando, a terceira geração da família no comando. Segundo Rodrigo, cada geração trouxe melhorias na gestão, como controle de estoque automatizado e monitoramento por câmeras, sem alterar a identidade da casa. “Sempre mantivemos o cerne do bar, que é o atendimento personalizado, aquele que faz os clientes se sentirem em casa quando entram”, contou.

Com o aumento do número de turistas, o público mudou, mas o vínculo afetivo com o lugar permaneceu. Nos últimos seis meses, cerca de três casamentos aconteceram na mureta e no balcão do restaurante. “A Urca é um bairro de aconchego, que aproxima as pessoas por lembrar o Rio antigo, daquela época em que o vizinho vinha pedir um copo de açúcar. Isso ainda é muito mantido”, relatou Rodrigo.

A declaração de Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro tem a finalidade de preservar a importância histórica e cultural desses espaços para a identidade fluminense. O título não implica tombamento nem impõe restrições aos imóveis, mas permite que o Poder Executivo desenvolva ações de valorização e divulgação em parceria com a sociedade civil.

Cafezinho em pé no Centro

No Centro do Rio, a parede de azulejos retrô do Café Gaúcho conta parte da história da região. O estabelecimento foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado do Rio de Janeiro pela Lei 10.710/25, com o objetivo de preservar a trajetória de uma das cafeterias mais tradicionais do estado. À frente do negócio está Marcos Cunha, terceira geração da família no comando da casa, comandada inicialmente pelo avô. Ele sucedeu o pai, Sérgio Cunha, ainda jovem, ao lado do irmão, e manteve as portas abertas durante a pandemia.

“Milhares de pessoas já passaram por aqui, trabalharam, criaram suas famílias e deixaram um pouco de suas histórias. As portas do Gaúcho sempre estiveram abertas para acolher quem quisesse entrar. É difícil mensurar o que este lugar representa”, destacou o proprietário.

Com pé-direito alto e um longo balcão, o Café Gaúcho mantém a tradição no cafezinho servido à moda antiga, no chope tirado de chopeira a gelo, nas empadinhas assadas em forminhas de metal e nos sanduíches de carne assada e pernil. Ao longo de sua história, a casa foi ponto de encontro de modernistas, intelectuais e músicos, entre eles o pintor Candido Portinari, além de cenário para debates políticos.

Para Marcos, o título chegou em boa hora. “O reconhecimento do estado é um alento para nós. Quando recebemos esse tipo de carinho, ficamos muito satisfeitos. Essa homenagem nos dá mais força para seguir em frente”, afirmou.

Tradições que viraram patrimônio

Na Zona Norte, a Feira de São Cristóvão foi declarada Patrimônio Histórico, Turístico, Cultural e Gastronômico do Estado pela Lei 10.170/23. O espaço surgiu como ponto de encontro de migrantes nordestinos que chegavam ao Rio e se consolidou como local de preservação da cultura e da gastronomia da região.

O reconhecimento também alcançou outros estabelecimentos que mantêm vivas diferentes tradições. Com o objetivo de fomentar e preservar manifestações culturais, a Lei 10.483/24 também declarou o Dida Bar Patrimônio Histórico, Cultural e Imaterial do Estado. O local promove, por meio da gastronomia, os valores e sabores africanos.

Já do outro lado da ponte, em Niterói, o Caneco Gelado do Mário também foi declarado Patrimônio Cultural de natureza Imaterial pela Lei 8.649/19. O local é conhecido pelos tradicionais bolinhos de bacalhau e pela cerveja gelada, que fazem parte da memória gastronômica da Cidade Sorriso.

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