5 de outubro de 2026
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Ibovespa bate recorde histórico em pontos e dólar tem maior queda diária desde 2018

O dólar comercial fechou em forte queda no Brasil, reagindo aos resultados do primeiro turno das eleições presidenciais. A moeda americana encerrou o dia na maior desvalorização diária desde 8 de junho de 2018, em recuo de 4,12%, aos R$ 5. A Bolsa encerrou aos 206.912 pontos, em avanço de 7,7%, num novo recorde nominal.

Na mínima do dia, a moeda americana chegou à mínima de R$ 4,95. Na sexta-feira, o dólar encerrou as negociações valendo R$ 5,21.

Entre as 31 moedas mais negociadas do mundo, o real foi a moeda que mais se valorizou frente o dólar. Na máxima do dia, o Ibovespa chegou a avançar 9,1%, aos 209.606 pontos.

Com o recuo firme nos juros futuros (que estimam onde estará a Taxa Selic e a inflação nos anos seguintes), as ações de companhias varejistas saltaram. Às 13h, os papéis da Magazine Luiza valorizavam 26% e a C&A saltava 24%.

Além disso, a queda brusca nas taxas de juros fizeram o Tesouro Nacional interromper as negociações no Tesouro Direto, plataforma de compra e venda de títulos públicos. O órgão retomou as negociações no início da tarde.

A previsão de um real mais valorizado fizeram os investidores ajustarem suas apostas para o comportamento futuro dos juros. Nesta manhã, as negociações em contratos futuros embutem a previsão de uma taxa básica Selic de 13% em dezembro. A Selic hoje está em 13,75% ao ano.

Análise dos gestores

Os investidores consideram Flávio Bolsonaro mais propenso a promover um ajuste fiscal, apesar do governo de Jair Bolsonaro ter encerrado com manobras como a exclusão de precatórios das metas das contas públicas e uma expansão de gastos na reta final das eleições.

Lula, por sua vez, é visto com desconfiança pelo mercado, e medidas como o reajuste do Bolsa Família ampliaram as dúvidas dos investidores sobre sua disposição para ajustar as contas públicas. A dívida pública atingiu 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) no atual governo, o maior patamar da História, subindo cerca de dez pontos nos últimos quatros anos.

Antes mesmo do mercado brasileiro abrir, os ativos do país já eram negociados com forte valorização no exterior. Na madrugada, um fundo listado em Bolsa (ETF) negociado no Japão que acompanha as ações brasileiras chegou a subir 14%, enquanto o ETF iShares MSCI Brazil, negociado nos Estados Unidos, avançava mais de 12% nas negociações de pré-abertura em Nova York.

Para a consultoria inglesa Capital Economics, os ativos brasileiros (real frente o dólar e o Ibovespa) devem disparar entre 3% e 5% nesta segunda-feira.

Para os analistas do BTG Pactual, há espaço para uma alta entre 20% e 45% se as ações brasileiras retornarem à média histórica de avaliação. Já para o braço de gestão de fortunas do banco suíço UBS, um ajuste fiscal crível e a consequente redução dos juros poderiam levar o Ibovespa a valorizar mais 30% nos próximos meses. O banco americano JP Morgan vê a Bolsa com espaço para saltar até 25% nos próximos 12 meses.

Fabrício Taschetto, sócio-fundador e gestor de portfólio da Ace Capital, estima uma queda de 3% do dólar e alta de 7% do Ibovespa em reação ao resultado. Segundo Felipe Arslan, CEO da Morada Capital, ações de varejistas, construtoras de imóveis, administradoras de shopping centers e empresas dos setores de consumo e vestuário devem liderar o movimento de alta do índice acionário.

— Como o segundo turno parece estar nas mãos de Flávio, os ativos brasileiros devem subir — disse Cathy Hepworth, chefe da equipe de dívida de mercados emergentes da PGIM, gestora com US$ 1,5 trilhão em ativos. — O real e os juros devem ter um desempenho muito bom — acrescentou.

O JPMorgan estima que, com um ajuste fiscal, o real poderia se valorizar 6%, os juros dos títulos públicos locais poderiam recuar para perto de 13% e as ações poderiam subir até 50%. Uma deterioração fiscal, por outro lado, poderia enfraquecer a moeda em magnitude semelhante, elevar os juros dos títulos públicos para perto de 15,5% e derrubar as ações em 21%.

Os mercados foram surpreendidos pelos resultados de domingo em dois aspectos: a vantagem de cerca de dois pontos percentuais de Flávio e o desempenho expressivo de candidatos de direita nas disputas pelos governos estaduais, pela Câmara e pelo Senado, segundo Guilherme Abbud, da Persevera Asset Management.

— Do ponto de vista da governabilidade e da agenda econômica, as condições nunca foram tão favoráveis — afirmou o CEO da gestora de recursos, que administra R$ 4,8 bilhões (US$ 921 milhões). — A reação deve ser muito forte, e há potencial para que a alta se prolongue por vários dias.

Nas últimas semanas, com as pesquisas apontando para Flávio e Lula tecnicamente empatados, os investidores optaram em grande medida por derivativos e outras operações capazes de capturar os ganhos de um resultado favorável ao mercado e, ao mesmo tempo, limitar as perdas caso a eleição decepcionasse.

— A segunda-feira será um dia muito melhor do que até os investidores mais otimistas esperavam — disse Paulo Abreu, sócio e gestor de portfólio da Mantaro Capital. — O mercado estava pouco posicionado, e esse resultado levará os investidores a aumentar a exposição.

Na preparação para a eleição de 2022, os investidores locais mostravam muito mais cautela em relação a Lula do que os estrangeiros, que em geral tinham uma visão menos pessimista sobre o petista. A divergência persistiu — investidores locais tendem a se preocupar mais com a disposição limitada do governo para promover o tipo de ajuste fiscal que consideram fundamental.

Ainda assim, os mercados brasileiros tiveram um desempenho positivo desde que Lula voltou ao poder, em janeiro de 2023. O dólar, que atingiu a máxima histórica em 2024 durante uma onda generalizada de compra da divisa provocada pelo aumento das preocupações com a trajetória fiscal do país, acumula queda de pouco mais de 1% durante o mandato.

Juros elevados, dólar global mais fraco e um movimento de diversificação para fora dos mercados dos EUA ajudaram a impulsionar os ativos brasileiros, assim como os mercados emergentes de forma mais ampla.

Alejandro Cuadrado, chefe de estratégia global de câmbio e América Latina do Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, disse que, embora seja esperada alguma volatilidade antes do segundo turno, a magnitude da surpresa já deve levar a uma “reavaliação significativa” das perspectivas para o Brasil.

— O resultado do primeiro turno, algumas disputas pelos governos estaduais, incluindo São Paulo, e os resultados preliminares do Congresso melhoraram substancialmente a percepção do mercado sobre o Brasil e podem marcar o início de uma reprecificação mais ampla e sustentada dos ativos brasileiros — disse.

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