23 de março de 2026
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De volta ao pódio: saneamento transforma a Lagoa Rodrigo de Freitas e impulsiona boom de esportes aquáticos no Rio

Com 5,1 milhões de litros de esgoto interceptados por dia, cartão-postal carioca supera histórico de poluição, atrai novas modalidades e celebra renascimento ambiental no Dia Mundial da Água

O coração da Zona Sul do Rio de Janeiro voltou a bater no ritmo do esporte. Quem caminha pelas margens da Lagoa Rodrigo de Freitas nas primeiras horas da manhã já percebe a mudança: o espelho d’água, antes marcado pelo tom escuro e pelo mau cheiro, agora exibe transparência e reflete um número cada vez maior de remadores e canoístas. Na semana do Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, o cartão-postal carioca consolida uma virada ambiental histórica, provando que o investimento em saneamento básico é capaz de devolver a vida e a vocação esportiva à cidade.

Para entender o peso dessa transformação, é preciso voltar no tempo. O corretor de imóveis Sandro Lopes de Figueiredo, de 47 anos, rema na Lagoa desde 1987. Multicampeão pelo Flamengo, com passagens pela Seleção Brasileira, ele carrega na memória, e no corpo, as cicatrizes da poluição. Entre 1999 e 2000, Sandro contraiu hepatite após seu barco virar e ele ingerir a água do local, incidente que o obrigou a abandonar o esporte por um ano. “Era uma outra Lagoa. Hoje, a diferença é brutal. A água está limpa e aquela mortandade de peixes que a gente via com tanta frequência ficou no passado”, relata o atleta máster.

A percepção de Sandro é respaldada pela matemática da infraestrutura em saneamento. Desde 2021, a concessionária Águas do Rio, empresa da Aegea, assumiu a operação e implementou uma transformação no sistema de esgotamento sanitário do entorno da Lagoa. Treze estações elevatórias de esgoto foram totalmente revitalizadas, garantindo eficiência operacional e evitando que 5,1 milhões de litros de esgoto in natura desaguassem diariamente no ecossistema; o volume agora é bombeado corretamente para o Emissário Submarino de Ipanema.

“A recuperação da Lagoa Rodrigo de Freitas é um dos maiores símbolos do nosso compromisso com o Rio de Janeiro. Além da modernização das elevatórias, atuamos de forma implacável na fiscalização. Cada ligação clandestina que cortamos é um respiro para a Lagoa. É um trabalho cuidadoso de engenharia que devolve ao carioca o direito de usufruir do seu próprio quintal com segurança e saúde”, destaca Renan Mendonça, diretor executivo da Águas do Rio.

As ações de fiscalização realizadas pela concessionária já notificaram 36 clientes desde 2022. Na prática, esse pente-fino impede que 11,41 litros de esgoto caiam sem tratamento na água por segundo, o equivalente a desviar 12 piscinas olímpicas de resíduos por mês e dar ao material a destinação correta.

Com o fim do despejo irregular, a biodiversidade pediu passagem. Antes mesmo do início de sua atuação, em outubro de 2021, a concessionária firmou parceria com o projeto “Manguezal da Lagoa”, liderado pelo biólogo Mario Moscatelli, intensificando o replantio, o controle de pragas e a limpeza de lixo ao longo de 7 mil metros quadrados de vegetação nativa. O resultado dessa união provou sua resiliência: a última mortandade de peixes foi registrada em 2019. Mesmo sob o calor recorde dos últimos anos, o ecossistema se manteve estável e cheio de vida.

“A natureza é generosa; basta pararmos de agredi-la que ela responde quase imediatamente. O trabalho de saneamento aliado à recuperação dos manguezais devolveu a oxigenação e o equilíbrio à Lagoa, criando um berçário seguro para diversas espécies que antes não sobreviviam ali”, pontua Moscatelli.

A natureza responde: peixes ‘voadores’ e mergulhos pós-treino

A fauna está tão ativa que tem gerado situações inusitadas. Em fevereiro de 2025, a praticante de canoa havaiana Raquel Soares viralizou nas redes sociais após tomar uma “peixada” no rosto enquanto remava. Para quem conhece o antes e depois da lagoa, o pulo da tainha, que rendeu boas risadas na internet, é a prova cabal da abundância de cardumes no local.

“Quem diria que um dia a gente ia ter ‘trânsito’ de peixes na Lagoa? O susto com a tainha foi engraçado, mas no fundo é muito emocionante. Mostra que a água está limpa de verdade e que a natureza voltou com tudo. Hoje, remar aqui é um espetáculo diário. E eu sigo sendo atingida por peixes com certa frequência, o que era impensável no passado”, destaca Raquel.

Tanta vida e transparência impulsionaram um verdadeiro boom econômico e esportivo nas águas salobras da Lagoa. Claudiomar “Formiga” Lung, ex-atleta pan-americano e atual instrutor de canoa havaiana, lembra da época em que a superfície ficava forrada por peixes mortos por falta de oxigênio. Hoje, à frente de duas escolas náuticas no Parque dos Patins, ele comemora a alta procura por matrículas. “A água está tão clara que dá para ver o fundo em vários trechos. O carioca perdeu o medo. Hoje, no fim do treino, é comum ver os alunos mergulhando para se refrescar, algo impensável anos atrás”, celebra.

Neste Dia Mundial da Água, a Lagoa Rodrigo de Freitas não é apenas um cenário para fotos, mas um ecossistema vivo e pulsante. Um lembrete diário de que, com investimento e respeito ao meio ambiente, a cidade maravilhosa sempre encontra o seu melhor reflexo.