31 de março de 2026
NotíciasNotícias 24hs

Ultraprocessados viram símbolo de infância feliz em comunidades urbanas do Brasil, enquanto rotulagem frontal é pouco compreendida, aponta estudo do UNICEF

Pesquisa, que também foi feita na Pavuna, no Rio de Janeiro, mostra que famílias associam ultraprocessados à conquista geracional. Ao mesmo tempo, não consideram o alerta dos rótulos frontais durante a compra

 

Novo estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revela que, em comunidades urbanas brasileiras, alimentos ultraprocessados são frequentemente associados à ideia de “infância feliz” e conquista social, mesmo diante da preocupação declarada das famílias com a saúde das crianças. A pesquisa mostra ainda que a rotulagem nutricional frontal — implementada no Brasil desde 2022 — é pouco compreendida e raramente considerada nas decisões de compra, evidenciando o longo caminho ainda a percorrer para que a medida influencie escolhas saudáveis.

 

O estudo “Ultraprocessados e Infância: Barreiras e Caminhos para Hábitos Saudáveis em Comunidades Urbanas”, realizado com apoio da Novo Nordisk, investigou os fatores culturais, sociais e estruturais que influenciam a alimentação e a prática de atividade física na primeira infância em três comunidades urbanas de diferentes regiões do país: Pavuna (Rio de Janeiro/RJ), Ibura (Recife/PE) e Guamá (Belém/PA).

 

Os dados mostram que o consumo de ultraprocessados está amplamente presente no cotidiano das crianças, com os lanches se destacando como a refeição de maior exposição: 50% das crianças consumiram esses produtos no dia anterior à pesquisa, em comparação a 27% no café da manhã e 13% no almoço e no jantar. O estudo indica que 55% dos entrevistados nunca olham o rótulo, informando alta presença de açúcar, gordura ou calorias, sendo 64% entre os participantes da Pavuna (Rio de Janeiro), 58% no Ibura (Recife) e 44% no Guamá (Belém). A grande maioria (62%) também alega nunca ter deixado de comprar um produto com essa identificação (70% na Pavuna, 65% no Ibura e 50% no Guamá).

 

A maioria dos entrevistados (84%) considerou-se muito preocupada em manter uma alimentação saudável para sua família. Mas a pesquisa indica que o padrão de consumo é influenciado também por fatores como a percepção de preço dos alimentos e a sobrecarga materna, se inserindo em um cenário preocupante de saúde pública. A obesidade já é a forma mais prevalente de má nutrição entre crianças e adolescentes no Brasil e tem crescido de forma acelerada. Em 2023, 13,5% das crianças de 0 a 5 anos apresentavam excesso de peso, percentual que chega a 31,2% entre adolescentes, segundo o Ministério da Saúde.

 

“O estudo mostra, de forma clara, que escolhas alimentares não são apenas individuais, mas moldadas pelo ambiente, com influência de fatores como contexto familiar, acesso, preço, qualidade da informação e dos espaços disponíveis. Por isso, traz recomendações efetivas para promover ambientes saudáveis para crianças, o que exige políticas consistentes, mobilização social e compromisso”, destaca Luciana Phebo, chefe da área de Saúde e Nutrição no UNICEF Brasil, reforçando ser fundamental a construção de hábitos saudáveis ainda nos primeiros anos de vida.

 

Muitas vezes, segundo os achados do estudo, a escolha dos alimentos é feita ainda com a compreensão de que esses produtos são bons para saúde, o que a pesquisa denomina como “falsos saudáveis”. Entre os entrevistados, 14% percebem itens com a lupa de “alto em açúcar ou gordura” como mais saudáveis ou igualmente saudáveis às opções sem o rótulo. Na Pavuna, esse percentual é de 10%, enquanto 29% não soube responder. Entre os exemplos citados pela pesquisa, 52% dos entrevistados consideraram saudável o iogurte com sabor e 49% os nuggets, se preparados na fritadeira elétrica (“air fryer”).

 

No Brasil, o UNICEF tem defendido políticas públicas e legislações promotoras da alimentação saudável, como leis municipais sobre escolas saudáveis, nas quais são restringidas a venda e publicidade de ultraprocessados e o tema da alimentação saudável é incluído no currículo escolar. O UNICEF também tem incidido pelo aumento da taxação seletiva de bebidas açucaradas e adoçadas, além de fornecer apoio técnico a estados e municípios – principalmente nas regiões Norte e Nordeste e nos centros urbanos onde atua para a conscientização da importância do desenvolvimento infantil, do aleitamento materno, da atividade física, e da alimentação saudável de crianças e adolescentes.

 

“A prevenção das doenças crônicas graves, como a obesidade, deve começar ainda na infância. Este estudo evidencia que soluções para promover ambientes mais saudáveis precisam considerar os múltiplos fatores que influenciam o bem-estar de crianças e adolescentes. E para que essas iniciativas sejam efetivas e sustentáveis, é fundamental a colaboração entre diferentes atores da sociedade,” afirma Patricia Byington, Head de Sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil.

 

Desde 2023, a Novo Nordisk e o UNICEF mantêm uma parceria global para ampliar e acelerar esforços para a criação de ambientes mais saudáveis para crianças por meio da implementação de políticas e inovações que as permitam se alimentar bem, brincar e ser fisicamente ativas. O sobrepeso e a obesidade infantil são uma crise de saúde pública que afeta milhões de meninos e meninas em todo o mundo. A parceria impactará positivamente pelo menos 10 milhões de crianças em quatro países: Brasil, Colômbia, México e Indonésia.

Desafios estruturais e oportunidades – Ao analisar os fatores que influenciam a adoção de hábitos mais saudáveis, a pesquisa identificou barreiras e facilitadores. Entre os desafios está a priorização dos ultraprocessados nas compras cotidianas por conveniência e percepção de preço. O estudo também evidencia desafios estruturais, como a limitação de redes de apoio e a sobrecarga das mães, principais responsáveis pelo cuidado das crianças, e a falta de espaços seguros e adequados para o livre brincar e a prática de atividade física em comunidades urbanas.

 

Como pontos fortes favoráveis à infância, o estudo destaca a cultura alimentar brasileira baseada em refeições caseiras, como o arroz e feijão, que permanece como um pilar da qualidade da dieta, além de políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que ampliam o acesso a refeições mais saudáveis.

 

Atividade física – O estudo aponta amplo reconhecimento sobre a importância da atividade física para as crianças. Dos entrevistados, 89% acreditam que a prática reduz riscos de problemas de saúde e 57% identificam espaços disponíveis nas proximidades para a sua realização. No entanto, 87% dos entrevistados (92% na Pavuna) apontam a falta de segurança no bairro como barreira para usar espaços públicos para atividades e brincadeiras. Questões como falta de manutenção, iluminação precária e trânsito intenso também aparecem como fatores limitantes. Ainda assim, os entrevistados afirmam que as crianças utilizam as áreas dos bairros para brincar, geralmente sem rotina ou horário fixo.

Iniciativas comunitárias e o apoio da vizinhança são citados como fatores fundamentais para viabilizar a prática de atividade física na primeira infância, seja por meio de projetos sociais ou redes locais que criam oportunidades e garantem segurança para o brincar. O estudo também aponta questões de gênero como um obstáculo desde a infância, com meninas mais associadas a brincadeiras sedentárias, como boneca ou conversa, além da sobrecarga doméstica que também impacta a disponibilidade à medida que crescem.

 

Recomendações

 

O estudo apresenta recomendações nos níveis político e regulatório, institucional e comunitário, com o objetivo de apoiar estratégias mais eficazes desde o nível nacional ao território local, ampliando o acesso a oportunidades mais saudáveis para as famílias.

 

1. Fortalecer a regulação de alimentos ultraprocessados
Para proteger crianças de ambientes que favorecem escolhas não saudáveis.
O estudo reforça a necessidade de avançar na regulação da publicidade infantil, na tributação de ultraprocessados e na promoção de ambientes escolares saudáveis, reduzindo a exposição e o consumo desses produtos.

 

2. Expandir creches e escolas em tempo integral
Mais tempo na escola amplia oportunidades de alimentação adequada e cuidado.
A ampliação da educação infantil e da jornada escolar fortalece redes de apoio às famílias, reduz sobrecargas, especialmente sobre as mulheres, e contribui para a proteção e promoção de hábitos saudáveis.

 

3. Qualificar e garantir segurança de espaços públicos para atividade física
Ambientes seguros são fundamentais para o brincar e o movimento.
A melhoria da infraestrutura urbana e da segurança em territórios vulneráveis são essenciais para a ampliação da prática de atividade física entre crianças e suas famílias.

 

4. Fortalecer a orientação alimentar nos serviços de saúde
Informação qualificada desde o início da vida faz diferença.
O estudo aponta a importância de ampliar o aconselhamento alimentar, desde a gestação, de forma a promover informação de qualidade, evitar a introdução precoce de ultraprocessados, e influenciar a adoção de hábitos saudáveis desde o início da vida.

 

5. Apoiar iniciativas e lideranças comunitárias
Comunidades são parte da solução.
Fortalecer ações locais — como hortas, feiras, atividades esportivas e redes de apoio — amplia o acesso a alimentos saudáveis e incentiva práticas de atividade física nos territórios.

 

6. Ampliar a compreensão e o uso da rotulagem frontal
A informação precisa ser acessível para orientar escolhas.
O estudo indica a necessidade de campanhas e ações educativas que expliquem, de forma clara, o significado da rotulagem e seu uso no dia a dia e recomenda o monitoramento da efetividade da rotulagem frontal, considerando seus critérios nutricionais e formato dos alertas.

 

7. Investir em comunicação para mudança de comportamento
Comunicar melhor para apoiar escolhas mais saudáveis.
Estratégias de comunicação devem considerar a realidade das famílias, usar linguagem simples e abordar desafios práticos, como identificar “falsos saudáveis” e melhorar formas de preparo.

 

Metodologia – A pesquisa combinou métodos qualitativos e quantitativos nas três comunidades pesquisadas, incluindo questionário amostral, minigrupos focais etnográficos dentro das residências, observação etnográfica, além de entrevistas em profundidade com lideranças comunitárias. Foi utilizado como quadro teórico o Modelo de Determinantes Comportamentais (Behavioural Drivers Model, na sigla em inglês), desenvolvido pelo UNICEF para atuar em Mudança Social e de Comportamento (SBC, também na sigla em inglês). Esse modelo considera que o comportamento é multideterminado por aspectos psicológicos, sociológicos e ambientais/estruturais (incluindo as políticas públicas). O principal ganho dessa abordagem é ir além de explicações que atribuem a responsabilidade pela adoção de comportamentos a uma decisão apenas do indivíduo, ignorando o contexto em que elas ocorrem.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *