Lula defende integração regional e afirma: ‘A única guerra que precisamos travar é contra a fome e a desigualdade’
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira, 28 de janeiro, na abertura do Fórum Econômico Internacional – América Latina e Caribe 2026, que “a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”. O encontro, organizado pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe em parceria com o governo do Panamá, reúne lideranças políticas e econômicas para debater os desafios estratégicos da região.
Em seu discurso, Lula apontou que a realização do Fórum se prova muito oportuna diante de um contexto de crescentes desafios de ordem geopolítica, econômica e tecnológica no mundo – e, em especial, na América Latina e o Caribe. “A escolha da cidade do Panamá para receber este evento possui um simbolismo especial. Este é um verdadeiro ponto de união entre o Atlântico e o Pacífico”, afirmou.
O presidente destacou que, em um cenário global marcado por turbulências, o Brasil escolheu o caminho da democracia, da paz, do multilateralismo e da integração regional. Segundo Lula, os resultados obtidos pelo país nesses eixos reforçam a solidez dessa escolha. “Nossa estabilidade política, social, econômica, fiscal e jurídica tem sido reconhecida em todo o mundo. Nos últimos anos, o Brasil atraiu volumes recordes de capital estrangeiro. Seguimos promovendo um comércio internacional justo, equilibrado e baseado em regras multilateralmente acordadas”, exemplificou.
As práticas protecionistas, declarou o presidente Lula, serão respondidas pelo Brasil com diálogo, firmeza e apoio às empresas nacionais. “Em 2025, superamos marcas históricas de exportações e importações. Nossa corrente de comércio foi de 629 bilhões de dólares. Isso é resultado de uma estratégia consistente de diversificação de parcerias com economias tradicionais e emergentes. Mostramos que um novo modelo de desenvolvimento, com inclusão e sustentabilidade, é possível”, disse.
INDICADORES BRASILEIROS – Lula também elencou conquistas históricas alcançadas pelo Brasil desde o início da atual gestão. “Desde 2023, o Brasil cresceu acima da média mundial, controlou a inflação e alcançou o menor desemprego da nossa história. Valorizamos o salário mínimo, aumentamos a renda dos trabalhadores e levamos justiça tributária a milhões de brasileiros. Saímos mais uma vez do Mapa da Fome da FAO. Em dois anos, a pobreza deu lugar à inclusão social e 17,4 milhões de pessoas ascenderam de classe no Brasil”, enumerou.
O presidente destacou ainda o protagonismo brasileiro na transição ecológica. “Estamos na vanguarda da economia verde. 90% da nossa matriz elétrica é renovável. Somos líderes em biocombustíveis. Nosso Plano de Transformação Ecológica identificou 90 bilhões de dólares em projetos que vão impulsionar a economia verde. Em breve, lançaremos um Mapa do Caminho para reduzir gradativamente a dependência de combustíveis fósseis”, elencou o líder brasileiro.
LUTA CONTRA FEMINICÍDIO — Durante o discurso, Lula também rechaçou a concentração de riqueza e a apontou como grande fator responsável pela geração de pobreza, fome e violência. “A América Latina também ostenta o triste recorde de ser a região com maior número de feminicídios. Segundo a CEPAL [Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe], 11 mulheres latino-americanas são assassinadas diariamente”, alertou.
O presidente enfatizou que o enfrentamento à violência de gênero é uma responsabilidade coletiva. “Essa não é uma batalha só das mulheres. Nós, homens, temos que nos somar a essa luta. Quando o povo tem dignidade e segurança a sociedade próspera. Garantir o acesso a serviços básicos, e implementar políticas de combate à desinformação e à criminalidade são essenciais para a estabilidade e para a democracia”, afirmou.
Outra estratégia citada por Lula para promover uma integração regional duradoura foi o engajamento de múltiplos atores. “É essencial envolver atores subnacionais, a sociedade civil e a iniciativa privada. Sistemas de pagamentos digitais e inovadores como o PIX que fizemos no Brasil podem impulsionar o comércio regional”, detalhou. “Programas de cooperação entre universidades e centros de pesquisa criam laços baseados no conhecimento e na inovação”, emendou Lula.
INTEGRAÇÃO AMPLIADA — Houve no discurso do presidente um lembrete de que, desde 2023, foram retomados os esforços do Brasil na integração regional, buscando ampliar e diversificar parceiros, além de celebrar novos acordos entre blocos econômicos. “Concluímos os acordos entre o Mercosul e Cingapura e entre o Mercosul e a Associação Europeia de Livre Comércio, a EFTA. Após 26 anos de negociações, assinamos o acordo Mercosul-União Europeia, que abrangerá um mercado de 720 milhões de pessoas e um PIB de 22 trilhões de dólares. Vamos ampliar os acordos comerciais que temos com a Índia e o México”, antecipou.
Lula citou também a retomada de tratativas com o Canadá, o avanço nas negociações com os Emirados Árabes Unidos e o estabelecimento de marcos para parcerias estratégicas com o Japão, além de preferências tarifárias com o Vietnã. “Esperamos progredir rapidamente nas negociações com Panamá, República Dominicana e El Salvador. Vamos ainda atualizar os acordos do Mercosul com Colômbia e Equador”, disse.
O presidente destacou ainda o avanço do programa Rotas de Integração Sul-Americana. “Continuamos empenhados em trabalhar com todos os países vizinhos. São dezenas de obras de melhoria de rodovias, hidrovias, ferrovias, portos e aeroportos, além de infovias e linhas de transmissão, com potencial para dobrar o comércio intrarregional em poucos anos. A integração em infraestrutura não tem ideologia.”
MOBILIZAR BANCOS — Nesse contexto, o presidente Lula reforçou a defesa da neutralidade do Canal do Panamá, administrado de forma eficiente, segura e não-discriminatória há quase três décadas. Ele ressaltou o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), mas enfatizou que a integração regional exige mais recursos. “É imperativo mobilizar os bancos multilaterais e regionais — como a CAF, o FonPlata, o BID e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS — para transformar essas iniciativas em realidade”, salientou.
INSERÇÃO SOBERANA – Na avaliação do presidente, lideranças comprometidas com mecanismos institucionais equilibrados são fundamentais para reconstruir a confiança na integração regional. “É uma condição essencial para manter a América Latina e Caribe como uma zona de paz e cooperação, regida pelo direito internacional. Disso dependerá nossa inserção soberana no mundo”, declarou.
Para Lula, falta às lideranças regionais convicção sobre os benefícios de adoção de um projeto mais autônomo de inserção internacional. “Diante das dificuldades de pactuar um marco teórico próprio, nossos países deveriam concentrar-se na mobilização de trunfos inexplorados pela região para promover sua inserção competitiva na ordem global”, indicou.
INTEGRAÇÃO POSSÍVEL – Ainda em seu pronunciamento, o presidente Lula defendeu que cabe à América Latina e ao Caribe assumir que a integração possível será aquela calcada na pluralidade de opções. “Guiados pelo pragmatismo, podemos superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas e positivas dentro e fora da região. Essa é a única doutrina que nos convém. Seguir divididos nos torna todos mais frágeis”, assinalou.
EXPANSÃO COMERCIAL – A relação econômica entre Brasil e Panamá registrou uma expansão histórica no último ano, com o intercâmbio comercial saltando 78% e atingindo a marca de US$ 1,6 bilhão. O desempenho foi alavancado sobretudo pelas exportações brasileiras de petróleo e derivados.
BALANÇA — O crescimento acentuado gerou um superávit brasileiro que a diplomacia agora busca equalizar, promovendo o equilíbrio da balança comercial por meio do incentivo às importações de produtos panamenhos. O tema é uma das prioridades do Itamaraty e para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
DEFESA E AVIAÇÃO – No setor de defesa, a recente venda de quatro aeronaves Super Tucano, da Embraer, ao governo panamenho é vista como um marco da Cooperação Sul-Sul. O negócio reforça a confiabilidade das cadeias de suprimentos brasileiras na América Latina e consolida a presença tecnológica do país na região.
INVESTIMENTOS – Além das trocas comerciais, a parceria se aprofunda no campo dos investimentos. Atualmente, o Panamá detém um estoque de US$ 9,5 bilhões em capital brasileiro, ocupando o posto de sétimo maior destino externo de investimentos do Brasil.
LOGÍSTICA — O Panamá é considerado pelo Governo do Brasil um importante hub logístico. O Brasil é o 15º maior usuário do Canal do Panamá, por onde passam quase sete milhões de toneladas, por ano, de exportações brasileiras. O Aeroporto de Tocumen também representa um importante centro logístico do país centro-americano, com 20 milhões de passageiros por ano.
MERCOSUL — Outro elemento importante para a relação entre o Brasil com o país panamenho é o fato de o Panamá ser o primeiro país centro-americano a se associar ao Mercosul. O ingresso reforçou o bloco econômico sul-americano e o país está em vias de iniciar negociações comerciais com o Brasil e outros países da região.

