23 de janeiro de 2026
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Leilão da Feira de São Cristóvão preocupa comerciantes: ‘Como vão tirar as famílias de lá?’

O espaço poderá ser vendido com lance mínimo de quase R$ 25 milhões devido a dívidas fiscais e trabalhistas da Riotur, responsável pelo espaço

O terreno do Centro de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga, mais conhecido como Feira de São Cristóvão, irá a leilão no dia 25 de fevereiro, com lance mínimo de quase R$ 25 milhões. A medida ocorre devido a um processo movido pela União contra a Riotur, responsável pelo espaço, por dívidas fiscais e trabalhistas. Entre os feirantes, o anúncio da possível venda foi uma surpresa, gerando medo e incertezas quanto à continuidade das atividades no espaço.

Ao DIA, Flávio Fárney da Silva Xavier, 64, presidente da Associação dos Feirantes e dono da “Barraca di Cumida Conexão Mandacaru”, conta que diversas famílias dependem do pavilhão.

“São mais de 600 feirantes lá dentro, como vão tirar aquelas famílias todas? Ou vão explorá-los comercialmente? Quem for comprar tem que analisar 30/40 vezes o que vai acontecer no futuro após o leilão”, diz.

Flávio tem esperança que a prefeitura contorne a situação e impeça a venda. “Os feirantes perguntam, isso acaba gerando medo, eles ficam pensando no que pode acontecer. Eu acredito muito na capacidade da prefeitura de resolver esse problema, a comissão de feirantes entrou com um embargo de terceiros, porque nós estamos lá desde 2003, não geramos essa dívida. No entanto, o bem está sendo leiloado por dívidas da prefeitura, então eu acho que o prefeito deve resolver isso”, explica.

O cantor Marcus Lucenna, curador cultural da Feira de São Cristóvão, fez um apelo para que a Riotur pague a dívida.

“A Feira de São Cristóvão está há mais de 20 anos dentro do pavilhão e ambos são patrimônios tombados. Imaginem o imbróglio jurídico que acontecerá se o leilão de fato acontecer. Quem adquirir o pavilhão vai pegar um abacaxi para descascar, em função da insegurança jurídica de uma operação dessa natureza”, afirma.

O cantor reforça que muitos trabalhadores estão apreensivos. “A Prefeitura jura de pé junto que está trabalhando para impedir o leilão, mas com o histórico de tentativa de privatizar a feira, muitos feirantes desconfiam, e com razão, que a prefeitura faz corpo mole nessa disputa judicial. O Prefeito precisa agir em apoio à feira”, acrescenta.

Marcus frisa ainda que há 23 anos o Pavilhão de São Cristóvão se tornou a casa da cultura nordestina no Rio. “Os Feirantes são de fato, só falta ser de direito, os verdadeiros donos do Pavilhão de São Cristóvão e merecem a garantia das suas atividades dentro dele, com toda certeza, até por usucapião”.

A comissão que administra o espaço confirma que entrou com embargo na Justiça para impedir a venda. Apesar de surpresa com o anúncio, o grupo também espera que a gestão municipal resolva a situação.

Procurada, a Riotur informa que o pronunciamento está a cargo da prefeitura. Em nota, a Procuradoria Geral do Município do Rio esclareceu que seguirá trabalhando para impedir o leilão do pavilhão pela União. “Trata-se de um imóvel público, com interesse social, e o Município do Rio não medirá esforços para a manutenção do equipamento”.

Patrimônio Cultural

A Feira de São Cristóvão, que completou 80 anos em 2025, é um importante ponto turístico e cultural do Rio de Janeiro. Em 2010, foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Em novembro de 2023, o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural, Turístico e Gastronômico do Estado do Rio de Janeiro.

A origem do espaço remonta a 1945, quando retirantes nordestinos chegavam em caminhões ao Campo de São Cristóvão, muitos deles para trabalhar na construção civil. Esses encontros deram início a celebrações com músicas e comidas típicas que logo se tornaram tradição.
Durante 58 anos, a feira permaneceu nos arredores do Campo. Em 2003, após a reforma do Pavilhão de São Cristóvão, o evento foi transferido para dentro do espaço. Nessa época, passou a se chamar oficialmente Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas.
O nome é uma homenagem ao cantor e compositor Luiz Gonzaga, um dos maiores nomes da história da música brasileira e que ficou conhecido como “Rei do Baião” por ter sintetizado ritmos nordestinos para criar o gênero.
Além da programação musical e gastronômica, o espaço reúne símbolos da cultura popular nordestina, como estátuas de Padre Cícero, Lampião e Maria Bonita, além do próprio Luiz Gonzaga.
No mês de junho, por exemplo, as atividades são dedicadas às festas de São João, que divide com o Carnaval o posto de duas das maiores celebrações culturais brasileiras.
O centro de tradições conta atualmente com cerca de 700 barracas fixas que reúnem gastronomia, artesanato, literatura de cordel e outros produtos típicos. A comida é um dos grandes destaques, com a oferta de pratos típicos da cozinha nordestina, como baião de dois, carne de sol com aipim, sarapatel, moqueca, e vatapá.
Ela recebe em média 400 mil visitantes por mês, cerca de 12 mil nas sextas, 30 mil aos sábados e 45 mil aos domingos.

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