Leilão da Feira de São Cristóvão preocupa comerciantes: ‘Como vão tirar as famílias de lá?’
O espaço poderá ser vendido com lance mínimo de quase R$ 25 milhões devido a dívidas fiscais e trabalhistas da Riotur, responsável pelo espaço
O terreno do Centro de Tradições Nordestinas Luiz Gonzaga, mais conhecido como Feira de São Cristóvão, irá a leilão no dia 25 de fevereiro, com lance mínimo de quase R$ 25 milhões. A medida ocorre devido a um processo movido pela União contra a Riotur, responsável pelo espaço, por dívidas fiscais e trabalhistas. Entre os feirantes, o anúncio da possível venda foi uma surpresa, gerando medo e incertezas quanto à continuidade das atividades no espaço.
Ao DIA, Flávio Fárney da Silva Xavier, 64, presidente da Associação dos Feirantes e dono da “Barraca di Cumida Conexão Mandacaru”, conta que diversas famílias dependem do pavilhão.
“São mais de 600 feirantes lá dentro, como vão tirar aquelas famílias todas? Ou vão explorá-los comercialmente? Quem for comprar tem que analisar 30/40 vezes o que vai acontecer no futuro após o leilão”, diz.
Flávio tem esperança que a prefeitura contorne a situação e impeça a venda. “Os feirantes perguntam, isso acaba gerando medo, eles ficam pensando no que pode acontecer. Eu acredito muito na capacidade da prefeitura de resolver esse problema, a comissão de feirantes entrou com um embargo de terceiros, porque nós estamos lá desde 2003, não geramos essa dívida. No entanto, o bem está sendo leiloado por dívidas da prefeitura, então eu acho que o prefeito deve resolver isso”, explica.
O cantor Marcus Lucenna, curador cultural da Feira de São Cristóvão, fez um apelo para que a Riotur pague a dívida.
“A Feira de São Cristóvão está há mais de 20 anos dentro do pavilhão e ambos são patrimônios tombados. Imaginem o imbróglio jurídico que acontecerá se o leilão de fato acontecer. Quem adquirir o pavilhão vai pegar um abacaxi para descascar, em função da insegurança jurídica de uma operação dessa natureza”, afirma.
Marcus frisa ainda que há 23 anos o Pavilhão de São Cristóvão se tornou a casa da cultura nordestina no Rio. “Os Feirantes são de fato, só falta ser de direito, os verdadeiros donos do Pavilhão de São Cristóvão e merecem a garantia das suas atividades dentro dele, com toda certeza, até por usucapião”.
A comissão que administra o espaço confirma que entrou com embargo na Justiça para impedir a venda. Apesar de surpresa com o anúncio, o grupo também espera que a gestão municipal resolva a situação.
Procurada, a Riotur informa que o pronunciamento está a cargo da prefeitura. Em nota, a Procuradoria Geral do Município do Rio esclareceu que seguirá trabalhando para impedir o leilão do pavilhão pela União. “Trata-se de um imóvel público, com interesse social, e o Município do Rio não medirá esforços para a manutenção do equipamento”.
Patrimônio Cultural
A Feira de São Cristóvão, que completou 80 anos em 2025, é um importante ponto turístico e cultural do Rio de Janeiro. Em 2010, foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Em novembro de 2023, o Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas foi declarado Patrimônio Histórico, Cultural, Turístico e Gastronômico do Estado do Rio de Janeiro.

