17 de janeiro de 2026
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Grace Gianoukas estrela premiado espetáculo em homenagem à Dercy Gonçalves

‘Nasci Pra Ser Dercy’ fica em cartaz no Teatro Rival Petrobas, na Cinelândia, até domingo (17)

Aclamado pelo público e dono de uma série de prêmios, o espetáculo “Nasci Pra Ser Dercy” está em cartaz no Teatro Rival Petrobras, na Cinelândia, até domingo (17). Estrelado por Grace Gianoukas, o monólogo homenageia Dercy Gonçalves (1907-2008), uma das mulheres mais importantes e emblemáticas da cultura brasileira. Ela, que faleceu aos 101 anos, também era conhecida pelo bom-humor e por ser ‘desbocada’.

“Começar o ano me apresentando no Teatro Rival, que era um dos palcos onde a Dercy mais gostava de se apresentar, é uma conjunção de bênçãos, porque eu amo fazer espetáculo, amo contar essa história que poucas pessoas conhecem sobre a Dercy Gonçalves, da mulher que ela era… Começar o ano fazendo teatro, como Dercy Gonçalves, é prenúncio de que será um ano maravilhoso”, vibra.
Com voz off de Miguel Falabella, o monólogo conta a história de Vera, uma atriz que entra no estúdio para interpretar o papel de Dercy Gonçalves em um filme. No entanto, no decorrer de suas falas, ela se revolta contra o roteiro, cheio de estereótipos e, aos poucos, começa a se transformar na artista, mostrando quem realmente foi essa mulher à frente de seu tempo.
Desde a estreia, em 2023, o espetáculo é sucesso de crítica e público por onde passa. “Nasci Pra Ser Dercy” rendeu à Grace Gianoukas os prêmios SHELL e APCA de melhor atriz (2024) e I Love PRIO do Humor, de melhor performance. Já o diretor Kiko Rieser conquistou o Prêmio Bibi Ferreira (2023), na categoria Melhor Dramaturgia Original. A peça ainda foi indicada aos prêmios CENIM (Melhor Monólogo) e Miguel Arcanjo (Melhor Direção, Peça e Atriz).

Embora fique feliz com o reconhecimento da produção, Gianoukas reforça que o carinho do público é seu maior prêmio. “Eu me orgulho muito. Tenho 43 anos de carreira e esse espetáculo me proporcionou o olhar dos críticos. É muito legal ter isso no currículo, mas tenho há muitos anos um reconhecimento grande do público, e isso é bacana. Fico muito feliz que o espetáculo tenha ganhado tantos prêmios. Isso é muito bom, mas acho que o meu maior prêmio é o público, que vem e adora”, reflete.

Grace lembra, ainda, o elogio que recebeu da família de Dercy. “A filha dela ainda estava viva e foi uma coisa maravilhosa. A gente fez em julho no Rio e ela faleceu no início de novembro. Ela ficou muito emocionada e falou: ‘Finalmente um espetáculo que honra a memória da minha mãe, como a mulher incrível que ela foi’. Isso é um prêmio maravilhoso. É um aval, um carinho, uma benção que eu recebi”.

História que não é contada

Quando foi convidada pelo diretor Kiko Rieser para o monólogo, Grace decidiu mergulhar de cabeça na história de Gonçalves, para que pudesse não somente imitar a artista, mas interpretá-la com o máximo de detalhes. Para isto, procurou entendê-la desde a infância difícil, passando pelo início de carreira complicado até o ícone que mudou a forma de se fazer comédia, principalmente feminina, no Brasil.

“Ela teve pouco estudo, mas era uma mulher muito inteligente, brilhante. Quando comecei a conhecer mais a Dercy e estudar mais para fazer o espetáculo, descobri a infância muito difícil que ela teve em Santa Maria Madalena, uma cidade do interior do estado do Rio, quase rural. Naquela época, em 1907, as regras eram muito rígidas, e a Dercy, por ser muito espontânea, ter uma personalidade forte e ser muito brincalhona, foi muito discriminada”, diz.

Em seguida, Grace explica que a artista, por volta dos 12 ou 13 anos de idade começou a trabalhar na bilheteria do único cinema que tinha na cidade para ajudar a família. Foi ali que, aos fins de semana, observando as grandes atrizes do cinema mudo, o sonho de brilhar nos palcos cresceu em Dercy.

“Ela foi criada por uma irmã três anos mais velha. As referências femininas que ela tinha eram as atrizes do cinema mudo. Ela gostava muito de brincar, então, colocava umas roupas, pegava carvão do ferro de passar roupa e passava no olho para usar de sombra. Ela saía pela cidade brincando e todo mundo já dizia que ela era uma p*ta. Ela sofreu muita discriminação. Não fazia nada e já era mal falada, ainda mais para aquela época. O pai dela era um cara muito rígido, batia muito nela”, narra.

“De certa maneira, Dercy foi expulsa de Santa Maria Madalena e o Brasil ganhou Dercy Gonçalves. Ela nasceu Dolores Gonçalves Costa e criou essa persona engraçada, brincalhona para se proteger e para proteger essa menina que sofreu tanto. Essa é uma base que está dentro do espetáculo, que faz parte da minha construção. Fui buscar entender os motivos, entender a garra e de onde vem a luta. Acho que isso fica muito vivo no espetáculo”, complementa.

Pioneira da comédia

Para Grace, Dercy foi um dos grandes nomes da comédia brasileira. A atriz exalta o legado da artista e fala sobre a grandiosidade dela para a cultura do país. “Com sua originalidade e criatividade, criou, junto com Grande Otelo, Oscarito…, um estilo de comédia brasileiro, um tempo de comédia brasileiro, que é imitado por milhões de pessoas que não dão o crédito para ela. Ela não está na academia, não é estudada”, aponta a atriz, que reconhece em si alguns pontos da personalidade da homenageada.

“O que eu vejo da Dercy em mim é essa garra. Não tem tempo ruim, vamos embora, vamos tentar mais uma vez, vamos fazer… Ela não desistiu nunca. Me identifico também com essa coisa de ser incompreendida na cidade de onde ela veio, por ser uma pessoa muito original. Uma mulher com muita personalidade causa estranhamento numa sociedade machista patriarcal. Mas, ao contrário da Dercy, tive apoio da minha família que sempre valorizou a inteligência”, frisa.

Para dar vida a Dercy em cima do palco, Gianoukas tem seu momento de concentração antes do monólogo. “Já tenho um ritual. Eu maquio, eu penso, coloco umas músicas, que me traz esse universo da beleza que eu descobri, que me conectei”, relata.

No ar em “Êta Mundo Melhor!”, novela da TV Globo, como Jocasta, Grace ainda diz como tem conciliado os dois trabalhos. “Estou acostumada a fazer TV, com o teatro, às vezes até três trabalhos ao mesmo tempo. O que eu preciso é do meu tempo de concentração. Quando saio do estúdio, acabei de interpretar a Jocasta e tirei o figurino, a Jocasta já vai embora. Preciso de pelo menos uma a duas horas de concentração no camarim para trazer a Dercy Gonçalves”, explica.

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