14 de janeiro de 2026
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Geografia do Rio favorece calor extremo, mas arquitetura pode influenciar, dizem especialistas

Altas temperaturas são agravadas por quantidade de morros, mas projeto urbanístico impacta na sensação térmica

O Rio de Janeiro vem enfrentando um calor extremo nos últimos dias. Na segunda-feira (12), nove das dez localidades mais quentes do país foram registradas no estado e a previsão é de que as altas temperaturas continuem até fim do verão. Especialistas ouvidos pelo DIA comentam que a geoagrafia fluminense colabora para os termômetros elevados, mas destacam que a arquitetura e o paisagismo das cidades influenciam no aumento da sensação térmica.
De acordo com a meteorologista Jade Ramos, do Climatempo, a quantidade de morros na geografia do estado são o principal fator que favorece o Rio ser uma área de bastante calor. A especialista explica que as montanhas provocam uma acelaração dos ventos quentes vindos da atmosfera e as temperaturas aumentam em direção ao litoral.
“Os próprios morros ajudam a aumentar as temperaturas. Lá em cima, um pouquinho mais alto na atmosfera, nós temos o calor mais intenso e os morros aceleram com os ventos e as temperaturas aumentam em direção ao litoral do Rio. A gente tem essa influência dos morros que causam esse aquecimento na temperatuda, o aquecimento adiabático. Os morros ocasionam muito mais essa aceleração dos ventos que causam essas altas temperaturas no litoral”, pontuou a meteorologista.
Além das carecterísticas naturais do estado, a Alta Subtropical do Atlântico Sul (ASAS) também contribui para que os termômetros cheguem aos 40ºC. “É um sistema comum que acontece no oceano Atlântico e ele favorece o dia de mais céu claro, tempo firme, e com isso fica com temperaturas mais elevadas, principalmente à tarde. Como o litoral tem muitos morros, tem a tendência de que esses ventos acelerem e o ar quente desce reforçando as altas temperaturas. Por isso a gente tem essa condição de tempo mais quente e abafado”.
A meteorologista ressalta que diferente de 2025, quando o recorde de calor de 41,3ºC foi registrado apenas no mês de fevereiro, o ano de 2026 já teve números próximos em janeiro. Segundo Ramos, nesta semana podem ocorrer pancadas de chuvas, mas as temperaturas seguem elevadas, e a tendência é de um verão de calor acima da média até o final de março, com mais ondas de calor, que devem superar os termômetros do ano passado.
Arquitetura e engenharia podem ser vilãs ou aliadas
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU-RJ) aponta que, para além da geografia fluminense e dos efeitos das mudanças climáticas, os prédios, construções e áreas verdes têm potencial de impactar a temperatura e sensação térmica urbana. Para Sydnei Menezes, a arquitetura e urbanismo devem ser aliados no enfrentamento ao calor extremo e mais fatores de agravamento.
“No caso da arquitetura, a contribuição que pode ser dada é evitar prédios ou edificações totalmente envidraçadas, que refletem e devolvem o calor para o espaço público, para as ruas. Evitar prédios de grandes alturas, colados em divisas, que possam criar uma barreira de ventilação. Nós chamamos de sustentabilidade arquitetônica, levar em consideração os princípios da ventilação, da instalação e da iluminação. Esses são os conceitos que devem ser utilizados para que possa minimizar esses impactos”.
Menezes também reforçou a importância do planejamento urbano que priorize mais áreas verdes e a arborização. “A árvore tem uma função ambiental muito importante do ponto de vista de amenizar as temperaturas e criar o chamado microclima urbano. Projetos de áreas livres com bastante ventilação, circulação de ar, utilização da água, desde o espelho d’água, com fontes. Isso não resolve, porque a gente está vivendo um momento de mutações climáticas muito severas, mas ameniza bastante”, disse ele.
Ainda segundo presidente, é necessário humanizar as cidades, por meio de conceitos mais ecológicos e com atuação conjunta entre o poder público e a população, a partir da educação ambiental. “Esse tipo de ação tem que ser pensada. Tem que ser uma atividade que traga as soluções e não amplia os problemas, como infelizmente a gente vê acontecendo em alguns lugares”.
O engenheiro civil Otávio Henrique, do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET-RJ ) e Fundador da Varg, afirma que mudanças nas escolhas de materiais usados nas ruas e construções têm capacidade de reduzir a sensação térmica urbana em mais 5ºC, sem precisar ligar nenhum ventilador. O profissional destaca, principalmente, aqueles que absorvem o calor durante o dia e atrapalham a circulação de vento, como concreto e tijolo maciço.
“No Rio de janeiro nós temos o abuso do concreto e do tijolo maciço, materiais que funcionam como baterias térmicas: absorvem sol o dia todo e liberam calor à noite. A solução é o uso de concretos de baixa densidade e blocos celulares. Outra fronteira são os PCMs (Materiais de Mudança de Fase), componentes que são misturados ao reboco e conseguem absorver o calor do ambiente sem aumentar a temperatura da parede”, exemplificou o engenheiro, que ainda citou o asfalto preto.

“O asfalto preto é um grande vilão. Superfícies de cores claras refletem a luz em vez de absorvê-la. (A solução também é) adaptar prédios antigos com telhados brancos e isolamentos térmicos em mantas, transformando edifícios capazes de resfriar o ambiente”, comentou Otávio Henrique, que ainda sugeriu o uso de fachadas ventiladas e vidro de controle solar, por meio de película que barra o raio infravermelho, mas permite a passagem de luz, reduzindo a necessidade de ar-condicionado em até 30%.

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