Exposição “Entre Rios e Mocambos” de Joelington Rios inaugura na Galeria Berê
Mostra abre no MUHCAB dia 30 de janeiro e propõe uma travessia poética entre quilombo e cidade, memória e presente, a partir da experiência do artista entre o Maranhão e o Rio de Janeiro
A Galeria Berê, novo espaço de arte localizado no Museu de História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), inaugura no dia 30 de janeiro a exposição “Entre Rios e Mocambos”. É a primeira mostra individual do artista quilombola Joelington Rios na capital fluminense. A exposição apresenta um conjunto de obras que constroem uma travessia sensível entre territórios conectados pela memória, pela ancestralidade e pelas formas coletivas de existir e resistir. A curadoria é assinada por Marcelo Campos e Bruno Oliveira.
Partindo do Quilombo Jamary dos Pretos, no Maranhão, até sua vivência no Rio de Janeiro, Joelington Rios elabora uma poética marcada pelo deslocamento sem ruptura — um gesto de permanência em movimento. Em seu trabalho, os rios aparecem como caminhos de transmissão, cuidado e continuidade, enquanto os mocambos emergem como modos coletivos de habitar, proteger e sustentar a vida. “O trabalho do Joeligton traz uma singularidade para a cena contemporânea porque é um trabalho de um artista quilombola e que traz reflexões sobre essa relação, sobre esse trânsito entre valores, tradições e saberes. Às vezes a gente pensa e espera dentro de uma cena de tradição afro-brasileira ou de vínculos afro-brasileiros, sobretudo vínculos raciais, a gente espera que o próprio grupo tenha seus representantes, tenha artistas que estejam inseridos numa compreensão de arte. E Joelington então é esse artista, é essa voz quilombola, que se apresenta com experiências nos grandes centros urbanos, se apresenta com a experiência dos museus, das galerias, enfim, dessas relações”, destaca o curador Marcelo Campos.
As imagens reunidas em Entre Rios e Mocambos não se propõem a documentar um lugar específico, mas a atravessá-lo. O azul profundo que percorre as obras atua como água e sombra — envolve, protege e ilumina aquilo que não se revela de imediato. “Estou muito feliz por essa oportunidade de trabalhar com a Galeria Berê, um projeto muito interessante que combina alguns dos meus interesses. É uma galeria fundada por duas irmãs e que homenageia a matriarca da família, dona Berenice. Essa primeira exposição é uma homenagem à minha família quilombola e ao nosso quilombo. Além disso, a galeria está localizada em um território importante, a Gamboa, também conhecida como a Pequena África, perto do cemitério dos Pretos Novos, onde eu exibi uma fotografia do meu trabalho pela primeira vez no Rio em 2018, era uma foto da minha parteira cuidado do seu jardim medicinal. E mais à frente, está o Cais do Valongo. São territórios de memórias e penso que essa exposição, que pretende refletir sobre o quilombo, chega em um momento de grande potência dentro desses lugares”, afirma o artista Joelington Rios.
Ao apresentar a primeira exposição individual de Joelington Rios, a Galeria Berê reafirma seu compromisso com práticas artísticas que pensam herança, afeto e território, reconhecendo o papel fundamental dos artistas quilombolas na construção de novos imaginários e formas de presença no mundo. “Entre Rios e Mocambos marca um momento importante para a Galeria Berê por afirmar a centralidade de artistas negros e quilombolas na construção das narrativas da arte contemporânea. A exposição de Joelington Rios propõe um tempo de escuta, onde memória, território e sensibilidade se articulam a partir do corpo, da noite e da experiência vivida. É um gesto de afirmação poética e política, profundamente conectado à missão da Berê”, destaca Bruno Oliveira, também curador da mostra. O espaço, idealizado pelas irmãs Gisele de Paula e Rejane Ribeiro é dedicado aos diálogos, conexões e exposições de artistas afro-brasileiros. A entrada é gratuita.
Quem foi Berenice Santos de Paula?
Berenice Santos de Paula, a Berê, nasceu em 1º de abril de 1937, em Divina Pastora, Sergipe. Mulher negra de origem simples e trabalhadora, veio para o Rio de Janeiro aos 14 anos, acompanhada das irmãs, em busca de uma vida melhor. Analfabeta na infância, decidiu estudar já adulta, movida pelo desejo de ler a Bíblia. Vaidosa, perfumada e de presença doce e firme, Berê representava a força silenciosa de uma geração de mulheres negras que sustentaram famílias e sonhos com dignidade e fé. Faleceu em 2012, aos 74 anos, deixando um legado de amor e ancestralidade que inspira o nome e o propósito do instituto e da Galeria Berê.
O Instituto Berê
Além das exposições, o Instituto desenvolverá projetos educativos e programas de residência artística, voltados à formação e profissionalização de artistas periféricos, ampliando suas possibilidades de inserção no circuito cultural e institucional. Essas ações visam consolidar o Instituto Berê como um centro de referência para a arte contemporânea afro-brasileira, atuando com compromisso ético e social.
MUHCAB
O Museu de História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), localizado na histórica região da Pequena África, no Rio de Janeiro, desempenha um papel fundamental na preservação, promoção e valorização da história e da cultura afro-brasileira. Situado em um território que abriga marcos emblemáticos, como o Cais do Valongo — reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade —, o MUHCAB se dedica a narrar as histórias de resistência, adaptação e transformação da população negra no Brasil. Sua atuação conecta passado e presente, promovendo reflexões profundas sobre o impacto da cultura afro-brasileira na formação da sociedade brasileira e na luta por equidade.
GALERIA BERÊ
Exposição Entre Rios e Mocambos de Joelington Rios
Abertura: 30 de janeiro de 2026 – das 15h às 22h
Local: MUHCAB – Museu de História e Cultura Afro-Brasileira, Rio de Janeiro – Rua Pedro Ernesto, 80 – Gamboa.
Visitação: de terça a domingo 10h às 17h – entrada gratuita
Encerramento: 21 de março de 2026

