13 de abril de 2026
NotíciasNotícias 24hs

Brasil lidera mercado mundial de café e busca novas estratégias de expansão

Apesar de o Brasil manter uma posição de liderança no mercado global de café, o cenário atual exige uma articulação maior entre pesquisa, produção e políticas públicas. Esse foi o eixo central do debate “Mercado brasileiro do café: perspectivas, desafios e oportunidades”, promovido pela Rede de Socioeconomia da Embrapa, na semana passada.

No evento, moderado pelo chefe-geral da Embrapa Café, Rodolfo Osorio de Oliveira, a pesquisadora Rita de Cássia Milagres Teixeira Vieira apresentou um estudo elaborado a partir da integração de bases de dados nacionais e internacionais — como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), o sistema de estatísticas de comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Comex/MDIC) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) —, combinando séries históricas e dados atualizados para construir uma análise abrangente do mercado de café.

Os números apresentados por ela indicam que a produção mundial de café vem crescendo de forma consistente nas últimas décadas, passando de cerca de 8,5 milhões para 11,6 milhões de toneladas entre 2010 e 2024. No mesmo período, o consumo global acompanhou esse movimento, com alta de aproximadamente 44%, saindo de 8 milhões para 11,7 milhões de toneladas.

O Brasil se mantém como principal produtor mundial, com ampla vantagem sobre países como Vietnã, Indonésia e Colômbia. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento indicam produção estimada em cerca de 66 milhões de sacas em 2026. “Mas, apesar dessa liderança, a produtividade média brasileira ainda é inferior à de alguns concorrentes. Enquanto a China registra rendimento de 3.744 kg por hectare e o Vietnã ultrapassa os 3 mil kg/ha, o Brasil apresenta média de 1.752 kg/ha”, alertou Rita.

Nesse sentido, o levantamento sugere que o aumento da produtividade no Brasil depende de uma combinação de fatores, como inovação tecnológica, adaptação genética, sustentabilidade e melhor uso da informação. Rita destacou, por exemplo, a necessidade de uma reconfiguração varietal, com maior atenção ao café canéfora que, segundo ela, é um material mais produtivo e mais resiliente às mudanças climáticas, o que o torna estratégico para elevar o rendimento médio da cafeicultura brasileira.

Rita assinalou, ainda, a incorporação de inteligência artificial, agricultura de precisão e automação como ferramentas capazes de melhorar o manejo, otimizar recursos e aumentar a produtividade das lavouras. A pesquisadora também enfatizou a importância da rastreabilidade e do controle de qualidade, com apoio de tecnologias como blockchain. “Embora esse ponto esteja associado às exigências de mercado, ele também contribui para organizar a produção e induzir melhorias nos sistemas produtivos”, disse.

Outro caminho destacado é o avanço em sistemas de produção mais sustentáveis e de baixo impacto, incluindo o uso de bioinsumos. “A adoção dessas práticas está diretamente relacionada à eficiência produtiva e à adaptação às novas condições climáticas e regulatórias”, explicou.

A pesquisadora comentou sobre a necessidade de fortalecer a base analítica do setor, com modelagem econômica e sistemas de apoio à decisão que ajudem produtores e formuladores de políticas a escolher estratégias mais eficientes.

Valor agregado

O estudo da pesquisadora da Embrapa mostrou que o Brasil responde por parcela predominante do volume exportado entre os principais países produtores analisados. No entanto, a análise indicou diferenças significativas quanto ao valor agregado ao produto, apontado como um dos principais gargalos estruturais do país.

“Somos bons em commodities, mas não sabemos agregar valor”, destacou Rita. De acordo com ela, enquanto o café brasileiro é exportado a cerca de US$ 1,58 por quilo, países europeus chegam a vender o produto por valores até 22 vezes maiores. “A Suíça alcança valores de até US$ 34,60 por quilo”, comentou.

Para ela, existe um paradoxo entre volume exportado e captura de valor. Por isso, na opinião da pesquisadora, o Brasil precisa migrar de um modelo baseado em quantidade para outro orientado à diferenciação. A pesquisadora exemplificou como análises estratégicas podem alterar a trajetória do setor.

Ao relembrar a expansão do mercado de cápsulas, contou que o Brasil chegou a exportar café em grão para importar cápsulas industrializadas. “Eu precisava exportar uma saca de café em grão para importar 1 kg de cápsula”, disse. A partir desse diagnóstico, políticas públicas ajudaram a atrair fábricas para o país — movimento que transformou o Brasil em exportador desse produto.

Na avaliação da pesquisadora, é preciso ampliar a participação em segmentos como café torrado, moído e solúvel, além de desenvolver novos produtos derivados. “Já avançamos em alguns desses nichos, mas ainda há espaço para expansão, especialmente em mercados externos”, completou.

Essa diversificação de destinos de exportação para mercados emergentes, como China, Coreia do Sul e Turquia, é vista pela pesquisadora como forma de reduzir a dependência de mercados tradicionais e ampliar oportunidades para produtos de maior valor agregado.

O comércio digital, com a venda direta ao consumidor internacional, é outro nicho a ser explorado, segundo a pesquisadora. “Plataformas de e-commerce permitem que produtores brasileiros alcancem compradores em outros países sem intermediários, abrindo espaço para maior valorização do produto”, lembrou Rita, apontando a necessidade de investir em inteligência de mercado e conhecimento do consumidor, incluindo estudos sobre preferências e tendências em novos mercados.

Cenário interno

No cenário interno, o Brasil reúne desde grandes áreas mecanizadas até pequenas propriedades com produção mais intensiva em mão de obra, o que confere complexidade à análise do setor. O levantamento mostrou que a produção brasileira permanece concentrada na região Sudeste, responsável por 84,5% do total, com destaque para Minas Gerais, que responde por quase metade da produção nacional. Espírito Santo, São Paulo e Bahia aparecem na sequência, compondo o núcleo da produção, enquanto estados como Rondônia ganham relevância na produção de canéfora, especialmente na região Norte.

Nesse aspecto, a análise evidenciou diferenças entre os tipos de café cultivados no país. O canéfora apresenta produtividade média de 2.128 kg por hectare, superior ao arábica, que registra cerca de 1.399 kg/ha. Além da produtividade, Rita chamou atenção para características estruturais dessas culturas. “O arábica, mais tradicional e amplamente cultivado em regiões de maior altitude, ainda predomina na produção nacional, enquanto o canéfora, mais adaptado a condições climáticas adversas, vem ganhando espaço, especialmente em regiões mais quentes”, detalhou. Essa diferença, segundo a pesquisadora, tem implicações diretas na estratégia produtiva do país, sobretudo diante dos efeitos das mudanças climáticas.

O estudo destacou, ainda, o peso do café na economia brasileira. Em 2025, o produto contribuiu com aproximadamente US$ 15 bilhões para o superávit da balança comercial do agro, que totalizou cerca de US$ 68 bilhões, representando quase 22% desse resultado.

Mercado internacional

Após a apresentação do estudo, o diretor executivo do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Marcos Matos, trouxe a visão do mercado internacional sobre o assunto. Ele contextualizou o setor em um ambiente de crescente instabilidade geopolítica e regulatória. “Estamos vivendo um momento em que economia, segurança e geopolítica passaram a sentar no banco da frente”, afirmou.

Matos reforçou que o Brasil mantém posição dominante — maior produtor, exportador e segundo maior consumidor —, mas alertou para riscos operacionais e estratégicos. Entre eles, destacou os gargalos logísticos. Segundo ele, o país deixou de exportar o equivalente a US$ 2,6 bilhões por limitações portuárias recentes.

Ele também abordou o impacto de decisões comerciais e geopolíticas, como o chamado “tarifaço”, que alterou fluxos internacionais e exigiu rearranjos nas cadeias de fornecimento. “O pior prejuízo é não estar no blend”, afirmou, referindo-se à perda de espaço do café brasileiro em misturas globais. Para ele, recuperar esse espaço é difícil e custoso.

Apesar dos desafios, Matos disse que vê sinais positivos na demanda. Ele citou o aumento do consumo em mercados maduros, como a Alemanha, e a expansão de novos polos consumidores. “Estamos vendo movimentações importantes que indicam crescimento do consumo, mesmo com pressão de preços”, afirmou.

Base institucional

A terceira participação foi do diretor do Departamento de Análise Econômica e Políticas Agropecuárias da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, Silvio Farnese, que destacou a base institucional e tecnológica construída ao longo de décadas. “Temos hoje o melhor conhecimento tecnológico para produção de café arábica e canéfora”, comentou.

Farnese enfatizou o papel do Ministério e do Funcafé no financiamento do setor e no apoio à pesquisa. Segundo ele, nos últimos anos foram destinados mais de R$ 100 milhões para pesquisa e capacitação, embora reconheça restrições orçamentárias recentes.

Ele também destacou a relevância das cooperativas na difusão tecnológica, especialmente entre pequenos produtores. “A adoção de tecnologia é lenta, exige confiança, mas as cooperativas têm conseguido avançar com consistência”, afirmou.

Ao abordar desafios, Farnese mencionou fatores já apontados pelos demais participantes: clima, logística, volatilidade de preços e exigências ambientais. Mas acrescentou um ponto estrutural: a necessidade de capacitar produtores para gestão de risco e uso de instrumentos financeiros. “O produtor precisa entender o mercado, não apenas produzir”, frisou.

No campo das oportunidades, ele citou o crescimento do consumo de cafés especiais, a digitalização da produção, o uso de tecnologias como inteligência artificial e blockchain, e a expansão de mercados emergentes como vetores de transformação.

Ao fim do debate, Rita sintetizou o cenário afirmando que o Brasil tem “a faca e o queijo na mão” no campo da sustentabilidade. “O país já possui vantagens comparativas, mas precisa convertê-las em vantagem competitiva mensurável e comunicável”, completou.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *