Apuração do carnaval do Rio é hoje: metade das notas será descartada
Houve várias mudanças no regulamento: aumento no número de julgadores, cabines espelhadas e subquesitos inéditos.
O Rio de Janeiro vai conhecer na tarde desta Quarta-Feira de Cinzas (18) a grande campeã do carnaval 2026. O g1 e a TV Globo transmitem a apuração, a partir das 15h45 para o Rio, e às 16h05 para todo o Brasil.
Houve várias mudanças no regulamento:aumento no número de julgadores, cabines espelhadas, subquesitos inéditos e descarte de metade das notas. Veja em detalhes abaixo.
Antes, os sorteios
As emoções começam já no início da tarde, quando a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) realiza 2 sorteios.
- Critérios de desempate: 9 bolinhasserão tiradas do globo e vão estabelecer a ordem de leitura dos quesitos. Caso haja igualdade de pontos entre as escolas, os últimos envelopes a serem abertos definirão a campeã.
- Descarte de jurados: 54 avaliadoresderam notas, mas, segundo o regulamento, a apuração vai abrir apenas os envelopes de 36 deles. Para tal, em um sorteio, a Liga vai tirar da planilha 2 julgadores em cada quesito.
Quais notas serão desconsideradas de cara?
Os 54 julgadores foram distribuídos em 4 módulos: 1 no começo da Avenida, 2 no meio e 1 no fim.
As cabines das extremidades são duplas, com 2 julgadores por quesito, mas o sorteio vai tirar 1 deles por módulo.
Na hora da leitura
Quando começar a apuração, serão 36 notas, ou 4 jurados para 9 quesitos.
Como aconteceu nos últimos anos, a menorem cada fundamento será excluída da soma.
Restarão, portanto, 27 notas, ou a metade do que foi concedido, de 9,0 a 10,0.
Obrigatoriedades
Antes de abrir os envelopes do júri, a Liga observará se todas as escolas cumpriram as obrigatoriedades.
Uma delas é o tempo de desfile, fixado entre 70 e 80 minutos: cada minuto estourado custará 0,1 ponto. A agremiação que encerrar a apresentação abaixo de 70 minutos também será punida na mesma medida.
Outros itens preveem decréscimo de 0,5 ponto e envolvem o número de integrantes. Ala de baianas com menos de 60 senhoras é um exemplo.
E se empatar?
Só pode haver empate na 1ª colocação.Mesmo assim, só vai acontecer se as escolas tiverem exatamente a mesma pontuação final, com os mesmos 9 subtotais, considerando as 27 notas válidas.
Em qualquer outra situação, a Liesa seguirá esta ordem de critérios:
- Soma dos quesitos (na ordem inversa do sorteio): a comparação começa pelo último quesito lido. Vence quem tiver a maior soma no subtotal. Se continuar empatado, passa-se ao penúltimo quesito sorteado, e assim por diante, até que haja diferença.
- Maior número de notas 10: se o empate persistir após a comparação dos quesitos, vence a escola que tiver recebido mais notas 10 em todos os quesitos.
- Comparação das notas abaixo de 10: se ainda houver empate, a análise passa a considerar as notas abaixo de 10, começando por 9,9, depois 9,8, 9,7 e assim sucessivamente, até surgir uma diferença.
- Sorteio: se todas as etapas anteriores mantiverem o empate, a definição será feita por sorteio.
Veja as outras novidades do regulamento.
Cabines espelhadas
A distribuição pela Sapucaí foi determinada por sorteio. Os 54 julgadores foram alocados em 6 cabines instaladas em 4 módulos:
- Módulo 1 (cabines 1 e 2): Setor 3A, no início do desfile;
- Módulo 2 (cabine 3): camarotes no Setor 6, no meio da Avenida;
- Módulo 3 (cabine 4): camarotes no Setor 7, “espelhado” com o Módulo 2;
- Módulo 4 (cabines 5 e 6): entre os setores 10 e 12, no fim da Passarela.
Os módulos 2 e 3, os espelhados, são uma novidade. As escolas terão que apresentar quesitos como comissão de frente e casal de mestre-sala e porta-bandeira “em 360 graus”, contemplando jurados em lados opostos da Avenida.
Subquesitos
Todos os 9 quesitos que definirão a escola de samba campeã do carnaval carioca de 2026 foram divididos em subquesitos. Os velhos conhecidos “Bateria”, “Harmonia”, “Samba-enredo” e afins ganharam 26 detalhamentos como “Cadência”, “Fluência” e “Funcionalidade”.
Os 9 fundamentos passam a ter até 4 partes distintas. Caberá aos 54 jurados somar os critérios e lançar o total no envelope.
O cálculo é complicado porque não há como dar uma nota menor do que 9,0 pelo regulamento — o zero é previsto, mas só se a escola não apresentar o quesito, o que é praticamente impossível.
Na matemática do carnaval, então, há subquesitos em que há apenas 1,8, 1,9 e 2,0 como possibilidades de nota.
Segundo Thiago Farias, coordenador de Jurados da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), a novidade no regulamento foi aprovada em plenária pelas 12 agremiações.
“O que motivou a subdivisão dos quesitos foi a mudança do método de julgamento, que deixou de ser comparativo, e passou a ser fechado no mesmo dia”, explicou.
Desde o ano passado, no fim de cada noite de desfile o jurado precisa preencher o envelope com as notas das 4 escolas que se apresentaram e lacrá-lo.
Antes, esse processo só era feito depois que a 12ª agremiação terminasse de desfilar.
Então, o julgamento deixou de ser sobre “quem foi a melhor” para ser sobre “quem errou menos” — e os 26 subquesitos orientam o júri a olhar com lupa cada pormenor da avaliação.
Alguns novos critérios — como “Criatividade” ou “Espontaneidade” —, à primeira vista, podem parecer “subjetivos” demais. Mas Thiago afirma não haver preocupação sobre isso. “A entrada desses critérios foi apenas para dar mais clareza e explicação para os quesitos”, disse.
“O novo modelo continua como sempre foi: técnico e transparente”, destaca Thiago.
Como ficou?
Veja agora todos os 26 subquesitos, quanto cada um vale e o que pode custar décimos à escola.
1. Alegorias e Adereços
Segundo a Liesa, o quesito “avalia a criatividade, o impacto visual, a harmoniae a qualidade plástica das estruturas cenográficas e ornamentos utilizados no desfile”.
“Considera o acabamento, a originalidade e a adequação das alegorias e adereços à proposta do enredo, valorizando a capacidade da escola de transformar ideias em grandes obras visuais que encantam e comunicam com força estética na Avenida”, detalha o manual.
“Esses elementos são essenciais para dar grandiosidade e teatralidade ao espetáculo.”
Subdivisões:
- Concepção (de 4,5 a 5,0 pontos): as alegorias e os adereços cumprem a função de representar as diversas partes do enredo? A criatividade plástica possui significado?
- Realização (de 4,5 a 5,0 pontos): qual a impressão causada pelas formas? Há entrosamento entre materiais e cores? Como são os acabamentos na confecção e decoração? Tem alguma ponta solta, alguma coisa fora do lugar? Tem gerador aparente?
2. Bateria
Para a Liesa, “é um dos elementos mais vibrantes e fundamentais do desfile”. “A bateria dita o andamento do samba-enredo e influencia diretamente a evolução da escola na Avenida. É considerada o coração de uma escola de samba”, define.
Subquesitos:
- Manutenção da cadência (de 3,6 a 4,0 pontos): a bateria sustenta o samba-enredo? Houve alterações bruscas que comprometeram o andamento? Os ritmistas “desandaram”?
- Conjugação dos instrumentos (de 2,7 a 3,0 pontos): os sons estão casando? As “paradinhas” e bossas foram perfeitamente executadas?
- Criatividade e versatilidade (de 2,7 a 3,0 pontos): como foram as bossas, paradinhas e convenções? Qual o grau de dificuldade?
3. Comissão de frente
Único quesito com 4 subdivisões, avalia a 1ª apresentação artística da escola ao público e aos jurados. O grupo deve demonstrar “criatividade, teatralidade, sincronia e impacto visual, além de estabelecer uma conexão com o enredo”.
“A comissão de frente tem a missão de causar uma forte 1ª impressão e introduzir, de forma cênica e envolvente, a história que será contada na Avenida”, diz a Liesa.
Subquesitos:
- Indumentária e tripé (de 1,8 a 2,0 pontos): a roupa da comissão de frente e o possível tripé (ou elemento cênico) são adequados? Houve perda de parte das fantasias?
- Concepção (de 1,8 a 2,0 pontos): a mensagem passada foi fácil de entender? Houve impacto positivo?
- Apresentação (de 3,6 a 4,0 pontos): os integrantes saudaram o público e apresentaram a escola? Os componentes foram sincronizados? Como foi a interação com o tripé?
- Criatividade (de 1,8 a 2,0 pontos): o que o tripé acrescentou? Houve efeitos especiais na evolução?
4. Enredo
O quesito avalia a maneira como o tema escolhido pela escola é desenvolvido e apresentado ao longo do desfile.
“Esse critério considera a clareza, a criatividade e a coerência narrativa da história contada na Avenida, além da integração com fantasias e alegorias”, explica a Liesa.
“O enredo é o fio condutor da apresentação e tem papel fundamental na construção da identidade do desfile, sendo essencial para envolver o público e transmitir a proposta artística e cultural da escola.”
Subdivisões:
- Concepção (de 2,7 a 3,0 pontos): a ideia apresentada pela escola foi desenvolvida com clareza, coerência e coesão? A roteirização do desfile ajudou a entender o tema?
- Realização (de 4,5 a 5,0 pontos): de que forma o assunto foi “carnavalizado”? Como foi a adaptação do tema através das fantasias e alegorias? Como a sequência das alas contou essa história? Faltou alguma coisa prevista no roteiro fornecido pela escola?
- Criatividade (de 1,8 a 2,0 pontos): como foram as soluções apresentadas?
5. Evolução
É a forma como a escola se movimenta pela Avenida. “Deve ocorrer de maneira natural e contínua, sem correria, interrupções ou buracos que comprometam a apresentação”, define a Liesa.
Pelo regulamento, cada agremiação tem entre 70 e 80 minutos para fazer seu carnaval e perde ponto se não observar esses limites, para mais ou para menos.
A Liga ressalta que o começo do desfile tende a ser mais lento, pois a comissão de frente e o casal principal de mestre-sala e porta-bandeira precisam se apresentar para os jurados em 3 pontos na Sapucaí.
Como cada ciclo demora de 2 a 3 minutos, a escola deve “calibrar” a velocidade dos demais componentes para compensar essas paradas.
Quando o abre-alas chega à Apoteose, todos “aceleram”. “É importante que a escola mantenha o equilíbrio entre animação e disciplina, garantindo que todos os setores desfilem com harmonia e sincronia, transmitindo ao público a energia e a emoção do espetáculo.”
Subquesitos:
- Fluência (de 4,5 a 5,0 pontos): teve correria? A escola soube alternar corretamente as fases do desfile? As alas estavam coesas? Houve buraco entre as alas e ao redor das alegorias? Alguém andou para trás?
- Espontaneidade (de 2,7 a 3,0 pontos): teve ala coreografada? Como foi? Houve criatividade dos desfilantes?
- Evolução do componente (de 1,8 a 2,0 pontos): os foliões estão empolgados? Tem alguém sem sambar? As alam sambam com leveza, ou a fantasia atrapalha?
6. Fantasias
Analisa a beleza, a criatividade, a diversidade e o acabamento dos trajes. “As fantasias são fundamentais para transmitir visualmente a narrativa proposta, contribuindo para a coesão estética e o impacto artístico do espetáculo na Avenida”, diz a Liesa.
Subquesitos:
- Concepção (de 4,5 a 5,0 pontos): as fantasias estão adequadas ao enredo? As alas cumprem a função de representar as diversas partes do conteúdo? São criativas? Possuem significado?
- Realização (de 4,5 a 5,0 pontos): qual foi a impressão causada pelas formas? Como foi a distribuição de materiais e cores? A fantasia permite ao folião sambar? Em cada ala, os foliões têm rigorosamente a mesma roupa, dos pés à cabeça? Tem fantasia quebrada ou capenga?
7. Harmonia
Avalia a integração entre o canto dos componentes e o ritmo da bateria. “A escola deve manter um entrosamento consistente, com seus integrantes cantando o samba-enredo de forma coesa e contínua”, ensina a Liesa.
“A harmonia é essencial para garantir que o desfile tenha fluidez, emoção e unidade, refletindo o trabalho de preparação e o espírito coletivo da escola na Avenida.”
Subquesitos:
- Canto da escola (de 3,6 a 4,0 pontos): todo mundo está cantando o samba, do chão aos carros alegóricos? Cada verso é cantado, ou só o refrão?
- Harmonia instrumental (de 2,7 a 3,0 pontos): como os músicos estão tocando? Estão casados com a bateria?
- Harmonia vocal (de 2,7 a 3,0 pontos): o intérprete principal está em harmonia com os intérpretes de apoio? Dá para entender cada palavra do que eles cantam?
8. Mestre-Sala e Porta-Bandeira
É o casal que conduz e apresenta o pavilhão da escola, “e essa função precisa ter elegância, graça e respeito”.
“Esse julgamento considera a harmonia do par, a correção dos movimentos, a fluidez da dança, a indumentária e o entrosamento entre ambos”, teoriza a Liesa.
“É uma das tradições mais emblemáticas do carnaval, um momento de destaque no desfile, simbolizando a alma e o orgulho da escola de samba.”
Subquesitos:
- Indumentária (de 2,7 a 3,0 pontos): como é a fantasia do casal? Ajuda ou atrapalha a dança? Tem beleza e bom gosto? Faz sentido com o enredo? Alguma parte caiu ou quebrou?
- Coreografia (de 2,7 a 3,0 pontos): como foi a dança? Teve improvisações ou inspirações positivas? Houve alguma descaracterização? O casal evoluiu bemno espaço?
- Sincronismo e harmonia (de 3,6 a 4,0 pontos): o casal estava integrado? O mestre-sala cortejou a porta-bandeira e protegeu o pavilhão da escola? A porta-bandeira manteve o pavilhão sempre desfraldado ou deixou enrolar? Alguém tropeçou ou caiu?
9. Samba-enredo
Tem a função de traduzir, em letra e melodia, a narrativa proposta. Precisa ser claro, coerente e bem estruturado.
“A melodia precisa ser envolvente, adequada ao canto coletivo e capaz de sustentar o ritmo ao longo de toda a apresentação. Já a letra deve ser fiel ao enredo, apresentando criatividade poética e fácil compreensão para o público e os jurados”, explica a Liesa.
“Esse quesito é fundamental, pois une todos os setores da escola e contribui diretamente para a harmonia e emoção do desfile. É considerado o pulmão de uma escola de samba.”
Subquesitos:
- Desenvolvimento do enredo (de 3,6 a 4,0 pontos): a letra é adequada ao enredo? Foi forçada e espremeu todos os elementos presentes no desfile? Ficou presa na ordem cronológica ou nos setores do desfile?
- Riqueza poética e melódica (de 3,6 a 4,0 pontos): tem beleza e bom gosto? Usou vocabulário próprio e adequado? Como foram as rimas, ricas ou forçadas?
- Funcionalidade (de 1,8 a 2,0 pontos): o samba-enredo cresceu na execução? Ajudou o folião a desfilar?

