6 de janeiro de 2026
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Andrea Beltrão revisita diários de advogada de presos na ditadura em ‘Lady Tempestade’

Atriz fala sobre legado de Mércia Albuquerque, encerramento da turnê nacional e trajetória na TV

Desde a estreia, em 2024, “Lady Tempestade” vem atraindo grande público aos teatros. Protagonizado por Andrea Beltrão, o espetáculo acumula mais de 70 mil espectadores e sessões esgotadas por onde passou, e agora retorna ao Rio para curtíssima temporada no Teatro Casa Grande, na Zona Sul, até 11 de janeiro. A volta marca o encerramento da turnê nacional e abre as celebrações pelos 60 anos do histórico espaço cultural.

“Nos anos 1970 o Teatro Casa Grande organizava muitos encontros importantes para debater a abertura após a ditadura. Minha mãe e meu padrinho iam sempre e me levavam. Darcy Ribeiro, Lula, Brizola, Fernando Henrique, Mário Covas, são algumas das pessoas que assisti nos debates. Apesar de ser ainda criança, entendia que aquilo era muito importante. Hoje, voltar com ‘Lady Tempestade’, para a comemoração é uma honra”, afirma a atriz.
Dirigida por Yara de Novaes e com dramaturgia de Sílvia Gomez, a montagem é baseada nos diários da advogada pernambucana Mércia Albuquerque (1934-2003), que trabalhou na defesa de presos políticos durante a ditadura militar, a peça propõe uma reflexão sobre memória, violência de Estado e justiça no Brasil.
“A história, trajetória dela como professora, advogada mãe e mulher é muito surpreendente. E a atualidade do assunto, a peça é contada através do diário de Mércia que foi escrito entre os anos de 1973 e 1974, mas as violências continuam até hoje. Como Sílvia Gomez, autora da peça, diz: ‘essas coisas acontecem, aconteceram, acontecerão. Ou não'”.
Apesar disso, Mércia permanece pouco conhecida do grande público, tema que o espetáculo também coloca em discussão. “A sociedade é uma entidade, um coletivo, abstrato. Não podemos telefonar para a ‘sociedade’ e reclamar que mulheres como Mércia estão apagadas. Esse trabalho é nosso. Nós podemos falar, relembrar e evocar todas as pessoas que nos importam”, comenta.
Em cena, Andrea Beltrão interpreta A., uma mulher que recebe os escritos de Mércia décadas depois e se vê atravessada por relatos de coragem e resistência. “Atrizes e atores são realmente uma ponte entre as histórias que são contadas, as pessoas que contam, as pessoas que recebem a história. A personagem representa muita gente, A. sou eu também”, diz.
Ao atravessar diferentes tempos históricos, a montagem evidencia uma dramaturgia aberta, que provoca leituras diversas a cada sessão. “É impossível, na minha opinião, saber o que cada pessoa da plateia sente, gosta, ou se identifica quando assiste à peça. É uma novidade a cada apresentação. E é bom que seja assim. São muitas possibilidades, muitos pontos de afinidade ou não”.
Um dos momentos mais impactantes do espetáculo é a incorporação do áudio real de uma mãe que perdeu o filho em 2022, trazendo a discussão sobre violência de Estado para o presente. “O depoimento de Dona Evanir sobre seu filho Marcelo é forte, emocionante. O espetáculo sustenta todos os assuntos que são abordados, pois a direção de Yara de Novaes é precisa, nada piegas. Yara é uma diretora extraordinária e sabe contar essa história”, destaca.
Andrea divide o palco com o filho, Chico Beltrão, responsável pela trilha sonora ao vivo, uma escolha da diretora Yara. “Tivemos que construir uma linguagem, um novo repertório de convivência pois em cena, além de mãe e filho somos também colegas de ofício. Foi uma grande descoberta para mim. E é muito emocionante. A história de Mércia é contada através da forte ligação que ela teve com mães e pais de desaparecidos durante a ditadura. Por isso, a presença dele como meu filho na peça dá uma camada de realidade muito grande e isso fortalece a história de Mércia e a própria peça.”
Fora dos palcos, “Lady Tempestade” foi publicada pela Editora Cobogó em 2024 e ganhará uma adaptação para o cinema sob direção de Maurício Farias. “Estamos felizes com a peça, com o livro, com o diário de Mércia e com o filme que vem por aí”, celebra Beltrão.
TV Aberta
Paralelamente ao teatro, Andrea Beltrão consolidou seu nome na televisão brasileira. Destaque na reprise de “A Viagem” (1994) no Vale a Pena Ver de Novo, a atriz ficou duas décadas longe dos folhetins até integrar o elenco de “Um Lugar ao Sol” (2021). Três anos depois, viveu Zefa Leonel em “No Rancho Fundo”, papel que rendeu o prêmio de melhor atriz de novela no Melhores do Ano do “Domingão com Huck”.
“Adoro fazer televisão. Gosto de trabalhar. Zefa Leonel e Rebeca foram duas personagens maravilhosas, interessantes, diferentes, adoro essas duas mulheres da ficção, eu seria amiga delas na vida real”, conta.
Na comédia, a artista construiu personagens que permanecem no imaginário do público, como a Marilda de “A Grande Família” e a Sueli de “Tapas & Beijos”. A parceria com Fernanda Torres na série lhe rendeu felicitações após a amiga vencer o Globo de Ouro pelo trabalho como Eunice Paiva no filme “Ainda Estou Aqui”.
“Eu adorei. Torci e vibrei muito pela Fernanda. E ainda ganhei vários abraços por ela. Me diverti e fiquei muito feliz por ela”, relembra Andrea.
Espetáculo ‘Lady Tempestade’
Temporada: de 03 a 11 de janeiro de 2026
Horário: Quintas, Sextas e Sábados às 20h | Domingos às 19h
Local: Teatro Casa Grande
Endereço: – Av. Afrânio de Melo Franco, 290/Loja A – Leblon
Duração: 70 minutos
Classificação: 12 anos
Ingressos: a partir de R$60 (meia-entrada)

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