‘Roubo do século’: especialistas afastam uso de IA e explicam fator humano em desvio recorde de R$ 34 bi na Binance
A Binance, maior corretora de ativos digitais do planeta, suspendeu todos os saques de sua plataforma após sofrer uma invasão que resultou no desvio de US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões). O episódio, já considerado o maior crime da história do mercado de criptomoedas, acendeu um alerta global não pela quebra de tecnologias complexas ou uso de Inteligência Artificial, mas pela exploração do elo mais fraco da cadeia de segurança: o fator humano.
Embora os investidores tenham reagido com pânico, especialistas apontam que o núcleo estrutural das moedas virtuais permanece intacto. O diretor de Relações Institucionais da empresa de cibersegurança TI Safe, Leonardo Cardoso, classifica a ação como o “roubo do século” e descarta a hipótese de uma violação na infraestrutura de registros (a blockchain).
— Eu não acredito que a criptografia tenha sido quebrada, isso é praticamente impossível com a tecnologia atual. Na verdade, houve acesso por meio de credenciais válidas, tudo indica que invadiram o computador de um funcionário e a partir daí fizeram as operações — avalia Cardoso.
A dinâmica da fraude impressionou o especialista pela velocidade com que tudo foi executado. Toda remoção do dinheiro virtual ocorreu entre 10 e 20 minutos. Os invasores utilizaram os logins legítimos comprometidos para realizar alavancagens, uma espécie de aposta com dinheiro emprestado pela própria plataforma, e tomaram novos recursos em garantia usando a rede Ethereum.
— A coisa foi muito bem engendrada para a execução ser feita em tempo recorde. O indivíduo alavanca posições, pede empréstimo em uma terceira cripto e, quando a segurança tenta reagir, já não consegue congelar a transação principal, restando apenas o que foi usado como lastro — explica o executivo.
Segurança tecnológica
As investigações preliminares da Binance indicam que o alvo foi o computador de um engenheiro de operações. Como esses profissionais unem o desenvolvimento de software à manutenção da infraestrutura, eles possuem acesso amplo a ambientes críticos, tornando seus equipamentos alvos valiosos para o envio de ordens de saque não autorizadas.
A plataforma já congelou quase metade do volume movimentado e garantiu que um fundo de reserva cobrirá o ressarcimento dos clientes. Para o mercado, o incidente expõe um gargalo crítico na proteção de grandes instituições financeiras.
— O grande paradoxo é que uma empresa investe na casa dos bilhões em tecnologia e, por um simples suborno ou vulnerabilidade, o criminoso acessa credenciais válidas. A partir daí, ele realiza ações que para o sistema são operações totalmente legais, pois usam o login e a senha de quem trabalha lá — destaca Cardoso.
Para mitigar esse risco, além de ferramentas robustas de autenticação em múltiplas etapas, especialistas defendem a adoção de sistemas de monitoramento comportamental. Esses softwares acompanham a rotina dos usuários e disparam alertas instantâneos caso uma conta corporativa realize transferências fora do seu padrão habitual, neutralizando a ameaça antes da liquidação financeira.
O fantasma da IA
O avanço tecnológico exponencial da Inteligência Artificial vem gerando preocupação no mercado financeiro sobre o risco de ferramentas de ponta serem utilizadas para orquestrar ataques cibernéticos em grande escala. No entanto, Marcus Bispo, diretor de tecnologia da Vision Cybersecurity, explica que quebrar a criptografia, mesmo com o uso avançado de IA, é tecnicamente muito difícil.
— No caso da Binance, a empresa disse não ter encontrado evidência de vazamento das chaves privadas. Os caminhos prováveis hoje passam por gestão de identidades, riscos associados a terceiros (cadeia de suprimentos) e vulnerabilidades críticas. A IA pode ter sido usada para tornar a engenharia social mais elaborada ou para automatizar e acelerar técnicas de ataque.
Segundo o especialista, a quebra real da estrutura que protege os ativos digitais, no futuro, pode estar associada à computação quântica. O setor financeiro monitora o chamado “Q-Day”, o momento teórico em que essas supermáquinas terão poder de processamento suficiente para anular a criptografia de chave pública amplamente utilizada hoje.
Especulação e impacto no mercado
O ineditismo da manobra gerou uma onda de choque que derrubou as cotações de todo o setor digital. Após os alertas sobre o ataque, o Bitcoin recuou mais de 4%, caindo para menos de US$ 80 mil pela primeira vez em mais de um mês. A dimensão do pânico levanta dúvidas se as verdadeiras motivações da quadrilha incluíam manipular as cotações para lucrar indiretamente apostando na queda do mercado.
Enquanto a plataforma tenta restabelecer os saques, agências de inteligência buscam o rastro do dinheiro. Empresas especializadas em rastreamento, como a TRM Labs, identificaram características que ligam a invasão a grupos de elite da Coreia do Norte.
A Binance afirmou ter “alto grau de confiança” na tese de envolvimento norte-coreano, conectando o caso ao mesmo grupo (TraderTraitor/Lazarus) responsável pelo sumiço de US$ 1,5 bilhão da concorrente Bybit, em 2025.
Naquele episódio, os hackers conseguiram converter rapidamente centenas de milhões em recursos irrastreáveis, obrigando a corretora a travar uma longa e difícil batalha judicial internacional para recuperar apenas uma pequena fração do prejuízo.

