19 de setembro de 2026
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Há 40 anos fazendo teatro na rua, Amir Haddad defende financiamento artístico direcionado

Criador do grupo ‘Tá na Rua’, que é Patrimônio Cultural do Estado do Rio, afirmou que o financiamento do teatro precisa olhar diretamente para a arte popular

Há uma diferença, para Amir Haddad, entre financiar um teatro que chega à rua e financiar um teatro que pertence a ela. Aos 89 anos e depois de mais de quatro décadas dedicadas a colocar atores em espaços abertos e livres, o diretor entende que essa distinção também deve ser feita pelo poder público. Ele concedeu entrevista à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), onde já pleiteou o avanço de políticas culturais no território fluminense, e defendeu que, neste Dia Nacional do Teatro (19/09), o olhar se volte para a necessidade de criar estruturas de financiamento específicas para a arte popular.

Criador do grupo “Tá na Rua”, que nasceu nos anos 1980, Amir Haddad explica que as iniciativas políticas de incentivo ao teatro não são discriminadas e, por consequência, acabam atingindo quase sempre os espaços fechados. Nos editais, segundo ele, não há diferenciação de recursos pensados especificamente para a arte de rua, que é por essência popular e não tem um público definido. Ao contrário: as suas apresentações acontecem no meio das cidades fluminenses e se comunicam com quem quer que passe.

“O teatro da sala fechada é feito para um público absolutamente homogêneo, composto por pessoas que se vestem igual, usam o mesmo perfume e comem as mesmas comidas. Na rua, você encontra a diversidade humana. Pode ser o cidadão mais intelectual ou uma pessoa em situação de rua. Pode ser uma dona de casa ou uma prostituta. Pode ser uma criança ou um adulto. Você não seleciona a plateia, que é o que a bilheteria faz”, declarou.

É justamente essa diferença que, na avaliação do diretor, as políticas culturais ainda não conseguem enxergar. Para ele, tratar o teatro de rua apenas como uma atividade concebida para uma sala e posteriormente transferida para o espaço público ignora uma linguagem construída a partir do encontro com uma plateia imprevisível. “É uma arte em que o ator precisa buscar recursos dentro de si para dialogar com essa amostra diversa. Por isso, precisamos de políticas públicas próprias para as artes públicas. Todos merecem incentivo, mas os órgãos de governo e as instituições culturais podem diversificar isso”, afirma.

A relação construída pelo “Tá na Rua” com esse público já recebeu reconhecimento do próprio Estado. Em 2011, a Alerj declarou o grupo Patrimônio Cultural do Estado pela Lei 5.886. Como forma de incentivar a arte definida por Haddad como popular em essência, o Parlamento aprovou a Lei 9.944/22, que cria o Programa de Incentivo aos Eventos de Pequeno Porte da Cultura Popular. A norma tem entre seus princípios a democratização do acesso às manifestações culturais e prevê a realização de eventos de pequeno porte em espaços públicos, abertos e sem cobrança de ingresso.

O que é o teatro de rua?

A distinção feita por Amir Haddad entre teatro de rua e teatro levado à rua encontra eco na análise do professor de Literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF) André Dias. Para o pesquisador, quando o teatro deixa a sala e ocupa o espaço público, não é apenas o espaço físico da apresentação que se altera. “A linguagem inteira muda, não só o endereço. Numa sala, há um conjunto de acordos tácitos – onde fica o palco, onde senta o público, quando começa o espetáculo, como se deve reagir. Na rua, boa parte desses acordos simplesmente não existe”, explica.

É nesse espaço sem acordos prévios que a cidade passa também a interferir na cena. O espectador pode chegar no meio da apresentação ou ir embora antes do fim; o trânsito continua, uma criança pode falar durante o espetáculo e o trabalho de quem divide aquele espaço com os atores não é interrompido para que a peça aconteça. “Ocupar a rua de modo bem-feito não é levar para fora o que se faria dentro de uma sala, é deixar que o acaso, o ruído e o movimento da rua componham a cena junto com o ator”, resume André.

O professor, que pesquisa a interface entre Literatura e Teatro, reforça que oferecer gratuidade em salas de teatro não é o suficiente para que a cultura seja de fato democratizada. “Um ingresso de graça não paga duas horas de deslocamento, várias passagens de ônibus, o retorno tarde da noite, ou a sensação de entrar num lugar onde não se sabe se será bem recebido. Pertencimento se constrói com repetição, não com um convite único”, afirma.

A arte nasce com o artista

Para criar a conexão do público com a arte, no entanto, não basta garantir o espaço. O ator, outro agente dessa dinâmica, também vê exigido de si o talento para o improviso e a disponibilidade para ver o roteiro mudar de percurso. E esse componente, segundo André, é parte do que define o teatro popular: “É algo que se verifica no encontro entre obra e público, e não uma etiqueta que se aplica antes desse encontro acontecer”.

Atriz do “Tá na Rua” há 15 anos, Renata Bronze entendeu o que significava o teatro atravessado pelo contato popular durante uma apresentação em Queimados, na Baixada Fluminense. “Por ser uma mulher negra, não me via capaz de interpretar determinados personagens com mais protagonismo, mas aceitei esse desafio. Naquela cidade, me conectei com uma plateia que também se parecia mais comigo”, lembra.

Renata estava interpretando Anastácia, uma mulher escravizada que sofreria uma violência sexual. Na plateia, duas mulheres, também negras, começaram a reagir à cena. “Elas gritavam ‘bate nele’, ‘reage’. Eu me envolvi nessa energia e comecei a lutar cenicamente. No fim, elas mudaram o rumo do que estava no roteiro. Por isso, digo que esse trabalho me faz questionar sobre quem eu sou e onde posso chegar com meu corpo. Ali, caiu a minha ficha do que é ser artista”, conta.

Por isso, Amir Haddad acredita que o efeito de um evento verdadeiramente popular é o crescimento instantâneo daquele que está assistindo. “A pessoa leva para casa tudo: reflexão, pensamento, uma visão inédita de si mesmo que até então ele não tinha tido e passa a pensar o mundo de outra maneira, além de confiança política e social a respeito dele mesmo”, completa.

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