Golpe da Fé: Polícia investiga fraude por banco digital ligado à igreja
A Polícia Civil realiza, nesta terça-feira (18), uma operação para desarticular um grupo especializado em aplicar golpes financeiros e lavar dinheiro por meio de um banco digital falso vinculado a uma igreja evangélica. Segundo a corporação, a quadrilha causou um prejuízo superior a R$ 1 milhão às vítimas e envolveu os clientes em um esquema de pirâmide financeira.
A Operação Golpe de Fé, deflagrada pela Delegacia de Combate às Organizações Criminosas e à Lavagem de Dinheiro (Dcoc-LD), tem o objetivo de cumprir 23 mandados de busca e apreensão – contra pessoas físicas e jurídicas – em endereços na cidade do Rio; em Niterói e São Gonçalo, na Região Metropolitana; em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense; e no município de São Paulo.
A ação busca apreender documentos, dispositivos eletrônicos, mídias de armazenamento, joias, veículos e valores em espécie relacionados aos crimes de estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
De acordo com as apurações, o pastor Roberto Soares – da Igreja Apostólica Vida e Adoração, inicialmente localizada em São Gonçalo e atualmente instalada em Niterói – utilizava sua posição de líder religioso para conquistar a confiança dos fiéis e influenciá-los a investir na plataforma “Gal Invest Bank”, operada pela empresa Grupo América Latina, conhecida entre as vítimas como “Banco do Pastor”.
A promessa feita aos devotos eram rendimentos de, aproximadamente, 10% ao mês dos valores investidos. Após a captação dos recursos, os lucros prometidos deixavam de ser pagos, sob justificativas diversas. Para a especializada, a quadrilha envolveu os clientes em um esquema de pirâmide financeira.
“Consistia no famoso golpe da pirâmide. Ele arrecadava valores com a promessa de devolver e efetuava os primeiros pagamentos. As pessoas se empolgavam e depositavam mais. Depois de passar um certo tempo, os valores eram subtraídos e não voltavam mais para as pessoas. Ele subtraía para si. Na verdade, usava o púlpito como um verdadeiro balcão de negócios”, explicou o delegado Vinicius Miranda, titular da Dcoc-LD.
Foram identificados, até o momento, ao menos sete registros de ocorrência relacionados ao mesmo modo de operação, com prejuízo estimado em R$ 1,1 milhão.
As investigações apontam que o esquema não se limitava à atuação individual dos suspeitos. Há indícios de que o grupo atua de forma estável e estruturada, com divisão de cargos, como: pessoas que conquistam os clientes, operadores financeiros e quem fica com a gestão e circulação do dinheiro das vítimas.
Ainda segundo a Dcoc-LD, a capacidade econômica dos sócios da empresa que opera o suposto banco digital não correspondia ao capital social declarado (R$ 5 milhões). Para os agentes, esse cenário indica a possível utilização de pessoas para ocultar os verdadeiros beneficiários do golpe.
As provas colhidas indicam que o dinheiro captado era direcionado a contas pessoais do líder da organização e de empresas ligadas a eles, entre elas negócios de construção civil, de laboratório, de consultoria contábil e instituições de pagamentos. A Dcoc-LD afirma que se trata de uma rede para a lavagem de dinheiro. Uma “conta de passagem” registrou mais de R$ 5,4 milhões, em operações classificadas como estornos.
A investigação identificou ainda a participação de integrantes do núcleo familiar do pastor. A companheira e o filho dele seriam sócios de empresas usadas para movimentar os recursos e realizar saques de grandes quantias em espécie.
“Identificamos uma série de empresas montadas por esse pastor e seus familiares, pelas quais tentavam ludibriar a polícia e as vítimas para que não alcançassem a origem ilícita desses valores. Hoje, estamos recuperando partes desses valores para compensar as vítimas que sofreram com esse golpe”, contou Miranda.
O delegado Renan Mello, auxiliar da especializada, relatou que, no período de 2020 a 2025, ocorreram movimentações atípicas e suspeitas – do grupo e de pessoas envolvidas diretamente na estrutura – no montante de R$ 8 milhões.
“Esse montante está sendo alvo de bloqueio hoje. A partir desses dados financeiros que essa investigação passa a se desenvolver. Tivemos mandados de busca e apreensão, bloqueio de contas das empresas e de pessoas envolvidas e também o sequestro de alguns automóveis”, destacou.
As diligências seguem em andamento, com objetivo de aprofundar a apuração das conexões financeiras e patrimoniais entre os investigados, identificar outros possíveis envolvidos e recuperar ativos provenientes das atividades ilícitas.

