Recuperação da Baía de Guanabara avança e melhora a vida nos municípios ao seu redor
Com investimentos em saneamento, Águas do Rio já impede que 133 milhões de litros de esgoto por dia cheguem ao ecossistema, contribuindo para a recuperação de rios, praias e comunidades
Por décadas, a Baía de Guanabara foi lembrada mais pelos problemas do que por suas belezas. Cartão-postal cercado por uma das maiores regiões metropolitanas do país, ela se tornou símbolo de um passivo ambiental construído ao longo de gerações. Neste Dia Mundial do Meio Ambiente (5/6), porém, os sinais de mudança são visíveis: ações da Águas do Rio já impedem que 133 milhões de litros de esgoto por dia cheguem às águas da baía, volume equivalente a mais de 53 piscinas olímpicas.
O número ajuda a dimensionar uma mudança que vai além da recuperação de um dos ecossistemas mais emblemáticos do Brasil. Menos esgoto significa mais qualidade ambiental, mais biodiversidade e melhores condições de vida para milhões de pessoas que vivem ao redor da baía. É uma transformação que começa sob o solo, com redes e estações de tratamento, mas se reflete diretamente na paisagem, na saúde pública e na relação da população com a água.
Quem acompanha a Baía de Guanabara há décadas consegue perceber mudanças antes mesmo dos indicadores. É o caso do biólogo Ricardo Gomes, presidente do Instituto Mar Urbano, que vê no avanço do saneamento uma das principais ferramentas para acelerar a recuperação ambiental do ecossistema.
“Não adianta pensar que ‘moro no Leblon, tenho saneamento e o resto do mundo não me importa’. Quando você entra no mar, está todo mundo conectado. Promover o saneamento em regiões onde ele ainda não existe é caminhar na direção correta, na direção de uma ‘saúde única azul’”, afirmou.
Segundo Ricardo, a biodiversidade marinha já sente os efeitos desse processo: “Mergulho na baía desde a década de 80 e é visível as melhorias na qualidade da água. Nunca imaginei que faria imagens do fundo do mar na Praia do Flamengo, nem que faria um mergulho com minha câmera na Praia de Botafogo”, afirmou.
Os benefícios desse processo também chegam ao cotidiano de milhares de famílias. É o que aconteceu com o aposentado Eduardo da Conceição, de 73 anos, morador do Mutondo, em São Gonçalo. Durante anos, ele conviveu com o cheiro de esgoto vindo do Rio Alcântara, um dos principais afluentes da Baía de Guanabara.
“Agora consigo abrir as janelas da casa sem atacar minha alergia. Por esses dias, eu senti um cheiro diferente vindo do rio e era cheiro de anúncio da chuva, que minha esposa disse. Antes da obra, sentir esse cheiro era impensável”, conta.
A mudança veio com a implantação de uma nova rede coletora que passou a atender diversos bairros da cidade. O município também recebeu a primeira etapa de um sistema de coleta que já evita o lançamento diário de 3,5 milhões de litros de água contaminada na Baía de Guanabara.
Uma virada histórica na Maré
Uma das principais frentes de recuperação da Baía de Guanabara está em andamento no Complexo da Maré. Com investimento de R$ 120 milhões, a maior intervenção de esgotamento sanitário já realizada em comunidades cariocas vai beneficiar cerca de 200 mil moradores e impedir que aproximadamente 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês sejam lançados no ecossistema quando estiver concluída, em 2027.
Enquanto as obras avançam, os moradores já percebem mudanças importantes no dia a dia. Além da melhoria das condições sanitárias, as intervenções já reduzem os retornos de esgoto para dentro das residências, um problema que durante anos afetou diversas áreas da comunidade.
A cuidadora de idosos Rosimere Gomes, de 65 anos, acompanha essa mudança de perto. Nascida e criada na Maré, ela conhece de perto os impactos da falta de saneamento. “Essa obra era muito necessária. Já trabalhei para pessoas que tiveram leptospirose. Inclusive, tive um vizinho que faleceu por conta dessa doença.”
Desde novembro de 2021, a Águas do Rio já investiu R$ 6,3 bilhões em melhorias nas 27 cidades onde atua. Parte desse esforço está concentrada na recuperação da Baía de Guanabara. Até 2033, a concessionária prevê investir R$ 19 bilhões em obras e intervenções capazes de ampliar a coleta e o tratamento de esgoto nos municípios que integram sua bacia hidrográfica.
Avanços por todos os lados
Os avanços também se espalham por outras áreas da bacia da baía. Em Mesquita, mais de 15 milhões de litros de água contaminada deixaram de ser lançados diariamente nos rios Dona Eugênia e Sarapuí. Na Ilha do Governador, obras em andamento devem impedir que outros 4,9 milhões de litros de esgoto por dia cheguem às águas da baía até o fim do próximo ano. Enquanto isso, as praias da região já vêm apresentando melhores resultados de balneabilidade. Novas frentes também avançam em Nilópolis e Nova Iguaçu.
Os resultados já podem ser percebidos em locais como as praias do Flamengo e da Glória. Após intervenções que impediram a chegada diária de cerca de 22 milhões de litros de água contaminada à enseada, a Praia do Flamengo voltou a registrar índices históricos de balneabilidade. Em setembro de 2024, o Inea ampliou o monitoramento da região e passou a incluir também a Praia da Glória nas medições. Em Paquetá, investimentos de R$ 26 milhões universalizaram a coleta e o tratamento de esgoto para cerca de 3,5 mil moradores, evitando o despejo anual de aproximadamente 725 milhões de litros de esgoto.
Para o diretor de Operações da Águas do Rio, Diego Dal Magro, esse é um dos maiores desafios ambientais desta geração.
“O impacto vai muito além da baía. O que estamos construindo não são apenas redes, elevatórias e estações de tratamento. Estamos construindo saúde, preservação ambiental e oportunidades para milhões de pessoas. E os maiores beneficiados são justamente aqueles que, por décadas, ficaram à margem dos investimentos em saneamento. Recuperar a baía é também reduzir desigualdades, proteger famílias e criar perspectivas para as próximas gerações”, afirmou.

