4 de junho de 2026
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Obras na Maré são destaque em debate que integra a programação do Rio Nature & Climate Week

Promovido pela Redes da Maré, encontro reforça a importância do diálogo permanente e da transparência para acompanhar as transformações socioambientais em curso no conjunto de favelas

Os impactos do saneamento na saúde da população, na recuperação ambiental e na adaptação às mudanças climáticas foram temas do encontro “Clima e Saneamento na Maré”, nesta quarta-feira (3), na Areninha Cultural Herbert Vianna, na Maré, Zona Norte carioca. O encontro integrou a programação da Rio Nature & Climate Week, realizada na Praça Mauá e voltada à discussão de soluções para as mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável. A atividade reuniu especialistas em meio ambiente, representantes da Águas do Rio, órgãos públicos e organizações da sociedade civil para debater caminhos capazes de enfrentar os desafios socioambientais de áreas populares.

Estiveram presentes integrantes do Ministério do Meio Ambiente, Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Ministério Público do Rio, além das organizações Redes da Maré e Data Labe. Na ocasião, foi reforçada a importância do diálogo permanente e da transparência na execução de projetos com impacto direto sobre a população local. Renan Mendonça, diretor-executivo da Águas do Rio, apresentou o andamento das obras de saneamento em curso na Maré e destacou o papel da infraestrutura básica na promoção da saúde pública e na recuperação ambiental.

Desde novembro, a Maré, maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, vem recebendo um conjunto inédito de obras de saneamento básico da Águas do Rio, considerado o maior já realizado em uma comunidade do estado. O projeto beneficiará cerca de 200 mil moradores e prevê a implantação de 18 quilômetros de redes de esgoto, além da construção de um tronco coletor com 4,6 quilômetros de extensão e 1,5 metro de diâmetro.

Baía deixará de receber 1,3 bilhão de litros de esgoto por mês

Toda a estrutura será conectada à Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Alegria, permitindo que o esgoto, hoje lançado em corpos hídricos da região, passe a receber tratamento adequado. Quando o sistema estiver concluído, no fim de 2027, cerca de 1,3 bilhão de litros de esgoto deixarão de ser despejados mensalmente na Baía de Guanabara, volume equivalente a 520 piscinas olímpicas.

“As obras nas 16 comunidades são complexas, mas estamos preparados para cumprir o compromisso de transformar a vida de quem mora nesse território. Para isso, buscamos parcerias, como a que firmamos com o Sesc/Senac para capacitar trabalhadores da própria região. Estamos presentes para ouvir, dialogar e aprimorar o que for necessário”, destacou Renan.

Ainda segundo ele, os trabalhos avançam em diferentes pontos. Até o momento, foram implantados 3,5 mil metros de redes de esgoto. Os sistemas secundários já chegaram a localidades da Nova Holanda, Rubens Vaz, Parque Maré, Bento Ribeiro Dantas e Baixa do Sapateiro.

Um dos maiores desafios do projeto é justamente levar saneamento aos becos e vielas. Durante décadas, muitas dessas passagens receberam ligações improvisadas que despejavam esgoto diretamente no ambiente, transformando áreas de circulação em corredores marcados pela presença constante de efluentes a céu aberto. Reorganizar essa infraestrutura exige soluções específicas e um trabalho minucioso das equipes em campo.

“Temos uma visão muito clara de que, além dos benefícios diretos para a saúde, essas intervenções impulsionam o desenvolvimento econômico, geram empregos e valorizam o local”, acrescentou Renan.

A utilização de tecnologia não destrutiva na construção da infraestrutura principal do sistema também recebeu destaque durante o encontro. A Águas do Rio está utilizando o chamado “tatuzinho”, equipamento capaz de realizar perfurações subterrâneas sem a necessidade de grandes escavações, reduzindo impactos na rotina dos moradores e acelerando a execução das obras.

As ações na Maré fazem parte do amplo programa de investimentos da concessionária. Em pouco mais de quatro anos e meio, a Águas do Rio investiu R$ 6,3 bilhões em melhorias nos sistemas de água e esgoto, beneficiando milhões de pessoas em 27 municípios fluminenses. Entre os resultados estão a instalação ou substituição de 1.863 quilômetros de redes de água, 296 quilômetros de redes de esgoto e a interrupção do despejo de aproximadamente 133 milhões de litros de esgoto por dia na Baía de Guanabara.

Por meio do programa Vem Com a Gente, a empresa também está implantando redes de água e regularizando o abastecimento de cerca de 60 mil imóveis na comunidade. A iniciativa garante cadastro individualizado, acesso formal aos serviços e possibilidade de adesão à Tarifa Social. Durante a execução das obras, os moradores contemplados pagam uma tarifa reduzida de R$ 5.

Construção coletiva

Na véspera do encontro, grupos de trabalho formados por representantes da sociedade civil se reuniram na Maré para discutir, entre outros temas, os desafios relacionados à ampliação do saneamento básico na região. Os resultados foram apresentados durante o evento por Maria Ribeiro, pesquisadora, estudante de Geografia e integrante do Data Labe.

Para Clara Sacco, cofundadora do Data Labe, além de conectar o saneamento básico à questão climática, encontros como esse também ajudam a ampliar a participação social no acompanhamento de projetos que impactam diretamente a vida dos moradores.

“É fundamental a participação cidadã, pois permite que o território contribua para as decisões, produza dados relevantes e acompanhe os avanços. Isso fortalece o diálogo entre as partes envolvidas e ajuda na construção de políticas públicas.”

Ao final do encontro, os participantes se colocaram à disposição para integrar uma assembleia presencial permanente, a ser realizada mensalmente. A iniciativa tem como objetivo acompanhar a evolução dos indicadores socioambientais da Maré e fortalecer a transparência e o diálogo entre moradores, instituições e empresas que atuam na região.