4 de março de 2026
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Entre o corpo e a mente: a relação invisível da obesidade com a saúde mental

A obesidade é um dos principais desafios de saúde pública do mundo, classificada como epidemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição já afeta mais de 1 bilhão de pessoas, com taxas que praticamente triplicaram desde 1975, atingindo tanto países ricos quanto em desenvolvimento, impulsionada por mudanças no padrão alimentar, no estilo de vida e na atividade física. No Brasil, a condição avançou 118% nos últimos 19 anos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Além dos impactos metabólicos e cardiovasculares, a obesidade também está profundamente ligada à saúde mental. A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), conduzida pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostra maior risco de depressão, ansiedade e baixa autoestima entre pessoas com a condição. Ao mesmo tempo, transtornos psíquicos podem favorecer o ganho de peso, seja pela alimentação emocional, pela redução da atividade física ou até como efeito colateral de alguns medicamentos. Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla que exige cuidado integrado.

Segundo a professora de psiquiatria da Afya Itaperuna, Dra Fernanda Miranda, a obesidade não pode ser atribuída apenas à alimentação inadequada ou à falta de força de vontade. É uma condição multifatorial, que envolve aspectos biológicos, emocionais e sociais. “O corpo possui mecanismos próprios de regulação do peso, influenciados por hormônios e pela genética,responsável por parcela significativa da predisposição individual. Além disso, fatores como estresse crônico, privação de sono, rotina acelerada e maior consumo de alimentos ultraprocessados interferem diretamente no comportamento alimentar “, explica a médica.

Alterações no humor e no sono, por exemplo, impactam o apetite e a sensação de saciedade. Dormir mal pode aumentar a fome; já o estresse, a ansiedade e a depressão tendem a estimular o consumo de alimentos ricos em açúcar e gordura. Nesses contextos, a comida pode assumir uma função de alívio emocional. Embora traga conforto momentâneo, esse padrão pode gerar culpa, frustração e perpetuar um ciclo de sofrimento.

O estigma social relacionado ao peso agrava ainda mais esse cenário. De acordo com a Dra. Renata Caveari,professora de Psicologia da Afya Itaperuna, em uma cultura que associa magreza ao sucesso e autocontrole, o excesso de peso frequentemente é visto como falha individual “Essa percepção reforça sentimentos de vergonha e exclusão, impactando a autoestima e podendo intensificar quadros de ansiedade e depressão. O preconceito também afasta muitas pessoas dos serviços de saúde, dificultando o diagnóstico e o tratamento adequados” afirma a especialista.

Além disso, alguns transtornos psiquiátricos e determinados medicamentos podem contribuir para o aumento de peso, o que reforça a importância de acompanhamento especializado. “Abordagens isoladas tendem a ter resultados limitados. O tratamento mais eficaz envolve atuação multidisciplinar, integrando alimentação equilibrada, prática de atividade física, sono adequado, manejo do estresse e cuidado com a saúde mental” declara a psiquiatra.

Mais do que focar apenas na balança, é fundamental adotar uma abordagem humanizada e centrada na pessoa. Avaliar o contexto emocional e social, reconhecer avanços na qualidade do sono, no condicionamento físico e no bem-estar psicológico são passos essenciais para resultados sustentáveis. Tratar obesidade e saúde mental de forma conjunta é, portanto, um caminho indispensável para romper ciclos de sofrimento e promover saúde de maneira ampla e duradoura.

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