26 de fevereiro de 2026
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Lei Paulo Gustavo: longa de animação cearense tem temática indígena e diálogos em tupi

Com previsão de chegada às telas neste ano, A Lenda de Keya é o primeiro longa-metragem de animação cearense com temática sobre pertencimento indígena e encantados. É pioneiro ainda por trazer diálogos em tupi. A produção foi viabilizada com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG), por meio de edital estadual, e traz no elenco o ator Silvero Pereira, de títulos como Bacurau, que empresta sua voz a um dos personagens.

“Trata-se de um filme importantíssimo sobre resgatar essa nossa percepção de que somos parte dos povos originários e que precisamos construir mais essa conexão para fortalecer nossas identidades, respeito e preservação”, salienta Silvero.

A ideia surgiu em 2020, durante a pandemia da Covid-19, quando o diretor Claudio Martins foi morar perto da Serra da Ibiapaba, no Norte do Ceará, próximo à divisa com o Piauí, onde vivia sua avó materna. “Ela tinha ascendência indígena e só entendi isso depois de adulto. Foi quando me veio uma forte inspiração sobre pertencimento e a busca das raízes de cada um. Ao mesmo tempo, isso me remeteu a uma fase da minha vida, na qual passei por lares adotivos e vi de perto a realidade de crianças que não eram adotadas. Foi um vazio que perdurou. Daí nasceu o personagem principal”, conta ele.

Na história, Ana, dublada pela atriz Itauana Ciribeli, uma menina que não consegue ser adotada, encontra uma tartaruga. Após o animal ser levado por uma ONG, ela foge do orfanato para recuperar o único vínculo que tinha. Ao lado do amigo Iacatan, papel de Silvero Pereira, empreende uma jornada repleta de encantados, mistérios e aventura.

Claudio ressalta a importância de tratar sobre pertencimento. “Falei com algumas lideranças indígenas, que na época diziam sempre que uma vez fruto de uma jabuticaba, esse fruto sempre será uma jabuticaba, independentemente de onde esteja. Procurei me entender e estudar mais, conhecer povos e imergir na cultura originária”, comenta.

Cuidados

A produção foi cercada de cuidados para falar do universo em que se passa o enredo. Teve consultoria do autor indígena e ativista Daniel Munduruku no roteiro e símbolos visuais. Para a criação dos grafismos foram convidados os artistas do povo Pitaguary, Thalia Yanza e Leandro Vieira. Irá contar ainda com a colaboração do povo Anacé Kauype na captação de sons da natureza.

“Tive a preocupação de tratar esse mundo com respeito e responsabilidade. Apesar de ter ascendência indígena, não quis falar sozinho sobre o tema. Busquei apoio de pessoas com conhecimento, vivência e autoridade cultural. O filme é uma ficção, uma fantasia, mas queríamos que tivesse uma base crível e respeitosa”, enfatiza Claudio.

Desafio

Um dos desafios foi traduzir alguns diálogos do português para o tupi. Para isso houve a orientação do professor e doutor Tom Finbow, pesquisador especializado no tema e integrante de grupo de estudos no país. “Em uma parte do filme, os personagens encontram um povo ancestral fictício inspirado em culturas originárias. O tupi  foi escolhido por remeter a um passado profundo do território brasileiro e reforçar a atmosfera simbólica desse encontro. Traduzir diálogos para o tupi é difícil, pois exige base científica e conhecimento acadêmico, porque os contextos culturais e a estrutura da língua são muito diferentes do português”, explica o diretor.

Recurso

Atualmente em fase de transição da produção para a pós, A Lenda de Keya foi contemplado com recurso de R$ 1,4 milhão da LPG, via edital de apoio ao audiovisual do governo cearense.

Segundo Claudio, a Lei foi fundamental para a realização do filme. “Uma animação de longa-metragem demanda tempo, equipe especializada e investimento contínuo. Ela também permitiu desenvolver uma história autoral inspirada no imaginário indígena brasileiro, ao mesmo tempo em que gerou trabalho para artistas e técnicos do estado”, frisa.

Silvero Pereira destaca a importância da LPG para o setor audiovisual no país. “Esse é o segundo trabalho do qual faço parte e que tem incentivos da Lei Paulo Gustavo. O primeiro foi Cruz para Quem Merece, filmado em Piripiri, no Piauí, e agora, no Ceará, A Lenda de Keya. Ambos os projetos foram capazes de me aproximar mais de culturas e artistas locais e ver de perto que essa Lei tem sido fundamental no fomento de novas produções”, observa o ator.

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