2 de fevereiro de 2026
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O valor do simbólico em tempos de urgência

*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista.

Trocar o monumento ao trabalhador, desenhado por Oscar Niemeyer, por um poste porta-câmeras é, em si, um ato rude e grotesco. Retrata o quanto o utilitarismo domina as decisões sobre o destino e a gestão dos bens de uso comum do povo por aqui. Vale a necessidade do momento. O impulso ultrapassa a razão. Desabriga-se o simbólico e aloja-se, em seu lugar, uma urgência qualquer, de última hora.

Pouco importa se as novas tecnologias embarcadas no poste, agora monumento, não indiquem ser indispensável um CEP específico para tais câmeras. Muito ao contrário, elas impõem, na verdade, a necessidade de uma distribuição espacial ampliada desses equipamentos, capaz de elevar de forma consistente a qualidade dos serviços de segurança pública na região. A rede, no caso, ficou muito mais importante do que os pontos. Ou, melhor, do que os postes.

Não era necessário derrubar a obra de um dos mais celebrados arquitetos do mundo para instalar tais câmeras. Naquela encruzilhada não faltam oportunidades. Eleger apenas aquele local como alternativa combinou prepotência com preguiça, justificando-se a economia de alguns caraminguás como se valesse a pena desfazer-se de um monumento com grife, numa cidade carente de bons exemplos de arquitetura.

Um colega chegou a dizer: “numa região cheia de pórticos de gosto duvidoso, foram derrubar logo o monumento de dimensões despretensiosas e nada vulgar”. Outro, por sua vez, afirmou não ter a obra conseguido se transformar em patrimônio ativo no imaginário da população da cidade. A primeira afirmação, em certa medida, responde à segunda. E ouso complementar, lembrando o papel das obras de arte na construção da identidade e do significado dos lugares.

Não era obra tombada. Razão, então, para tombá-la literalmente? Esquece-se que um singelo exemplar do gênio de Niemeyer, por pior que seja, contribui muito mais para a qualificação da paisagem urbana do que um poste travestido de modernidade. Por melhores que sejam as intenções acopladas ao poste, ele seguirá sendo um poste. Enquanto isso, o monumento ao trabalhador transforma-se em escombro, prova inequívoca do escambo de significados dos tempos atuais.

“Vade retro”, ignorância. A desse tipo nem Deus costuma perdoar.


*Vicente Loureiro, arquiteto e urbanista, doutorando pela Universidade de Lisboa, é autor dos livros Prosa Urbana e Tempo de Cidade