Mês de janeiro testa orçamento das famílias e expõe desafios do planejamento financeiro
IPTU, IPVA , matrículas escolares e fatura do cartão pesam no bolso; especialistas orientam e consumidores relatam dificuldades
Após o período de festas de fim de ano, é comum que muitos brasileiros se vejam desesperados com as contas que chegam em janeiro. Mesmo sendo um mês tradicionalmente associado às férias, as despesas continuam aparecendo e, sem organização, o estresse aumenta. Por isso, O DIA conversou com especialistas e órgãos públicos para ajudar você a se planejar com antecedência e evitar pagamentos em atraso, que podem gerar juros.
Entre os principais gastos de início de ano estão as matrículas de escolas e universidades, além dos materiais obrigatórios, que não costumam ser baratos. Em meio ao turbilhão de contas, é essencial que os responsáveis estejam atentos aos seus direitos para não serem enganados ou caírem em golpes.
A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor (Sedecon), por meio do Procon Carioca, explica que, caso haja reajuste nas mensalidades escolares, as instituições são obrigadas a apresentar ao contratante uma planilha com as justificativas do aumento.
“O reajuste deve ser calculado com base nas necessidades específicas de cada instituição, levando em conta fatores como aumento salarial de professores e funcionários, custos administrativos e demais despesas operacionais. Para explicar esses acréscimos, os colégios são obrigados, no ato da matrícula ou rematrícula, a apresentar ao responsável uma planilha detalhada do contrato, esclarecendo os critérios propostos para a elevação dos valores”, afirmou o Procon Carioca por meio de nota.
Em relação aos materiais obrigatórios, a secretária ressalta que as escolas não podem exigir itens de uso coletivo, como papel higiênico, copos auxiliares, giz de cera para uso comum, canetas para quadro e similares — apenas de utilização individual em quantidade razoável.
“É vedada a imposição de marcas específicas ou a obrigatoriedade de compra do material diretamente na escola. Em relação aos uniformes, a exigência de compra no próprio colégio só é permitida quando a instituição é a única fornecedora. Já o material didático só pode ser de aquisição obrigatória no local quando se trata de conteúdo de produção própria, como ocorre em instituições que trabalham com métodos exclusivos”, esclarece o órgão.
Viviane Leobino, de 42 anos, moradora de Niterói, na Região Metropolitana do Rio, e mãe de Murilo, de 11, afirma que o início do ano costuma ser um período complicado, já que os gastos com a escola pesam no orçamento. Ela conta que sempre precisa se organizar para arcar com as despesas.
“No início do ano a preocupação é grande, porque tudo se acumula ao mesmo tempo. Além das contas mensais normais, ainda surgem outras despesas importantes, como as contas da casa, IPVA, IPTU e até os gastos do fim de ano, que ainda pesam no orçamento. A isso se somam as despesas escolares, como matrícula, material novo, livros e tudo o que a escola pede. Então é realmente um período em que as contas se acumulam e acabam pesando”, explica.
Segundo ela, muitos dos materiais pedidos sequer chegam a ser utilizados ao longo do ano, o que aumenta ainda mais a sensação de desperdício e de cobrança indevida para as famílias.
“Já faz tempo que sigo o hábito de comprar apenas o necessário e deixo para adquirir o restante somente se o colégio solicitar depois. Assim, evito gastar dinheiro com coisas que provavelmente não seriam utilizadas. Quando sobra material, minha primeira reação é guardar para ver se ainda vai ter alguma utilidade. Mas, geralmente, no fim do período letivo, separo o que realmente pode ser reaproveitado e o restante descarto ou destino para doação”, diz Viviane.
A Autarquia de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado do Rio de Janeiro (Procon-RJ) alerta que, nos casos de inadimplência, a instituição de ensino só pode recusar a renovação da matrícula do estudante se essa decisão for tomada ao fim do período letivo.
“Durante o período letivo em curso, a instituição não pode impor qualquer tipo de sanção pedagógica em razão da inadimplência. São proibidas medidas como impedir a realização de provas, suspender de atividades escolares, restringir o acesso a serviços educacionais ou reter documentos. Também é vedada a rescisão contratual por falta de pagamento enquanto o período letivo estiver em andamento”, esclarece o órgão.
Além das despesas com educação, o mês de janeiro também marca o vencimento de impostos importantes, que exigem atenção redobrada para evitar juros e multas. Com o orçamento já pressionado pelos gastos do fim de ano, é fundamental conhecer prazos e condições de pagamento para não começar o ano no vermelho.
Impostos também pesam no orçamento de janeiro
O Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) costuma ser uma das principais preocupações dos donos de automóveis no início do ano. O atraso no pagamento pode gerar multas, juros e até a apreensão do veículo.
A Secretaria da Fazenda do Estado do Rio de Janeiro explica que o valor do IPVA é calculado com base no preço dos veículos divulgado pela Fundação Instituto de Pesquisa Econômicas (Fipe).
“Vale ressaltar que não houve reajuste das alíquotas por parte do Governo do Estado, que permanecem sendo de 4% para carros flex, 2% para motos, 1,5% para carros movidos a Gás Natural Veicular (GNV) e 0,5% para veículos movidos exclusivamente a energia elétrica. O desconto para contribuintes que quitarem o imposto à vista é de 3% e também não passou por mudanças”, informou a pasta.
Ana Cristina Carneiro, de 48 anos, moradora de São Gonçalo, conta que se programa todos os anos para pagar o IPVA, mas acaba sempre se enrolando devido ao “turbilhão” de contas que surgem em janeiro.
“Início do ano é sempre muito complicado no meu planejamento financeiro. Por ser trabalhadora autônoma, não tenho direito ao 13º salário, o que me impede de ter uma reserva exclusiva para essas despesas. Quando chegam os impostos, como o IPVA, entro em desespero”, relatou.
Ela acrescenta que, além de buscar economia com o GNV, decidiu instalar o kit também por causa da redução no imposto. “Quando descobri que havia um desconto grande para veículos a gás, me organizei e parcelei a prestação, porque sabia que valeria a pena. Para ser sincera, só com o desconto no IPVA de um ano já recuperei praticamente todo o investimento”, frisa.
Outra conta que também preocupa os brasileiros é o Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU). O tributo é calculado a partir da definição do valor venal do imóvel, uma estimativa do preço de mercado realizada pela prefeitura. Esse valor, que geralmente é inferior ao de mercado, considera fatores como localização, tamanho, idade, padrão construtivo e uso do imóvel, sendo utilizada a Planta Genérica de Valores (PGV) como base para a avaliação.
Vale ressaltar que se trata de um tributo anual em que cada prefeitura define as regras de cobrança, pagamento e comunicação com os contribuintes. No município do Rio de Janeiro, as alíquotas são de 1% sobre o valor venal dos imóveis residências e 2,5% sobre os comerciais. Além disso, terrenos não edificados possuem taxação de 3%. Os que optarem pelo pagamento em cota única garantem o desconto de 7%, mesmo percentual concedido em 2025, podendo ser pago até 6 de fevereiro de 2026.
Na cidade do Rio, aposentados ou pensionistas com mais de 60 anos podem obter isenção do IPTU, desde que se enquadrem nos critérios econômicos estabelecidos pela Prefeitura. Para o benefício, o contribuinte não pode receber mais de dois salários mínimos, deve ter apenas um imóvel, utilizá-lo como residência e possuir área de até 80 metros quadrados.
Adelma Gomes Corrêa, de 82 anos, relata que não considera o valor do imposto justo, já que, segundo ela, as autoridades não realizam as reformas e manutenções necessárias na cidade onde ela mora, Niterói.
“Só levam em consideração o bairro onde está localizado o imóvel como, por exemplo, Icaraí, cujo preço é mais elevado. No entanto, não observamos as melhorias necessárias para os problemas existentes, não só os crônicos, como ruas esburacadas e calçadas desniveladas, mas também como os novos que surgem. Assim, a arrecadação acaba não sendo utilizada para conservação e melhoria do bairro”, disse.
Ela acrescenta que tem como hábito se organizar financeiramente com antecedência para efetuar o pagamento do IPTU à vista: “Não consigo entender o sistema adotado, já que todo pagamento de qualquer natureza efetuado em uma única parcela costuma ter um desconto considerável. Entretanto, no IPTU isso não ocorre. O desconto é muito reduzido. Mesmo assim, prefiro pagar à vista para evitar parcelas futuras.”
Os altos valores das despesas de fim e de início de ano, que se acumulam, geram dívidas expressivas para muitos brasileiros. Sem organização adequada, os prejuízos podem ser ainda maiores. Por isso, a reportagem de O DIA conversou com economistas para explicar como se planejar corretamente e evitar futuros problemas financeiros ao longo do ano.
Confira orientações de especialistas
Mestre em Finanças pela Universidade de Sorbonne, na França, Hulisses Dias explica que o principal desafio de janeiro é o choque de caixa provocado pela concentração de grandes despesas.
“O início do ano funciona como um tsunami financeiro, em que as contas fixas e obrigatórias, que já existiam, são somadas a reajustes e a gastos sazonais, como IPVA, IPTU e matrículas escolares. Muitas famílias já chegam a janeiro com o orçamento apertado, reflexo dos gastos de Natal e Ano Novo, frequentemente parcelados no cartão de crédito”, afirmou.
Segundo ele, as faturas dos cartões nos primeiros meses do ano já vêm infladas pelos gastos de dezembro, o que eleva o custo de vida geral da família e, em muitos casos, leva ao pagamento do valor mínimo ou ao parcelamento da fatura, empurrando o consumidor para o temido rotativo. Para lidar com essas despesas, o especialista elenca algumas orientações.
“É importante nunca pagar o mínimo da fatura. A melhor prática é buscar uma taxa de juros menor. Se a dívida for pequena, vale tentar um empréstimo pessoal consignado ou o crédito direto na conta bancária, que geralmente têm taxas menores que o rotativo do cartão. Se o valor for mais elevado, a portabilidade pode ser uma alternativa. Outra estratégia é guardar o cartão de crédito em um local de difícil acesso ou solicitar o bloqueio temporário até que a dívida seja equacionada. Isso impede que o débito aumente enquanto você tenta quitá-lo. Para quem recebe o 13º salário, o ideal é usar a primeira parcela para a quitação dessas dívidas, ou, ao menos, reservá-la para o pagamento dos impostos de janeiro”, explicou.
O economista André Mirsky também passou orientações sobre como organizar o orçamento no início do ano para evitar o endividamento. Confira algumas dicas:
– Fazer um diagnóstico rápido das contas: levantar todos os compromissos fixos de janeiro a março.
– Priorizar despesas obrigatórias: tributos, aluguel, escola e contas essenciais.
– Evitar parcelar no cartão o que já é parcelado pelo governo, isso só multiplica o risco de uma bola de neve.
– Renegociar antes de atrasar: concessionárias, escolas e seguradoras costumam oferecer condições melhores antes da inadimplência.
– Rever gastos discricionários: janeiro não é mês de aumentar despesas; é mês de reorganizar as finanças.
– Criar um “fundo de janeiro” para os próximos anos. Guardar pequenos valores ao longo de 2026 evita a tensão típica de início de ano.
– Reservar uma parte do décimo terceiro ainda de 2025 para essas despesas.
Mirsky acrescenta que também é fundamental estabelecer metas financeiras claras, como investir mensalmente, reduzir dívidas, melhorar o score de crédito, construir patrimônio e revisar os chamados “gastos invisíveis”. De acordo com ele, a principal prioridade do brasileiro deve ser sair do modo reativo, no qual o consumidor sempre corre atrás das contas, e entrar no modo planejado, em que as despesas são conhecidas e distribuídas ao longo do ano.
Com os impostos, reajustes e despesas concentrados no início do ano, o orçamento das famílias costuma ser colocado à prova. Para especialistas, a diferença entre passar janeiro no aperto ou com mais tranquilidade está em um planejamento eficiente, escolhas conscientes e pela antecipação de gastos que se repetem todos os anos.

