Tulio liga demissão no Botafogo à pressão externa e aponta: “Rebaixado com 20 rodadas”

Foi curto e intenso o retorno de Tulio Lustosa ao Botafogo. Contratado em outubro passado como gerente de futebol, o ex-jogador chegou com o sonho de ter tempo para trabalhar na reconstrução do clube, mas foi cortado no meio da crise provocada pelo rebaixamento à Série B do Brasileirão.

Ao ge, o dirigente deu a própria versão dos fatos que ocorreram nos últimos quatro meses. Da dificuldade de gerir o elenco até as demissões de Bruno Lazaroni e Ramón Díaz. Mas a começar pela própria demissão, vista por Tulio como resultado de pressão externa, e não avaliação do trabalho.

– Estava participando ativamente do planejamento para a próxima temporada. Todo mundo sabia que era uma situação difícil. Eu sempre deixei o presidente à vontade caso quisesse fazer alguma mudança nessa área, e ele sinalizou que não, que a intenção era permanecer, iniciar o planejamento – disse.

– Quando o time não esboçou nenhum tipo de reação, de mudar atitude, dar algum alento ao torcedor… Isso não aconteceu, e a pressão externa ficou cada vez maior. Infelizmente, a pressão externa determina muita coisa na vida de um clube de futebol – completou.

São muitos os motivos que levam a entender a queda do Botafogo para a segunda divisão. O principal deles é a falta de planejamento com os inúmeros erros do comitê executivo de futebol. Na opinião do ex-gerente, as “trapalhadas” extracampo serviram de muleta para o elenco, que jogou a toalha muito antes do rebaixamento ser concretizado.

“O rebaixamento não foi com quatro rodadas de antecedência, foi com 20. Eu nunca vi isso”.

Tulio Lustosa foi gerente de futebol do Botafogo por pouco mais de quatro meses — Foto: Vitor Silva/Botafogo

Tulio assumiu como gerente do Botafogo em 1º de outubro. Em quatro meses, encontrou problemas financeiros e administrativos e contratou apenas três reforços: Zé Welison, Angulo e Cesinha. Também deixou outro encaminhado para 2021: o atacante Ronald.

No mesmo período, três treinadores passaram pelo clube: Lazaroni, Ramón e Eduardo Barroca, em decisões que também geraram divergência interna, revelou o dirigente. Agora longe de General Severiano, Tulio vê a necessidade de uma reconstrução urgente para que o Botafogo recupere sua imagem perante os adversários e os profissionais do meio do futebol.

– O Botafogo precisa recuperar uma coisa que está perdida há muito tempo, que é a credibilidade. Se a gente entra numa disputa até com clubes menores por um atleta, a gente perde – lamentou.

Leia a entrevista completa:

Qual foi a justificativa da diretoria ao informar a sua demissão?

– No fundo, não sei qual é o motivo a não ser a pressão externa. E não falo isso para constranger o presidente de forma alguma. E eu evitei constrangimento. Agradeci a oportunidade, entendi o lado deles. Eu disse essas palavras: “O ideal é que o clube seja gerido de dentro para fora, mas isso é o ideal e não o real”. Muitas decisões internas são baseadas no exterior, na cobrança que existe, na opinião do torcedor, nos influenciadores digitais…

– Agradeci e desejei sorte no andamento do trabalho. Desejei sorte ao Freeland também. O trabalho de um executivo será fundamental, e eu gostaria de ter tido essa oportunidade de começar o trabalho. Não dou desculpa, mas não dá para avaliar o meu trabalho em quatro meses. Não posso ser avaliado pelo resultado dentro de campo de um plantel que eu não montei.

A demissão do Barroca foi pelo mesmo motivo?

– Sou muito criticado pela minha escolha com o Barroca e fiz questão de pedir desculpa a ele. Sabia que era uma missão difícil, e ele sai manchado por um trabalho em que ele fez de tudo, mas não conseguiu. E acho que nenhum outro treinador conseguiria, nessas circunstâncias.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

– Não é falta de compromisso de atleta, nada disso, mas caiu uma depressão coletiva que eu nunca vi na minha carreira. Tentamos de tudo, de palestra motivacional a concentração, mobilização. Mas não tivemos resposta nenhuma.

O que foi mais decisivo para o rebaixamento do Botafogo?

– Aconteceu de tirar a responsabilidade do atleta e dar uma desculpa pronta, como a constante troca de treinador. Vários comandos foram colocados. E, quando ainda faltavam 18 partidas, os atletas já estavam com desculpa pronta para o rebaixamento. Que o comitê de futebol errou, tomou decisões que eles não estavam de acordo. Demos a muleta para eles. O rebaixamento não foi com quatro rodadas de antecedência, foi com 20. Eu nunca vi isso.

– Tem a culpa da diretoria, por permitir essa constante troca de técnicos, mas faltou liderança entre os atletas para assumir o que estava acontecendo dentro de campo. Não tivemos isso.

Túlio Lustosa disse que elenco do Botafogo aceitou o rebaixamento muito antes da concretização — Foto: Vitor Silva/Botafogo

O problema era maior do que imaginava?

– Eu imaginava dificuldades, mas vi questões básicas. Não tinha a figura do executivo, então não tinha uma pessoa responsável nem pela inscrição de atletas, de determinar. Quando eu cheguei, tinham 38 jogadores inscritos, mas seis trocas, por exemplo. Nem esgotaram o limite de inscrição, mas fizeram trocas por atletas que saíram. Não é o correto e limitou o nosso trabalho. Até isso, que é bem básico, não foi feito. Quando pensei na contratação de alguns atletas, me deparei com isso.

Há muitas críticas não só à qualidade, mas à inexperiência do elenco. Concorda?

– Nem vou entrar no mérito da qualidade do elenco. O que mais me deixou abismado foi a falta de critério para a formação do elenco. O plantel tem que ser formado levando em conta alguns critérios, entre eles a experiência dos jogadores. Não chegou um atleta com liderança dentro de campo, um capitão que comandasse. Alguns assumiram esse papel durante o campeonato, mas não foi o ideal. Várias reuniões que a gente fazia, parecia muito mais uma palestra, porque não tinha o feedback dos atletas, não sabíamos o que eles estavam pensando.

Como era a relação com o antigo comitê de futebol?

– Era uma relação profissional, mas me incomodava que algumas situações que era para dar liberdade para o executivo, não era dado. Eu até me sentia ouvido, eles levavam a minha opinião em consideração, mas eu pedi para eles jogarem essa responsabilidade para mim. Porque eu estava no dia a dia e até para eles próprios se preservarem.

– Por exemplo, a demissão ou não de um técnico. Quem tem que decidir é o executivo de futebol, e não outro dirigente que até não poderia estar no dia a dia por conta da pandemia.

Foi o que aconteceu na demissão do Bruno Lazaroni?

– Eu fui totalmente contra, porque o Bruno fazia parte do trabalho desde o início do ano. Quando o Paulo Autuori saiu do clube, ele sabia qual era a ideia para aquele elenco. O comitê foi determinante, tomaram a decisão pautado em rede social. Houve uma mobilização, não posso dizer que da torcida do Botafogo, mas de parte, que perturba o dirigente, invade o celular com ameaças, pichação em muro de dirigente… Quem não está preparado, vai ceder a essa pressão.

– Quero ver se alguém que foi favorável à demissão do Bruno vai se pronunciar, dizer que errou. Ninguém. Quem é o culpado é quem tomou a decisão de tirar o Bruno, tem que carregar essa culpa. Quando a gente cede a pressão de rede social, mostra que não tem um planejamento definido e convicção no que está fazendo. Para montar um elenco e contratar um treinador, precisa de convicção, de metas. Não pode se perder pelas primeiras críticas.

Pelo que viu de dentro, o que espera do futuro do Botafogo?

– Não vim para cá achando que o Botafogo seria campeão brasileiro nem no primeiro, no segundo ou no terceiro ano. O Botafogo precisa recuperar uma coisa que está perdida há muito tempo, que é a credibilidade. Se a gente entra numa disputa até com clubes menores por um atleta, a gente perde. Porque tem o receio do atleta e do representante de vir para o clube.

– É o mesmo com investidores. Não adianta o Botafogo querer se transformar em empresa se não recuperou a credibilidade. Minha fala com o presidente Nelson e com o presidente Durcesio foi sempre essa, de recuperar a credibilidade do clube. Falei com o presidente Durcesio que ele não pode pensar só em título, precisa pagar um preço para recuperar o clube, diminuir a dívida, honrar contratos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: