Três reforços, atritos internos e cobranças da torcida: Tulio ultrapassa 100 dias de Botafogo

Contratado em 1º de outubro de 2020 para ser o novo gerente de futebol do Botafogo e substituir o Comitê Executivo de Futebol, Tulio Lustosa ultrapassou a marca de 100 dias no clube. O trabalho divide opiniões, e o dirigente ficou encarregado de “apagar incêndios” nos últimos meses. Com a contratação de apenas três atletas, o ex-jogador conviveu com três técnicos no período e tem tentado reverter o estado de apatia que tomou conta do elenco nos últimos jogos.

Túlio Lustosa ultrapassou marca de 100 dias pelo Botafogo — Foto: Vitor Silva/Botafogo

Contratações e tentativas frustradas

Desde que Tulio assumiu o cargo de gerente de futebol, o Botafogo contratou cinco jogadores, mas o dirigente foi responsável por apenas três negociações: Éber BessaAngulo Zé Welison. O meia Cesinha e o atacante Kelvin, que chegaram no período, vieram por definição do Comitê de Futebol.

As apostas de Tulio não surtiram o efeito esperado. O meia ofensivo Éber Bessa fez sete jogos pelo Botafogo, sendo somente um como titular. Nos outros, entrou no segundo tempo e não conseguiu melhorar a postura do time. Perdeu seis e empatou um. A leitura é de que o atleta, que passou os últimos seis anos em Portugal, não conseguiu se readaptar rapidamente ao futebol brasileiro.

Com Angulo, o Botafogo não teve sorte. O atacante, emprestado pelo Palmeiras, fez apenas duas partidas com a camisa alvinegra. Na estreia contra o Ceará levou dois amarelos e foi expulso. Depois entrou no segundo tempo da eliminação para o Cuiabá na Copa do Brasil. Desde o dia 13 de novembro, o colombiano se recupera de lesão muscular na coxa.

O acerto está na vinda de Zé Welison. A contratação, que gerou críticas no início, mostrou ter sido bola dentro com o passar dos jogos. O atleta preencheu bem a carente posição do primeiro volante e tem sido um dos jogadores mais regulares do Botafogo.

Se trouxe apenas três reforços, Tulio tentou outras negociações que não tiveram finais felizes. A principal investida foi em Ronald, atacante do Botafogo-SP. O time carioca tentou de todo jeito convencer o xará, mas não conseguiu a liberação do atleta. Bismark, do Al Qadisiyah (Arábia Saudita), chegou a fechar com o clube, mas foi descartado. O Bota ainda tentou o volante Jonas, mas esbarrou em questões burocráticas.

Troca de técnicos e atritos internos

Em meia à busca por reforços e à reestruturação do departamento de futebol, Tulio Lustosa enfrentou duas trocas no comando técnico do Botafogo. O gerente foi contratado ao mesmo tempo em que Bruno Lazaroni foi efetivado treinador. Depois de 27 dias, o ex-auxiliar foi demitido.

Decisão que não agradou Tulio. O ge apurou que o dirigente, entre outros membros da diretoria, foi contrário à demissão de Lazaroni e tentou fazer com que integrantes do Comitê de Futebol mudassem de ideia. Em vão. Conseguiu segurar a definição para o dia seguinte, mas havia sido avisado já no intervalo do confronto com o Cuiabá, pelas oitavas de final da Copa do Brasil, que o comandante sairia.

O técnico deixou o time com um aproveitamento de mais de 50% no Brasileirão e, apesar de ter perdido o primeiro jogo para o Cuiabá, teria uma semana para tentar reverter o placar em casa, fato que não aconteceu já sob o comando interino do preparador de goleiros Flavio Tenius. Das quatro vitórias que o Bota tem no campeonato nacional, duas foram com Lazaroni.

Túlio Lustosa não concordou com demissão de Bruno Lazaroni — Foto: Vitor Silva/Botafogo

A busca pelo substituto de Bruno Lazaroni também gerou debates internos. A prioridade de Tulio era contratar um técnico brasileiro e com experiência para controlar o elenco alvinegro em momento de queda na temporada, mas outros dirigentes focaram numa figura estrangeira. Depois de tentar Cesar Farias, o Botafogo chegou ao nome de Ramón Díaz. Outro golpe de azar.

Prestes a assinar com o clube, o argentino descobriu um tumor que precisaria operar nos dias seguintes e deixou o filho e auxiliar Emiliano Díaz a cargo dos primeiros treinos e jogos. Após três derrotas em três partidas e sem nem ter estreado, Ramón foi dispensado. O episódio gerou desgaste entre clube e equipe do profe. De novo, Tulio não aprovou a saída dos argentinos no primeiro momento, mas alegou ter concordado após saber do estado de saúde não tão simples do técnico.

Agora, Tulio se une a Eduardo Barroca para tentar mudar o rumo do Botafogo, prestes a ser rebaixado. O técnico tem seis derrotas e apenas uma vitória nessa segunda passagem pelo clube, mas conta com o respaldo da diretoria e do gerente de futebol. Desde que chegou, Tulio acompanhou a todos os treinos do Bota e acredita no trabalho do novo técnico, principalmente se ele tiver confiança no longo prazo.

Críticas e cobranças externas

Internamente, o trabalho de Tulio mais agrada do que desagrada. Há opiniões contrárias à atuação do dirigente, mas ele ganhou apoio da nova diretoria. Durcesio garantiu o gerente até pelo menos o fim do Brasileirão e ainda vão conversar sobre a próxima temporada. Tulio tem auxiliado o presidente no planejamento para 2021 e nas definições internas, como broncas e cobranças ao elenco. Juntos têm pensado em ações motivacionais para alcançar a remotas chance de permanência na Série A.

Com posição de destaque como ex-jogador do Botafogo, o dirigente é respeitado pelos jogadores, mas a relação com o elenco é estritamente profissional. Ainda com pouca vivência na função de gerente de futebol, Tulio precisa tomar decisões a todo momento em um clube cheio de dificuldades. O profissional tem atuado também como “bombeiro”, e as situações difíceis do Botafogo aumentam sua experiência para tentar unir e ganhar a aceitação do futebol alvinegro.

Fora do clube, a rejeição ao nome de Tulio é maior. Nas redes sociais, alguns torcedores pedem a saída do gerente e avaliam mal o trabalho feito nesses mais de 100 dias. Porém, cobranças externas não devem mais ganhar tanto peso dentro de General Severiano. Se em muitos momentos desta temporada a opinião da torcida foi suficiente para mudanças no Botafogo, Durcesio e Tulio garantem convicções para suportar a pressão.

Cobrança chegou ao Muro dos Ídolos do Botafogo, e homenagem a Túlio Lustosa foi apagada  — Foto: Davi Barros/ge

Há aproximadamente uma semana, a cobrança chegou ao Muro dos Ídolos de General Severiano. No dia 7 de novembro, a homenagem feita a Túlio Lustosa foi apagada. O ex-jogador disse ao ge na ocasião que ficou triste com o episódio, mas não se deixaria abalar.

– Sou ser humano, fico triste. Não é natural, mas eu entendo que não parte de toda a torcida. A única coisa que posso dizer é que tenho minha consciência de que sempre vesti com muita honra essa camisa, tenho orgulho de tudo o que fiz. Não abala meu sentimento de dever cumprido como jogador. Não vou apresentar justificativa pro meu trabalho, o campeonato ainda não acabou, mas eu assumo qualquer responsabilidade do meu trabalho.

Tulio Lustosa terá pelo menos mais 40 dias para ajudar o Botafogo. Em breve, o gerente terá a companhia de um diretor de futebol, que está em fase final de ser contratado pela diretoria, e junto a ele continuará o planejamento para a próxima temporada, que já começa em 28 de fevereiro com o Campeonato Carioca. Enquanto isso, ele segue tentando chacoalhar o elenco em busca de melhores desempenhos e de uma reação milagrosa que pode salvar o clube.

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