Transição capilar: mulheres aproveitam a quarentena para reconstruir a própria autoestima

Segundo especialistas a dica para não surtar é usar esse período de isolamento social, – imposto pela pandemia do novo coronavírus – para buscar o auto conhecimento. E  tudo indica que para muitas mulheres essa mensagem refletiu na estética, com a aceitação e redescoberta de suas raízes. Literalmente. As raízes crespas, onduladas e encaracoladas estão sendo liberadas para crescerem sem o famoso formol. Se em 2003 o assunto mais dito no mundo da beleza era a inovadora escova japonesa, que alinhava todos os fios, com um alisamento quase perfeito, em 2020 o assunto do momento é transição capilar. 

E foi após passar pela própria transição capilar que a jovem gonçalense Suzana Brito, de 23 anos, se especializou em tratamentos sem químicas para cabelos naturais. Mas, foi no início da quarentena que a profissional foi descoberta e, em menos de quatro meses, viu sua agenda lotar diariamente por mulheres que querem descobrir suas verdadeiras raízes.  

“Eu tenho 32 anos e percebi que não sei como é meu cabelo de verdade. Antes de alisar eu fazia relaxamento. Usava o cabelo enrolado, mas com os cachos controlados, a raiz esticada pela química. Logo quando cheguei na adolescência foi o momento de alisar. E segui até então, sempre buscando uma perfeição que não era do meu cabelo. Sou negra, empoderada e sem perceber rejeitava uma parte tão importante em mim. Eu buscava um alinhamento que meu cabelo não tem. Ele é  cacheado, volumoso e eu estou doida para ver como realmente é o cabelo que Deus me deu”, contou a assistente social Rebeca dos Santos, que começou a transição capilar durante a quarentena. Suzana atende com hora marcada e segue as recomendações do Ministério da Saúde

E são histórias como essa que a Suzana escuta diariamente nos atendimentos domiciliares, de segunda a quarta, e no salão, de quinta a sábado. “Não é raro ver mulheres chorando quando acabamos de fazer o primeiro corte e os cachinhos da raiz começam a aparecer. E muitas vezes eu choro junto,  porque percebo o renascimento. Esse boom da transição na pandemia mostrou que muitas de nós ficamos mais preocupada com o outro do que com a gente. Muitas mulheres, mesmo insatisfeitas, mantinham o alisamento para ficar arrumada para o outro. Agora, sem sair de casa, elas estão se permitindo ser quem são. A fase da transição realmente não é fácil, já que o cabelo fica com duas texturas, mas com tratamentos corretos, finalizações e alguns truques a gente consegue fazer com que o cabelo alisado ganhe textura e se aproxime da aparência da raiz que está crescendo”, contou a profissional. 

Suzana passou pela própria transição no período da faculdade de engenharia e ficou um longo ano tentando entender como cuidar do cabelo sozinha, já que não tinha profissionais na região que atendessem cabelos reais. “A gente escuta muitos relatos de mulheres cacheadas que vão a salão e escutam que o creme é só para soltar os cachos. E nisso, recebe a química do relaxamento na cabeça. Profissionais que tratasse sem passar química não tinha por aqui e eu fui me especializando para cuidar do meu próprio cabelo”, contou. 

Suzana gosta de cuidar dos cabelos desde criança e aos 13 anos passou a fazer escovas para as vizinhas e amigas. Depois fez cursos profissionalizantes e começou a atuar como cabeleireira. “Como todas as profissionais eu também faço alisamento. Também sei usar química. Mas para cuidar do meu próprio cabelo fiz cursos e especializações em cabelos naturais. Com isso, quando uma mulher senta na minha cadeira eu tento descobrir se ela quer ser lisa ou ela quer fazer o que as pessoas esperam dela. Mas, confesso, que faz algum tempo que não trabalho com química. Desde o início da pandemia tenho cacheadas todos os dias e minha agenda está lotada de cabelo reais. Coisa que eu adoro”. 

A agenda da profissional reflete a qualidade de seu trabalho, mas mostra também a carência desse atendimento na cidade. “Eu comecei a transição três vezes e desistia, porque para tratar eu ia na Barra da Tijuca. Só sabia de um profissional de cabelo natural lá, e depois descobri um na Baixada Fluminense. Ter a Suzana em São Gonçalo é um presente para as mulheres”, disse uma cliente da profissional. 

Apesar de atualmente viver do trabalho com o cabeleireira Suzana destaca que é  importante não escolher a transição só porque virou moda. “A transição é  uma redescoberta que começa internamente. É  importante que a mulher queira, se reconheça. Temos que lutar para que o cabelo cacheado não vire obrigação, como o cabelo liso virou nos anos 2000. Você pode alisar, se você quiser. Mas se você optar por ser natural, tenho orgulho de oferecer ajuda e ensinar você cuidar das suas ondas em casa”, finalizou a profissional. 

Suzana atende com hora marcada e segue as recomendações do Ministério da Saúde. Para detalhes visite a página @bysuzanabrito ou pelo telefone 21 98327-1487.

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