Terreiro de Candomblé é depredado por vizinho durante festa para Yemanjá em Jacarepaguá

Mais um caso de intolerância religiosa ocorreu no último sábado, no bairro do Anil, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio. Um terreiro na Rua Araticum fazia uma homenagem para Yemanjá quando, por volta das 18h30, um vizinho que se dizia evangélico, começou a xingar e depredar o terreiro. O relato foi feito pelos dirigentes do O Ilê Àsé Babami Erinlé e Ogunté, Cristina D Yemanjá, iyalorixá de 50 anos, e o babalorixá Felipe D Odé, 33 anos, com 11 anos de iniciado.Segundo a iyalorixá, que está há pouco mais de um ano no local, seguindo com sua religiosidade e seu Egbé (comunidade) com as funções religiosas e atendimentos ao público para caridade, o espaço pertence a outro religioso de matriz africana, que é por sinal, cunhado do agressor e deu apoio à denúncia na delegacia.

O templo fica em uma estrada sem saída e a mãe de santo alega que o vizinho já tem histórico de agressões contra o espaço, que já sofreu corte de luz e ouviu reclamação de barulho quando realizava atividade religiosa.”Ele já vem jogando piadinhas e vem nos incomodando já há um certo tempo, mas não demos importância, até esse sábado”, falou.

Tudo começou com uma discussão sobre a melhor forma de escoar a água provocada pela chuva. Como a casa receberia visitas, a sacerdotisa estava arrumando a entrada do terreiro.Mãe Cristina acrescenta ainda que tentou deixar a situação de forma pacífica, mas se viu encurralada e receosa com o descontrole do vizinho, identificado como Magnno Gomes Lúcio. Ele usou uma escada para quebrar o telhado de um espaço reservado da casa. Em seguida, quebrou os objetos sagrados do terreiro.

Segundo a acusação, ele fez várias ofensas como “vocês são um bando de macumbeiros. Não quero macumba aqui”, “Por isso que não gosto de macumba”, “Odeio macumbeiros”, entre outros. Quando policiais da 32ª DP (Taquara) chegaram, por volta das 19h, o agressor alegou que o ataque de fúria foi porque se sentiu ameaçado, tendo uma bebê de quatro meses em casa, negando ter cometido intolerância religiosa.A sacerdotisa se disse estarrecida. “Quem irá arcar com o prejuízo, seja moral, ofensivo ou material?”, lamentou. Cristina e seu irmão Felipe, denunciaram o caso na Agen Afro e foram orientados a levar o caso para a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (DECRADI), especializada em casos de intolerância religiosa do Rio. A ocorrência foi registrada na 32ª (Taquara).

De acordo com a Polícia Civil, o autor foi autuado por dano. Um inquérito foi instaurado para apurar o crime de intolerância religiosa e as investigações estão em andamento.O professor e babalawô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), lamentou mais um caso de intolerância religiosa. “Esse caso é uma prova de como estamos sem proteção, qualquer pessoa se acha no direito de profanar e ultrajar nossa religião”, falou.

Segundo Ivanir, 2020 já tem muitos registros de intolerância: “Só neste ano, e olha que estamos no início de fevereiro, recebi oito casos, sendo sete deles envolvendo o segmento de matriz africana. É preciso prender, punir, processar…”, desabafa o sacerdote, que aguarda alguma posição das autoridades públicas.

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