Teatro Municipal de São Gonçalo é reinaugurado, mas segue sem receber eventos

Um dos empreendimentos públicos mais desejados pela população de São Gonçalo, o Teatro Municipal, ao que parece, acabou virando palanque político. Assim como no mandato do ex-prefeito Neilton Mulim, que ‘inaugurou’ o teatro às pressas – apesar do local nunca ter sediado nenhum evento – e fez a entrega das chaves às escondidas no dia 31 de dezembro de 2016, último dia do seu governo, o atual prefeito José Luiz Nanci ‘reinaugurou’ o espaço, também sem previsão de funcionamento, no fim de seu mandato.

O último dia 14, data em que o teatro foi entregue, era coincidentemente o último dia que Nanci poderia participar de inaugurações de obras públicas. De acordo com a determinação da justiça eleitoral, nenhum pré-candidato às eleições pode cumprir este tipo de agenda há menos de três meses do primeiro turno do pleito.

Durante a campanha eleitoral, José Luiz Nanci, no final de 2016, na época pré-candidato, se comprometeu a dar prioridade para o Teatro Municipal, tendo em vista que seria um marco na história da cidade em 125 anos – atualmente completados 129 anos. Além disso, Nanci chegou a assinar a ‘Carta de Cultura de São Gonçalo -Eleições 2016’, se comprometendo com a classe artística.

Em cerimônia fechada, Nanci entregou as chaves do teatro ao Secretário de Cultura Carlos Ney Ribeiro

E o questionamento que fica é: por que a gestão Nanci levou tanto tempo para entregar o Teatro Municipal? E como a obra do Teatro passou de R$ 12 milhões, valor divulgado no governo Mulim em 2016, para R$ 13 milhões no governo Nanci? A Prefeitura diz que após a comissão instaurada pelo executivo, foi verificado que haviam itens em desacordo com o projeto, sendo assim, foi assinado um acordo extrajudicial, homologado junto ao Ministério Público (MP), para que a construtora responsável se adequasse.

Após a revisão, que segundo a Prefeitura foi realizada com o apoio de uma equipe de engenheiros do próprio MP, o valor aumentou em R$ 1,3 milhões e será pago até dezembro deste ano. “Nenhum valor foi gasto até o momento nesta gestão”, disse a prefeitura em nota.

Prefeito Neilton Mulim visita obra do Teatro Municipal de São Gonçalo em 2016

Indignação da classe artística

Os maiores interessados no empreendimento, a classe artística, ficou de fora do evento, sem nem mesmo ter sido avisada que aconteceria tal ‘inauguração’. Vendo isso como uma grande encenação, membros do Fórum Gonçalense de Cultura e artistas da cidade, que travaram uma batalha com as autoridades para que o Teatro fosse aberto, estão revoltados com a forma que tudo aconteceu.

Segundo eles, a Secretaria Municipal de Cultura não repassou nenhuma informação sobre a entrega de chaves do local ao secretário municipal de Turismo e Cultura, Carlos Ney Ribeiro e essa reinauguração foi mais uma comprovação de descaso com a classe.

Cleise Campos, de 55 anos, membro do Fórum Gonçalense de Cultura e ex-secretária Municipal de Cultura da cidade gonçalense revelou que a informação da reinauguração nem foi mencionada em um grupo de mensagem onde estão nove Conselheiros da prefeitura. Esses conselheiros, considerados mediadores entre população e o governo, com objetivo de formular políticas públicas, tampouco fizeram contato por e-mail com o Fórum.

Em desabafo, Cleise concluiu: “Cerimônia de entrega de chaves escondida, sem uma notícia ou convite para o setor cultural”. Além dela, outras artistas se mostraram indignados com a possibilidade de um oportunismo político em cima do Teatro.

O poeta e escritor gonçalense Rodrigo Santos disse que o Teatro é uma afronta. “Construído por um valor 7 vezes maior do que o necessário, 4 anos parado e agora a prefeitura vem fazer “entrega de chaves”. O prefeito nunca se preocupou com a cultura da cidade, muito menos com o teatro”.

Rodrigo disse ainda que a secretaria de Cultura é ineficaz e não escuta a classe artística. Passando todos os dias na frente do Teatro Municipal, ele desabafa. “É um lembrete diário do escárnio e desprezo com que a arte e a cultura são tratadas nesta cidade. E São Gonçalo segue sendo um cemitério de sonhos”, disse ele.

A atriz gonçalense e diretora teatral, com passagem em produção pela França e Argentina, Rosite Val, também se mostrou indignada com o cenário cultural da cidade. “Me parece que faltou diálogo pois acredito que se tivessem emitido uma nota anterior sobre a “cerimônia”, a classe não se sentiria tão “traída”. Pelo que venho lendo, há anos falta um real diálogo entre a classe e a Secretaria”, disse Rosite.

Reabertura oficial do Teatro Municipal

De acordo com a Prefeitura, o Teatro foi inaugurado na sexta (14) sem a presença do público por causa da pandemia causada pela Covid-19. Porém, mesmo com a reabertura, o Teatro estará com as portas abertas apenas de forma simbólica, já que seu funcionamento só poderá acontecer quando a situação se normalizar.

O teatro, que custou pouco mais de R$ 13 milhões, foi construído para suportar uma capacidade de 240 pessoas e poderá receber apresentações musicais, de dança e teatro.

Impasses judiciais

Em agosto de 2019, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) expediu uma recomendação ao prefeito José Luiz Nanci, que constava um prazo de 60 dias para que o Teatro Municipal realizasse todos os atos necessários para que fosse finalizado o contrato com a empresa RL2 Engenharia.

Além disso, o MPRJ pediu para que a prefeitura apresentasse documentos que mostrassem exatamente o que foi executado durante a obra, contemplando por meio de plantas e memoriais todos os serviços executados e especificações detalhadas dos materiais utilizados para a construção.

Entretanto, mesmo com esses pedidos solicitados, a inauguração só aconteceu um ano depois, em meio a crise do coronavírus.

Em nota, a secretaria de Cultura informou que a inauguração não foi às escondidas e sim, respeitando os protocolos da pandemia, sem aglomeração. “Por isso a entrega das chaves aconteceu sem convidados”.

*Estagiária sob supervisão de Thiago Soares

Teatro Municipal era para ter sido entregue, finalizado, em 2016, no mandato de Neilton Mulim

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