Sepultamentos no Rio disparam 40% no 1º trimestre e cemitérios aceleram expansão

Os sepultamentos nos 13 cemitérios públicos e oito privados da cidade do Rio de Janeiro saltaram 40% do primeiro trimestre de 2020 para o mesmo período de 2021. O levantamento da Secretaria Municipal de Conservação da Prefeitura do Rio de Janeiro feito a pedido da CNN aponta que a diferença foi de quase 6 mil enterros e cremações entre um período e outro. Pelo menos nove cemitérios estão abrindo mais espaço, parte disso para dar conta dessa nova demanda.

Em 2020 foram 14.732 sepultamentos. No começo de 2021, 20.636. Na prática, o mês de fevereiro teve uma redução nos sepultamentos em solo carioca, mas o mês de março mostrou uma nova aceleração. Em janeiro de 2021 foram 7.375 mortes, em fevereiro o número caiu 20% e foram contabilizado a 5.943 sepultamentos. Em março, o número voltou a subir 23%, a um patamar semelhante a janeiro, com 7.318 velórios realizados nos 21 cemitérios cariocas.

Os números não são relativos apenas a mortes por Covid-19, mas a todos os casos de pessoas enterrados ou cremadas no Rio. Ou seja, se uma pessoa morreu na cidade do Rio mas foi velada e sepultada no interior do estado ou em outro estado, ela não estará nesta conta. Por outro lado, corpos trazidos de outros estados e sepultados no Rio, entram na estatística.

Com a Bíblia na mão, o cuidador de idosos Márcio Coutinho se despede do tio Aureliano, que morreu aos 75 anos, vítima do coronavírus. A família não pôde fazer velório e foi orientada a reduzir o número de pessoas na despedida, ao ar livre. “Essa união, nesse momento triste que a pessoa tá passando, essa união que faz toda diferença. Ainda que distantes, devido à situação. Esse mal vai passar e isso tudo servirá de reflexão”, diz ele. O sepultamento de Aureliano foi acompanhado pela CNN no fim da tarde desta terça-feira, 6/4. Ele foi uma das nove vítimas de Covid-19 enterradas no Caju de um total de 35 sepultamentos.

Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Cemitério do Caju, na zona norte do Rio

Em meio à saudade, o arrependimento bateu para o aposentado José Carlos Aguiar. Ele perdeu a irmã, Mirian, aos 75 anos. A família toda mora na mesma avenida e os parentes estavam visitando uns aos outros com frequência. “Nós nos descuidamos muito muito muito. O recado que eu tenho que dar para todos é que se cuidem porque você só sente a dor quando chega dentro da tua casa. Enquanto você não sente você se descuida”, disse ele à CNN.

A primeira morte no estado do Rio de Janeiro foi de uma empregada doméstica que pegou coronavírus trabalhando. A patroa dela havia viajado para a Itália, país onde, àquela altura, o vírus se espalhava desenfreadamente. A mulher de 63 anos, no entanto, acabou morrendo na cidade de Miguel Pereira, no sul do estado, no dia 17 de março de 2020.

estado do Rio de Janeiro foi um dos mais castigados pelo coronavírus, com pessoas morrendo à espera de um leito de UTI. Nos dados atualizados nesta segunda-feira (5/4), a Secretaria Estadual de Saúde contabilizava 640 pacientes diagnosticados com Covid-19 na fila de espera por uma vaga na UTI.

Silvio Cavalcante veio para o Rio de Janeiro ainda criança com a mãe. Natural de João Pessoa, na Paraíba, ele era auxiliar de manutenção até a pandemia começar, quando foi demitido. Um amigo o convidou pra trabalhar como sepultador no cemitério do Caju. Ele aceitou a proposta e, um ano depois, mudou completamente a forma de enxergar a dor do outro.

O papel de Silvio é rebocar as gavetas onde são colocados os caixões no cemitério vertical, incluindo de quem morreu com coronavírus. Ele vai para o cemitério sem nenhum pertence pessoal, ‘só com a roupa do corpo’, diz. Quando chega em casa, logo tira todo o uniforme e lava. Mas ainda assim, continua sentindo o que viveu no dia de trabalho. “Porque nós somos humanos, né. Eu tô hoje desse lado e amanhã quem sabe se tem uma família alguém da minha pessoa do outro lado”, disse à CNN.

Obras de expansão

No cemitério do Caju, o maior do Rio de Janeiro, já são seis blocos com 384 gavetas cada erguidos desde 2016. Metade deles foi construída durante a pandemia. Como esse, outros cinco cemitérios da concessionária Reviver e três da concessionária RioPax estão em obras de expansão. No caso da Reviver, o movimento foi acelerado por causa do coronavírus.

“Eu acredito que nosso plano deu bastante certo na primeira onda que a gente teve aqui no Rio de Janeiro, pelo menos no nosso cemitério. Em questão de vagas de sepultamento, todos aqui foram sepultados [em valas ou gavetas] individuais, não teve sepultamento coletivo”, diz Mauricio Milano, gestor de registro e processos da Reviver.

Cemitério do Caju, na zona norte do Rio
Cemitério do Caju, na zona norte do Rio

O plano de contingência da concessionária para o Caju prevê ainda que, no caso do movimento de velórios, cremações e enterros aumentar significativamente, o funcionamento possa ser 24 horas, com sepultamentos noturnos, rotas de circulação para veículos que transportam vítimas da Covid-19 e uma lista de ‘emergência’ feita pelo departamento de recursos humanos. A lista tem o contato de cerca de 100 pessoas que moram nos entornos do Caju, na zona Norte do Rio, e já estão cadastradas para um eventual mutirão de emergência.

No caso da RioPax, que tem seis cemitérios, estão em obras três deles. Campo Grande, Irajá e Inhaúma. A concessionária informou à CNN que a expansão já era prevista antes da pandemia. Já os protocolos de sepultamento também foram alterados nos locais administrados por eles.

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