Sem público e desfile, posse de Biden reflete a transição atípica de poder

A pandemia do novo coronavírus e a ameaça de protestos violentos ditaram as regras da posse de Joe Biden como o 46º presidente dos EUA. Remodelada e sob forte proteção militar, sem público — representado por 200 mil bandeiras enfileiradas no National Mall –, sem desfile e bailes, a cerimônia é mais um reflexo da transição de poder mais insólita da História moderna.

O presidente que sai apresenta o índice de popularidade mais baixo de seu mandato. Carrega o peso de dois impeachments e pode virar réu em dez processos em tribunais americanos. O rancor e a vaidade o impediram de reconhecer a derrota eleitoral e cumprir a transferência pacífica do cargo ao sucessor. Donald Trump e Melania deixam a Casa Branca quatro horas antes da posse, ostentando o desprezo por um dos rituais mais marcantes da democracia americana.

Não custa lembrar que, há quatro anos, o casal era recebido nas escadarias do Pórtico Norte da Casa por Michelle e Barack Obama, que oito anos antes foram ciceroneados por Laura e George W.Bush, saudados em 2001 por Hillary e Bill Clinton.

Nos últimos 150 anos, a tradição desse rito de passagem sempre esteve acima de qualquer divergência política e partidária. O atual presidente, no entanto, rompeu com todas barreiras da civilidade nos dois meses que se seguiram à derrota nas urnas. Jill e Joe Biden serão recebidos pelo porteiro-chefe da Casa Branca, enquanto Melania e Donald Trump já estarão a 1.600 quilômetros de distância, no resort Mar-a-Lago, na Flórida.

O atual presidente inviabilizou a própria presença na cerimônia de quarta-feira, a ponto de ser esnobado pelo presidente eleito: “É uma das poucas coisas em que eu e ele concordamos.”

Como sintetizou o consultor David Axelrod, ex-estrategista de Obama, Trump tomou a decisão certa ao se ausentar da cerimônia no Capitólio. “Teria sido profano vê-lo sentado nos mesmos degraus onde a turba que ele incitou havia atacado duas semanas antes.”

Banda do exército americano ensaia para a posse do presidente Joe Biden, em Washington DC, na segunda-feira (18) — Foto: Greg Nash/Pool via Reuters No juramento no Capitólio, Biden terá a companhia de outros antecessores — Clinton, Bush e Obama. O distanciamento social imposto pela pandemia afastou o público da festa e livrará os americanos da controvérsia infantil que caracterizou Trump no primeiro dia como presidente: a disputa pelo recorde de público na posse.

Os tempos exigem contrição. Com quase 400 mil mil mortos, o país está de luto. Não há clima para desfiles pelo National Mall nem para o périplo do casal presidencial, à noite, por bailes de gala em Washington, que serão substituídos por um concerto virtual.

A escala reduzida da posse contrasta, contudo, com a cerimônia de despedida que Trump planeja para si próprio, de manhã cedo na Base Aérea de Andrews em seu último ato como presidente. Terá direito a saudação com 21 tiros, tapete vermelho e guarda militar. Num incentivo à aglomeração, cada convidado pode levar mais cinco. Mas a lista de confirmações, por enquanto, está diminuta.

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