Sem aplacar Covid, país inicia campanha contra gripe, que pode fugir do controle

O Brasil começa amanhã a imunização anual contra a gripe, doença que pode levar à morte e que é mantida sob controle com milhões de doses de vacina. Mas a cobertura cai há três anos e, com o desafio paralelo da vacinação contra Covid-19, especialistas temem que a aplicação volte a cair e a influzenza volte a matar mais, causando uma tempestade dentro da tormenta da pandemia.

A preocupação se amplia, dizem os cientistas, porque o governo federal não realizou ações informativas específicas e poderia ter dado diretrizes mais claras a estados e municípios, encarregados do desafio logístico da campanha dupla.

Para a gripe, a preocupação não é falta de doses — as 80 milhões previstas estão garantidas. Mas há dúvidas, por exemplo, sobre medidas para evitar aglomeração e a garantia de tempo de intervalo entre a aplicação dos imunizantes.

— Minha preocupação é que caia a cobertura da gripe. Covid é prioridade, mas gripe não pode ser negligenciada: a vacina contra ela reduz muita morte — diz a epidemiologista Carla Domingues, que de 2011 a 2019 esteve à frente do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

Carla diz que, nos últimos três anos, a cobertura de crianças e gestantes caiu e está abaixo do mínimo de 80%. Em 2020, ficou em 78%.

O vacinologista da UFRJ Herbert Guedes sublinha que a gripe, quando se agrava, afeta os pulmões de forma semelhante à Covid-19 e compete com ela por leitos. Por isso, a vacina contra ela nunca foi tão importante.

— A proteção contra a gripe só se mantém com vacina, pois o vírus está em circulação. A gripe é como um cão feroz contido com coleira. A vacina é a coleira. Se tirar, o cão ataca — diz.

Sobram motivos para apreensão. De exemplo mundial de competência com o PNI, o Brasil se tornou pária da saúde pública internacional, recordista em mortos e miserável em vacinas contra a Covid-19, destaca a sanitarista Ligia Bahia, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC) da UFRJ:

— Há um risco de retroceder contra a gripe. Isso tem que ser impedido, seria uma tragédia ainda maior.

Desde 17 de janeiro, só 4% da população foi imunizada, isto é, tomou as duas doses contra a Covid-19. E 99% destes e 82% do total receberam a CoronaVac, imunizante que não fazia parte da estratégia do governo federal, salienta o epidemiologista Guilherme Werneck, também do IESC. Para especialistas, a aposta inicial numa única vacina é um exemplo contundente da falta de estratégia e competência.

— Todo programa de vacinação tem metas detalhadas, mas no Brasil hoje isso não existe, e o resultado é o desastre que vemos. No caso de duas vacinações imensas e simultâneas, a complexidade aumenta. Não existe uma campanha de informação maciça para explicar à população como proceder num momento tão complexo — frisa Werneck.

Fila, em março de 2020, para vacina da gripe em posto no Catete, no Rio. Município não deu detalhes da campanha este ano Foto: Guilherme Pinto / Guilherme Pinto

Intervalos podem ser complicador

A vacina da gripe não pode ser administrada 15 dias antes nem 15 dias depois dos imunizantes contra a Covid-19. Isso por si só já seria um complicador. Mas, para agravar, as vacinas da Covid-19 têm intervalos diferentes entre as duas doses: de 15 a 21 dias para a CoronaVac e até 90 dias para a Astrazeneca.

O presidente da Sociedade Brasileira de Virologia, Flávio Fonseca, pesquisador da UFMG, diz que o intervalo é necessário porque as vacinas contra a Covid-19 são novas e ninguém sabe ainda como vão interagir com outras. A cautela é necessária.

O Butantan também é o fabricante da vacina da influenza e anunciou que estão garantidas para o SUS as 80 milhões de doses do imunizante — que podem ser encontradas na rede privada.

— É preciso um controle enorme sobre quem está tomando o que e quando. É um elemento a mais num descontrole que já existe — diz Guilherme Werneck.

E 2022 pode trazer um quadro pior, já que a vacina da gripe terá que ser renovada ao passo que muitos ainda não terão tomado a da Covid. Detalhe: existe a possibilidade de que os imunizantes contra a Covid também tenham que ser anuais e todos tenham que se revacinar — seja pela emergência de novas variantes ou porque a proteção pode ser temporária.

‘Gripe mata e muito’, alerta pediatra

O pediatra Daniel Becker, membro do Comitê Científico de Acompanhamento de Ações contra a Covid-19 da Prefeitura do Rio, enfatiza que a vacina da gripe é extremamente importante para crianças, gestantes e idosos.

— Para crianças, é absolutamente fundamental. Sem ela, vamos ter crianças precisando de UTI, porque a gripe mata e muito — alerta Daniel Becker.

A campanha maciça de informação cobrada pelos cientistas não está nos planos. Procurado pelo EXTRA sobre como comunicará a população a respeito da vacinação da gripe, o Ministério da Saúde respondeu que haverá “mais informações no lançamento, na segunda-feira, para atualizar”. A pasta deu dados gerais sobre a campanha.

Sobre as imunizações paralelas, a orientação do Ministério da Saúde é priorizar a vacina contra a Covid-19 “respeitando intervalo mínimo de 14 dias” entre ela e a da gripe.

Estratégias nas mãos de cada município

A cidade de São Paulo usará apenas estabelecimentos de educação para fazer a campanha de vacinação contra a gripe este ano. A medida, diferente das diretrizes de anos anteriores, tem o objetivo de separar o público dessa imunização da que vai tomar doses contra a Covid-19.

— A ideia é justamente que a gente não faça qualquer aglomeração e cruzamento dessas populações que estão recebendo dois tipos de vacinas diferentes — destacou Edson Aparecido, secretário municipal de Saúde, na quinta-feira.

O município do Rio de Janeiro não informou detalhes da campanha. Em resposta ao EXTRA, a Secretaria municipal de Saúde informou que está decidindo junto à secretaria estadual “as questões técnicas”.

Já a Secretaria de estado de Saúde (SES) diz que “cabe aos municípios a gestão da vacinação e os locais onde serão aplicadas”. Afirmou também que “o controle da aplicação das vacinas será feito pelos municípios, anotando as datas no comprovante de vacinação no dia da imunização” como forma de evitar a aplicação dos dois imunizantes antes dos 15 dias.

A vacinação contra a gripe terá três etapas

1ª etapa

de 12 de abril a 10 de maio

Grupos prioritários: crianças, gestantes, puérperas, povos indígenas e trabalhadores da saúde (25,2 milhões de pessoas)

2ª ETAPA

de 11 de maio a 8 de junho

Grupos prioritários: idosos e professores (32,8 milhões de pessoas)

3ª ETAPA

de 9 de junho a 9 de julho

Grupos prioritários: pessoas com comorbidades ou deficiências permanentes, caminhoneiros, trabalhadores do transporte coletivo rodoviário, trabalhadores portuários, membros das forças de segurança e do exército, funcionários do sistema prisional, jovens de 2 a 21 anos sob medidas socioeducativas e população privada de liberdade.

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