Roubos no Rio sobem 23% em abril, na comparação com 2020

Até abril deste ano, o corretor de imóveis Gustavo (nome fictício) nunca havia sido assaltado no Rio, onde mora desde 2004. Mas, naquele mês, ele teve seu carro roubado em Ipanema e mal teve tempo para se indignar, pois logo em maio um assaltante levou seu celular, no Flamengo. Após o segundo roubo, o corretor bloqueou seu celular e passou a receber ameaças dos assaltantes, com mensagens no whatsapp exibindo seus dados e cobrando o desbloqueio. Por causa disso, ele pediu para não revelar o seu nome na reportagem.

Se no início da pandemia os dados de criminalidade caíram, acompanhando a quarentena, as últimas estatísticas estão mais próximas do patamar da série histórica. Somente em abril – dado mais recente do Instituto de Segurança Pública (ISP) – houve 9.721 casos de roubo no estado, o que representou uma média de 13 roubos por hora.

Na comparação entre abril de 2021 e abril de 2020, houve aumento de mais de 20% no número de roubos no Rio. Essa é a primeira vez que é possível fazer um recorte de dados de um mesmo mês (nesse caso, abril) em dois anos diferentes dentro do período de pandemia, que se iniciou, no Brasil, em meados de março. Para especialistas, a redução do isolamento social influenciou nos índices, mas há ainda outros fatores envolvidos, como crise econômica e disputa de facções.

O roubo do carro de Gustavo foi tema de uma matéria do GLOBO, em abril, quando o veículo foi encontrado, já em processo de desmanche, num ferro-velho em Campo Grande. Câmeras de segurança da Rua Barão da Torre mostraram o momento em que o corretor foi surpreendido por dois homens armados. O assalto de maio foi feito de um modo que vem se tornando frequente na cidade: motoqueiros ou pessoas em bicicletas se aproveitam do momento de distração da pessoa e arrancam o celular de sua mão.

— Eram 14h34, eu estava com o celular na mão, e fone no ouvido, quando um motoqueiro veio na contramão e arrancou o aparelho. Ainda achei um motoboy para me ajudar a seguir o celular, pelo GPS. Último endereço visto foi na Rua do Lavradio. Depois, bloqueei o celular e então dois ou três dias depois, eles me mandaram foto de um fuzil e dados meus e da minha filha. Ameaças foram breve, para tentar o desbloqueio — explica a vítima. — Eu nunca tinha sido assaltado antes mas em um mês foram dois casos. Muita gente continua andando com o celular tranquilo na rua, é preciso alertar.

Caso semelhante ocorreu com o engenheiro Gerson Moreira. Em fevereiro, enquanto estava num carro de Uber voltando para casa, uma pessoa botou a mão por dentro da janela, pegou seu aparelho e fugiu. Quando foi fazer um registro de ocorrência na delegacia, o agente lhe disse que esse tipo de assalto estava acontecendo com frequência na região.

— Eu estava na Avenida Atlântica, na altura da Rua Miguel Lemos, e mexendo no celular, com a janela entreaberta. Quando o carro parou no celular, dois jovens andando de bicicleta se aproximaram e uma delas botou a mão por dentro e puxou o celular. O motorista até tentou dar a volta e eles fugiram — conta a vítima.

Aumento de 23,2% em comparação com abril de 2020

Os números mostram um aumento de 23,2% no total de ocorrências de roubo, na comparação de abril de 2021 com abril de 2020. Foram 9.721 casos contra 7.893 registros no ano anterior. Por outro lado, quando analisados os primeiros quatro meses do ano, houve queda: foram 42.686 registros de roubo entre janeiro e abril de 2021, contra 50.222 no primeiro quadrimestre de 2020, uma redução de 15% nas ocorrências. Vale lembrar que entre janeiro e março de 2020, o Rio ainda não vivia as medidas restritivas por causa do Covid-19. Outros índices, como homicídios dolosos e mortes em confronto com a polícia, tiveram queda em abril, na comparação com o mesmo mês do ano passado.

Analisando-se apenas abril, porém, os principais índices de roubo que o ISP desagrega (são 13 índices no total) tiveram aumentos expressivos na comparação com abril de 2020, quando a pandemia estava em sua fase inicial e as medidas de distanciamento social e fechamento de estabelecimentos comerciais e escolas haviam acabado de ser implementadas. Até junho do ano passado (quando houve 7.920 ocorrências no estado), o número de roubos se manteve num patamar muito abaixo da média histórica, e o primeiro grande salto foi em julho, quando a quantidade pulou para 10.174 roubos, e justamente próximo ao momento de relaxamento maior das restrições econômicas. Desde então, o número sofreu poucas oscilações.

Ponto na Barra ganha ‘alerta’ contra assaltos

O vigia de segurança Jackson Duarte foi assaltado três vezes num período curto. A primeira em 2019, dentro de um ônibus, próximo à Cidade de Deus, e as duas outras num mesmo local, no ponto de ônibus da Avenida Ayrton Senna, em frente à Vila do Pan, no sentido da Barra. Neste local, explica, os assaltos são tão recorrentes que colaram, no vidro, um adesivo com a frase “Atenção. Área de assalto, tome cuidado!”.

— Depois disso, uma patrulha da Polícia ficou no ponto por dois dias, mas não durou muito — afirma Duarte, que trabalha num condomínio na Avenida Abelardo Bueno. — Colaram o aviso porque ninguém aguenta mais. Se perguntar para os passageiros quem já foi assaltado, as respostas vão assustar. Já vi alguns roubos quando saio do trabalho, à noite, porque aquela área é muito deserta.

Em Copacabana, onde houve o maior aumento percentual de roubos — 440% — entre abril de 2020 e de 2021, o presidente da Associação de Moradores, Horácio Magalhães destaca a flexibilização das atividades comerciais como causa para estatística, o que aumentou circulação de pessoas nas ruas.

— Com bastante frequência os agentes do Segurança Presente avisam no grupo de whatsapp do bairro que algum celular foi recuperado. O bairro até está bem policiado, mas infelizmente tem sido fato comum (os assaltos). Há muitos oportunistas que se aproveitam do fluxo alto de pessoas nas ruas — afirma Magalhães, que também lembra de ocorrências contra lojas, principalmente de grandes redes de mercado, farmácias e conveniência.

Maiores estatísticas por bairros

Percentualmente, o maior aumento no estado entre as modalidades de roubo foi nos roubos em ônibus: 105,1%. Mas em números absolutos, o roubo a pedestre é o que mais se destaca: cerca de um em cada três ocorrências de roubo em abril são desse tipo. O crescimento do roubo a pedestre foi de 30,6%, na comparação entre abril deste ano e o mesmo mês de 2020.

Olhando-se para as regiões do estado, todas tiveram aumento no registro total de roubos. O maior crescimento ocorreu no interior, onde os casos passaram de 467, em abril de 2020, para 623 no mesmo mês deste ano, alta de 33,4%.

Uma análise das áreas de delegacia (Cisps, ou Circunscrições Integradas de Segurança Pública) mostra que os maiores aumentos nos registros de roubo em abril ficaram espalhados por diversas regiões do Estado do Rio. Foram desconsideradas as Cisps com menos de dez registros de roubo em abril, para reduzir as distorções estatísticas. Além de Copacabana, as Cisps 15 (Gávea) e 16 (Barra da Tijuca) também tiveram aumento de casos. Cisps do interior (105 – Petrópolis; 124 – Saquarema) e da Grande Niterói (79 – Jurujuba) aparecem na lista das dez áreas de delegacia com maior subida no índice. Das 137 Cisps do estado, apenas 35 apresentaram em abril deste ano uma queda no total de roubos, na comparação com o mesmo mês de 2020.

Outro índice que apresentou grande aumento é o roubo ao comércio. A Cisp 59 (Duque de Caxias) se destaca, passando de nenhum roubo a estabelecimentos comerciais em abril de 2020 para dez ocorrências no mesmo mês deste ano; ela é seguida pela Cisp 19 (Tijuca), de 1 para 12 casos, pela Cisp 32 (Taquara), de dois para 14 ocorrências, e pela Cisp 29 (Madureira), que foi de dois casos em abril de 2020 para 13 em abril de 2021.

Já o roubo a veículo apresentou as maiores subidas em áreas de delegacia das zonas Norte e Oeste e da Grande Niterói. O maior crescimento — usando-se novamente o filtro de pelo menos dez ocorrências registradas em abril de 2021 — foi na Cisp 26 (Todos os Santos), que teve 16 ocorrências de veículos roubados este ano, contra apenas três em abril de 2020. Em termos absolutos, a área da 39ª DP (Pavuna) teve o maior número de veículos roubados em abril deste ano: 110 ocorrências, ou um registro a cada seis horas e meia, em média; lá, o crescimento nos casos foi de 4,8%, comparando-se abril deste ano com o mesmo mês de 2020.

Especialistas comentam

Na análise de especialistas, a redução do isolamento social é relevante, mas os problemas vão além. Marcial Suarez, professor do Departamento de Ciencia Política da UFF e pesquisador de segurança pública, destaca outro efeito da pandemia: a crise econômica.

— A ampliação da circulação de pessoas associada a deterioração do ambiente econômico pode explicar, num primeiro momento, o aumento no número de roubos, principalmente, de rua. O cenário sugere um fluxo da de crimes voltados à “capitalização imediata”, já que o roubo oferece liquidez de capital para outras atividades criminais. Ou ainda, podemos compreender que este aumento de roubos pode ser explicado pelo aumento expressivo de pessoas à margem do mercado econômico ou em vulnerabilidade social.

Para o advogado criminalista Rafael Medina, doutor em direito penal pela Uerj, a disputa por território pelas facções criminosas e as mudanças nas estratégias de atuação da polícia devido ao isolamento são hipóteses para o aumento.

— É indiscutível que a flexibilização faz parte disso, mas não é somente por ela. São dados de várias regiões, com problemas diferentes. Tem áreas mencionadas que, se quer, respeitam o isolamento. É preciso olhar para as disputas territoriais, para as alterações no modelo de atuação por causa da pandemia e até trocas no Executivo, que também reflete nesse modelo — analisa Medina.

Segundo Jacqueline Muniz, especialista em segurança pública e professora da UFF, são muitos fatores capazes de explicar os novos dados.

— É preciso analisar as inúmeras variáveis. Temos problemas com a diminuição da atuação policial, seja por restrições da atividade ou por diminuição da quantidade de policiais devido à pandemia; pelo retorno do fluxo de bens e serviços; pela queda do faturamento do crime por causa da pandemia. São vários pontos.

Polícia responde

Procurada, a Secretaria de Estado de Polícia Militar respondeu que a diminuição de circulação de pessoas nas ruas em 2020 resultou no declive do “cometimento dos crimes de oportunidade”, como “as diversas modalidades dos roubos de rua”. Já em 2021, destacou a PM, “atentos ao novo panorama (de maior circulação de pessoas nas ruas) os criminosos praticantes de delitos no perímetro urbano também buscaram a retomada de sua rotina de ilicitude”. Na nota, a PM ainda acrescentou que, numa comparação entre o primeiro quadrimestre de 2020 e o primeiro de 2021 houve queda nos índices, e que “segue aplicando sua estratégia de maneira inteligente e atrelada a análises detalhadas das manchas criminais das regiões”.

A Polícia Civil adotou a mesma justificativa, e respondeu que os índices de 2020 “foram impactados pelo isolamento social”.

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